15 livros essenciais sobre raça e racismo no Brasil + 10 dos Estados Unidos

A supremacia branca é um projeto global, e a luta contra ela e suas manifestações também deve ser. Ao contrário do que se diz estrategicamente em muitos espaços brasileiros, há sim muitas similaridades e pontos em comum no pensamento e luta antirracista brasileira e estadunidense. Neste texto indico 15 livros brasileiros e 10 livros americanos, dando ênfase a traduções, essenciais para o projeto antirracista. Em breve sugestões de outros países e regiões da afrodiáspora e África. Assine a newsletter para não perder.

15 livros brasileiros sobre raça e racismo






Tornar-se Negro
Neusa Santos






O livro da saúde das mulheres negras
Jurema Werneck, Maisa Mendonça, Evelyn C White (orgs.)


Coleção Feminismos Plurais
Curadoria: Djamila Ribeiro




Decolonialidade e Pensamento Afrodiaspórico
Joaze Bernardino-Costa, Nelson Maldonado-Torres, Ramón Grosfoguel (orgs.)


10 livros estadunidenses sobre raça e racismo

As Almas do Povo Negro
W. E. B. Du Bois



Racial Formation in the United States
Michael Omi e Howard Winant


Critical Race Theory: The Key Writings That Formed the Movement
Kimberlé Crenshaw, Neil Gotanda, Gary Peller, Kendall Thomas (orgs.)


The Racial Contract
Charles W. Mills






Entre o Mundo e Eu
Ta-Nehisi Coates

Extra: confira também a lista de livros sobre Raça e Tecnologia

Relatório Internet, Desinformação e Democracia

Como resultado das discussões estabelecidas no Seminário e na Oficina Internet, Desinformação e Democracia realizadas pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil – CGI.br, foi disponibilizado o Relatório Internet, Desinformação e Democracia. Cerca de 40 especialistas do CGI e representantes multissetoriais discutiram propostas agrupadas nas categorias de Ambiente Legal e Regulatório; Construção de Redes de Combate à Desinformação; Monitoramento, Controle e Prevenção; e Pesquisa e Formação. Clique abaixo para acessar:

Clube de leitura online debaterá “Comunidades, Algoritmos e Ativismos Digitais – olhares afrodiaspóricos”

O clube de leitura online do grupo/blog InspirADA na Computação decidiu debater o livro Comunidades, Algoritmos e Ativismos Digitais: olhares afrodiaspóricos!

O projeto busca contribuir na formação intelectual e social de estudantes e profissionais de tecnologia, computação e envolver outros de áreas como ciências humanas e comunicação. O lançamento será na próxima segunda-feira (06/04), às 19h, com um debate sobre cronograma de leitura, introdução e prefácio do livro. Visite o site da InspirADA na Computação para saber como participar:

Google acha que ferramenta em mão negra é uma arma

A desinteligência artificial é uma constante mesmo em grandes empresas reconhecidas pelos seus feitos na tecnologia digital. Na minha Linha do Tempo do Racismo Algorítmico há alguns casos como: a Google marcando pessoas negras como gorilas; Instagram vendo violência e armas onde não há; IBM e Microsoft não reconhecendo gênero de mulheres negras.

Internacionalmente esforços coordenados buscam proibir ou ao menos suspender o uso de inteligência artificial por instituições públicas, sobretudo em segurança pública. As taxas de erro são enormes, de Salvador até centros globais financeiros e tecnológicos como Londres. Atualmente a pandemia de COVID-19 tem sido a desculpa para empresas questionáveis forçarem a normalização de uso de tecnologias problemáticas seja no Brasil ou no exterior.

Mais um caso vulgar de erro em visão computacional foi mapeado. Nas imagens abaixo, o pesquisador Nicolas Kayser-Bril rodou duas imagens de pessoas segurando um termômetro na Google Vision, recurso de análise de imagens. Na foto com a pessoa asiática, as etiquetas “Tecnologia” e “Dispositivo Eletrônico” lideraram. Na com a pessoa negra, a etiqueta “Arma” foi marcada com 88% de certeza.

Esse tipo de erro é causado por um acúmulo de fatores, que vai da base de dados de péssima qualidade, lógica relacional do aprendizado de máquina falta de diversidade no campo e ao technochauvinismo dos profissionais da área que não criam ou reforçam mecanismos de representação adequada. A depender do seu ceticismo você está buscando motivos na imagem para justificar a questão? O pesquisador Bart Nagel responde com o experimento abaixo, onde embranqueceu a mão da foto:

Este é mais um de inúmeros casos da vulgaridade da aplicação da inteligência artificial para supostamente entender questões complexas e sociais da realidade. Mas quando falamos de segurança pública, o horror da necropolítica está agindo claramente. Os inúmeros casos de assassinato de cidadãos por policiais que se “confundiram” possuem uma ligação que não é coincidência com a estupidez da visão computacional. Não podemos, enquanto sociedade, permitir que o technochauvinismo avance ainda mais na segurança pública.

Veja mais casos do horror do racismo algorítmico na Linha do Tempo, entenda como estes recursos funcionam e são nocivos no artigo Visão computacional e Racismo Algorítmico: branquitude e opacidade no aprendizado de máquina e no relatório Interrogating Vision APIs, onde propomos metodologia de auditoria destes sistemas.

Colonização Algorítmica da África

Talvez um dos exemplos mais cínicos do caráter predatório das grandes corporações de plataformas seja o projeto Internet.org. Lançado pelo Facebook e empresas de infraestrutura, foi ao ar em 2013 com a suposta missão de “oferecer acesso à internet e os benefícios da conectividade à porção do mundo que ainda não as tem”. Na prática tinha como objetivo realizar um verdadeiro dumping de tecnologia em países do Sul Global como Brasil, Índia, Senegal, Quênia e outros países da África, Sudeste Asiático e América Latina. O primeiro impacto é gerar oligopólios, destruindo a neutralidade de rede nos locais, pois o acesso à internet oferecido pelo grupo e seus parceiros só poderia dar acesso a um punhado de serviços e websites.

O segundo impacto, mais relevante e de longa duração, com efeitos na economia, soberania, cultura e política é a construção de sistemas de infraestrutura, acesso e software que favorecem a extração de valores através da lógica de big data e correlações algorítmicas sobre os dados das populações destes países. Apesar do projeto Internet.org ter sido rechaçado em muitos países, alguns o aceitaram e, no final das contas, representa apenas uma face mais explícita do colonialismo algorítmico exercido por inúmeros meios.

Este é o tema principal do capítulo Colonização Algorítmica da África, publicado no livro Comunidades, Algoritmos e Ativismos Digitais: olhares afrodiaspóricos.

Convidei para o livro a premiada pesquisadora etíope Abeba Birhane, pesquisadora doutoral em Ciência Cognitiva na Escola de Ciência da Computação da University College Dublin.

No capítulo, Birhane nos descreve sobre a onda de enquadramento discursivo que busca posicionar a África como fonte de dados, “coleta de dados” que estariam disponíveis em um “data-rich continent”, termos que evocam a lógica colonial removendo o indivíduo.

Na primeira parte do capítulo, Birhane cita especialmente o caso sobre como o Facebook desenvolveu, usando imagens de satélite, um mapa de densidade populacional da África. A empresa se designou como responsável e autorizada a desenvolver este projeto sem articulação com os povos da África, sem refletir sobre o que é percebido como conhecimento legítimo sobre a população do continente.

As velhas justificativas a-históricas de “fornecer ajuda humanitária” e afins são usadas, subestimando como os diferentes povos e regiões da África avaliam suas prioridades.

Ao distinguir o poder colonial tradicional e o colonialismo algorítmico, Abeba Birhane diz que:

O poder colonial tradicional busca poder unilateral e dominação sobre as pessoas colonizadas. Declara o controle das esferas social, econômica e política, reordenando e reinventando a ordem social de uma maneira que o beneficie. Na era dos algoritmos, essa dominação ocorre não por força física bruta, mas por mecanismos invisíveis e diferenciados de controle do ecossistema digital e da infraestrutura digital. O colonialismo tradicional e o colonialismo algorítmico compartilham o desejo comum de dominar, monitorar e influenciar o discurso social, político e cultural através do controle dos principais meios de comunicação e infraestrutura.

Através de relatos sobre a conferência CyFyAfrica, Birhane mostra como formadores de opinião tem reproduzido acriticamente concepções erradas sobre questões relevantes para o continente, como por exemplo vincular o terrorismo online apenas a grupos islâmicos. O trabalho dialoga autoras americanas que criticam a falsa neutralidade da tecnologia, como O’Neil, Noble e Zuboff em conversa com pensadores de países africanos como Michael Kimani e Heidi Swart.

Leia o capítulo completo no livro que pode ser comprado na editora LiteraRUA ou baixado gratuitamente em PDF.

Acompanhe Abeba Birhane no Twitter e confira vídeos no YouTube, como esta palestra sobre injustiça algorítmica e ética relacional: