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	<title>Amálgama</title>
	
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		<title>Saramago e a irrelevância da literatura</title>
		<link>http://www.amalgama.blog.br/11/2009/saramago-e-a-irrelevancia-da-literatura/</link>
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		<pubDate>Tue, 10 Nov 2009 00:52:56 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[por Fernando da Mota Lima * &#8211; Apesar da idade e da doença, José Saramago continua ativo. Quando veio  ao Brasil lançar um de seus últimos romances, valeu-se de tal circunstância como um pretexto para se pronunciar  sobre questões políticas e inquietações humanas que seus leitores não têm idéia de como enfrentar. As [...]<p></p>
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			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignleft" src="http://amalgama.blog.br/imagens/092/josesaramago.jpg" alt="" width="290" height="193" /><em><strong>por Fernando da Mota Lima</strong></em> * &#8211; Apesar da idade e da doença, José Saramago continua ativo. Quando veio  ao Brasil lançar um de seus últimos romances, valeu-se de tal circunstância como um pretexto para se pronunciar  sobre questões políticas e inquietações humanas que seus leitores não têm idéia de como enfrentar. As aparições públicas de escritores de prestígio como Saramago e a natureza do discurso que desfiam para a mídia evidenciam a irrelevância da literatura no mundo contemporâneo.<span id="more-757"></span></p>
<p>Mesmo escritores que vivem antes de tudo para a literatura e nela efetivamente acreditam, não dão ênfase em suas falas públicas a questões de natureza estética ou literária. Suponho que gostariam de fazê-lo, que prezariam discutir a literatura enquanto tal ou as possibilidades de esta interferir na ordem prática do mundo enquanto discurso irredutível ao da política, da economia ou ainda da pura curiosidade mundana do público e da mídia ávida de mercadoria. O fato, porém, é que se pronunciam sobre tudo, ou quase tudo, e bem pouco, senão nada, sobre literatura.</p>
<p>Saramago reitera o discurso previsível, tudo que acima grosseiramente esbocei. Mais uma vez critica a crueldade do capitalismo e respalda sua crítica em Marx ou numa concepção socialista de sociedade e organização dos grupos humanos. Nada a objetar quanto ao diagnóstico. Também considero o capitalismo um sistema econômico cruel, gerador de atrocidades e misérias cotidianas. O que não consigo é seguir Saramago no terreno de suas convicções terapêuticas, para valer-me aqui de mais um termo da linguagem clínica. Se é verdade que o capitalismo é portador de todos os horrores incansavelmente denunciados por Saramago, e nesse sentido a obra de Marx preserva sua atualidade substancial, não há como fugir à evidência histórica de que  comunismo e possíveis variações socialistas não funcionam. Não sei se há alguma tintura de humor ou auto-ironia na justificativa que agora encontra para seu comunismo anacrônico: confessa-se ele um comunista hormonal. Gostei da designação, que leio um tanto na veia irônica ou humorística.</p>
<p>Penso hoje com mais clareza que o comunismo malogrou e sempre malogrará  por ser incompatível com as paixões humanas mais poderosas, aquelas que ontologicamente definem nossa condição. Sei bem que a teoria comunista reivindica a natureza histórica do ser humano. Trocando em miúdos, não existe natureza humana, existem formas históricas de ser humano. Num certo sentido, isso é sem dúvida verdadeiro. Valores humanos fundamentais, concebidos por conservadores e reacionários como se fossem investidos de eternidade, são comprovadamente transitórios, ou manifestam-se mediante variações históricas, fruto de modos particulares de ser observáveis em determinadas épocas e lugares.</p>
<p>Entretanto, já não duvido de que ao lado, e sobretudo acima disso, persistem características humanas que autorizam falar-se de uma natureza humana compreendida enquanto entidade constante, modo substancial de ser apreensível no conjunto da história humana. Presumo que Freud tinha isso em mente ao declarar seu ceticismo diante dos experimentos sociais então em processo na União Soviética governada por Stálin quando  escreveu <em>O mal-estar na civilização</em>. Atendo-me ainda a Freud, acredito haver no ser humano uma componente de agressividade indomesticável pela civilização. Igualmente acredito na nossa natureza irredutivelmente egoísta. Muito gostaria de acreditar nos ideais generosos teimosamente sustentados por Saramago. A evidência histórica, antes de tudo a evidência de minha experiência direta, provam-me o contrário.</p>
<p>É irrefutável a força condicionadora da sociedade ou do sistema econômico em muitas das ações humanas que traduzem o que em nós existe de bom e de ruim. O que de modo algum endosso é a convicção dos que atribuem nossa natureza a fatores puramente sociais. Querem dizer, mesmo quando assim não se pronunciam, que nossa maldade é socialmente adquirida, tem raízes puramente ambientes. Não penso assim. Seguindo Freud, penso haver um ingrediente biológico na nossa destrutividade. Portanto, um ingrediente irredutível à civilização ou a toda ideologia generosa empenhada em estabelecer neste mundo uma modalidade de organização humana fundada na solidariedade e em valores prevalentemente positivos. É uma utopia generosa, que de resto me seduziu na juventude, mas sei hoje irrealizável.</p>
<p>Igualmente longe de mim endossar o pessimismo daqueles que vêem o ser humano como mau, como investido de qualidades apenas negativas. Penso seguir ainda a lição de Freud quando acredito não numa natureza humana exclusivamente negativa, ou positiva, mas sim ambivalente. Em síntese, é esta a substância de minha convicção relativa à natureza humana: ela é ambivalente e as manifestações dessa ambivalência dependem tanto de fatores inatos quanto adquiridos. Sei que isso é ainda muito vago, mas não sei de nenhum  iluminado ou de nenhuma teoria que consistentemente estabeleça a fronteira e a proporção que cabem a um e outro, àquilo que é inato assim como adquirido. Durma-se na companhia dessa gente. Por isso deduzo haver algo de sensato na minha cama, que nunca acolheu companhia permanente &#8211; além da minha, claro.</p>
<p>Catando os grãos de milho da literatura nesse terreiro onde de tudo se fala, menos dela, qual é mesmo o título do romance que Saramago veio lançar no Brasil? Não me lembro. Salvo engano, não foi mencionado na reportagem que à época li na <em>Folha de S. Paulo</em>. Sei que o título tinha algo a ver com elefantes. Serão acaso companhias desejáveis? Evocando  Cioran, prefiro ainda a dos misantropos. Não são lá flor que se cheire, mas têm a virtude de não gostar de seres humanos. Piores, bem piores, são os humanos que amam apenas seres de outras espécies, notadamente a dos gatos e cachorros. Tenho poucas razões para louvar a espécie humana e os estragos que ela impõe a essa terra devastada que habitamos. Mas falo afinal dos meus semelhantes. Querendo ou não, e bem pouco quero, é neles que me reconheço, neles vibram os triunfos e misérias de minha condição. Apesar do ruído pavoroso que entre nós produzimos, tudo isso faz mais sentido do que o miado dos gatos e o latido dos cachorros. Fico portanto com meus humanos.</p>
<p>* <em>Fernando da Mota Lima é professor de sociologia da Universidade Federal de Pernambuco</em>.</p>
<p></p>

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		<title>Vinte anos depois de Berlim, outros muros ainda nos envergonham</title>
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		<pubDate>Mon, 09 Nov 2009 03:03:53 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[por Victor Barone
“ Terrível! Esta fronteira de pedra ergue-se… ofende
os que desejam ir para onde lhes aprouver
não para um túmulo de massa
um povo de pensadores. ”
Volker Braun, 1965
Hoje, 9 de novembro, precisamente às 23h, completa-se 20 anos que um dos maiores símbolos do totalitarismo veio abaixo como um castelo de cartas soprado por uma criança. [...]<p></p>
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			<content:encoded><![CDATA[<p><em><strong>por Victor Barone</strong></em></p>
<p style="text-align: right;">“ <em>Terrível! Esta fronteira de pedra ergue-se… ofende<br />
os que desejam ir para onde lhes aprouver<br />
não para um túmulo de massa<br />
um povo de pensadores.</em> ”<br />
Volker Braun, 1965</p>
<p><img class="alignleft" src="http://amalgama.blog.br/imagens/092/muro_de_berlim.jpg" alt="" width="290" height="189" />Hoje, 9 de novembro, precisamente às 23h, completa-se 20 anos que um dos maiores símbolos do totalitarismo veio abaixo como um castelo de cartas soprado por uma criança. O Muro de Berlim, conseqüência direta da ilusão de que o socialismo pode ser imposto de cima para baixo, durou 28 anos (do dia 13 de agosto de 1961 ao dia 9 de novembro de 1989), custou a vida de centenas de pessoas e condenou a uma divisão forçada quatro milhões de seres humanos que, até então, dividiam uma identidade. Na prática, uma cidade que até então funcionava como um único organismo urbano foi cortada ao meio com o bloqueio de 81 pontos de cruzamento e 193 ruas, separando famílias, amigos e casais, afastando trabalhadores dos seus empregos, estudantes de suas escolas.<span id="more-743"></span></p>
<p>O propósito do Muro &#8211; acabar com o êxodo dos alemães do lado oriental para o ocidental &#8211; foi justificado como uma medida adotada para acabar com o contrabando de divisas e a atividade dos espiões ocidentais. Na verdade, assim como hoje ocorre em Cuba, o regime totalitário obrigava todo um povo a viver sob sua leitura distorcida do socialismo, um socialismo que vivia (e anda vive na ilha de Fidel e Raul) sua grande controvérsia: construir uma sociedade igualitária em detrimento de todas as liberdades individuais.</p>
<p>Desde os primeiros momentos daquela manhã de agosto, a máquina de moer almas trabalhou incessantemente. Sua mais cruel engrenagem: a burocracia. Para atravessar a cidade, o cidadão era obrigado a passar por 18 operações de controle alfandegário, incluindo a revista das malas e bagagem, da carteira de dinheiro, do carro, além de se submeter a um estudo minucioso do passaporte – tudo isso sob a mira de policiais armados. A imensa maioria dos alemães orientais, no entanto, não reuniam credenciais suficientes nem mesmo para passar por esta maratona. Simplesmente foram condenados a viver isolados do mundo.</p>
<p>Vinte anos se passaram, dando um fim a esta insanidade. No entanto, estas mesmas cenas, nas quais a burocracia é usada como arma de domínio sobre todo um povo, onde direitos básicos – como o de ir e vir &#8211; se perdem no burburinho obtuso da intolerância, continuam ocorrendo neste momento, diante dos nossos olhos, sem que tomemos uma atitude concreta para detê-las.</p>
<p>Estas cenas acontecem agora mesmo, enquanto você lê este artigo, nas fronteiras da Cisjordânia, onde <a href="http://www.amalgama.blog.br/08/2009/muro-palestina/" target="_blank">um muro tão vergonhoso</a> quanto o que dividiu Berlim por quase três décadas condena palestinos ao ostracismo e judeus ao isolamento moral; continuam acontecendo na divisa entre os Estados Unidos e o México, onde um muro fronteiriço construído sob o argumento de impedir a entrada de imigrantes ilegais separa, na verdade, o primeiro e o terceiro mundos; continuam acontecendo em Cuba, onde um muro natural formado pelo oceano isola milhões da realidade. São muros ideológicos, como o Muro de Berlim.</p>
<p><strong>Um muro no deserto</strong><br />
O <a href="http://www.amalgama.blog.br/08/2009/muro-palestina/" target="_blank">Muro da Cisjordânia</a> começou a ser construída em 2002, durante o governo do primeiro ministro israelense Ariel Sharon, com o objetivo de evitar que terroristas suicidas palestinos entrassem em Israel. Desde o início a iniciativa suscitou críticas da comunidade internacional, que o considerou como um símbolo de segregação.</p>
<p>Uma pequena parte do Muro (cerca 20%) coincide com a antiga <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Linha_Verde_%28Israel%29" target="_blank">Linha Verde</a> e os 80% restantes situam-se em território palestino, onde adentra até 22 km em alguns lugares, para incluir as densamente povoadas colônias ilegais de Israel, tais como Ariel, Gush Etzion, Emmanuel, Karnei Shomron, Guiv&#8217;at Ze&#8217;ev, Oranit e Maale Adumim.</p>
<div class="wp-caption alignnone" style="width: 430px"><img class=" " src="http://amalgama.blog.br/imagens/092/muro_cisjordania.jpg" alt="Palestinos em checkpoint montado por Israel na Cisjordânia" width="420" height="280" /><p class="wp-caption-text">-- Palestinos em checkpoint montado por Israel na Cisjordânia --</p></div>
<p>O Tribunal Internacional de Justiça de Haia declarou o Muro ilegal em 2004. A ONU, por sua vez, classificou-o como uma tentativa – também ilegal &#8211; de anexar território palestino, violando o direito internacional a pretexto de razões de segurança. Ativistas de direitos humanos, incluindo organizações israelenses como a <a href="http://www.machsomwatch.org/en" target="_blank">Machsom Watch</a> (ou Checkpoint Watch), sustentam que a construção viola as fronteiras demarcadas pela ONU, com a apropriação indevida de territórios por Israel, e que os controles militares minam o desenvolvimento econômico do povo palestino, além de limitar a chegada de ajuda humanitária.</p>
<p>“Você tem este enorme muro sendo construído bem no meio da Cisjordânia, como alguém pode acreditar que haverá um estado palestino ali? É um símbolo da opressão”, afirma o rabino Michael Lerner, da <a href="http://www.tikkun.org/" target="_blank">Tikkun Community</a>.</p>
<p>Desde que a área localizada entre o muro e a Linha Verde foi declarada restrita pelos militares israelenses para dar lugar ao labirinto criado pelo Muro, os palestinos que ali vivem ou que necessitam chegar às comunidades ali localizadas foram obrigados a portar vistos emitidos pelos israelenses.</p>
<p>Quinze comunidades palestinas reunindo cerca de 50 mil palestinos foram enclausuradas nestas áreas. Foram fisicamente separadas do resto da Cisjordânia e sua população obrigada a obter autorizações israelenses para continuar vivendo em suas casas e em suas terras.</p>
<p>Em 2006, um levantamento feito pela ONU analisou 57 comunidades palestinas impactadas pelo Muro e encontrou ali 94 cidadãos palestinos – a maioria mulheres e crianças &#8211; que nunca receberam o “visto”. Como resultado, estas pessoas vivem literalmente presas entre a Cisjordânia e Israel, apavoradas demais para arriscarem deixar o local e serem flagradas pelos soldados israelenses.</p>
<p>Os relatos que confirmam esta realidade recheada de violência e preconceito são vastos, alguns podem ser vistos no site da ONG israelense <a href="http://www.btselem.org/English/" target="_blank">B’Tselem</a>, que se dedica a documentar violações dos direitos humanos nos territórios ocupados. Em março, por exemplo, Halimeh &#8216;Abd Rabbo Muhammad a-Shawamreh, uma palestina de 56 anos, mãe de oito crianças e residente em uma fazenda em Deir al-&#8217;Asal al-Foqa, no distrito de Hebron, teve seu braço quebrado por um guarda do Muro, localizado a 50 metros da porta de sua casa:</p>
<blockquote><p>Meu marido tem um defeito de nascença em sua perna esquerda e não pode trabalhar. Meu filho mais velho, Muhammad, 28, vive e trabalha em Ramallah. Meu filho Hussein, 22, foi ferido em 2004, enquanto estava pastoreando, por fragmentos de uma granada que o exército disparou durante um treinamento. Ele perdeu seu olho direito, e desde então vem sendo tratado no Sheikh Jarrach Hospital, em Jerusalém. Meu filho Fadi, 25, sofre de uma doença que ainda não foi diagnosticada. Ele vomita o tempo todo e não pode trabalhar. Nadi, 14, é epilética. Sou o esteio da família e faço o necessário para arranjar algum dinheiro.</p></blockquote>
<p>Em 11 de março, às 22h, ela tentava capturar o burro que lhe serve de instrumento de trabalho e que havia se soltado e corrido rumo ao Muro quando foi abordada pela Polícia de Fronteira. “Dois policiais saltaram de uma Toyota verde. Um deles pegou o cabresto do burro e o outro tentou arrancar a corda de minhas mãos e disse que eu deveria deixá-lo ir e que se o quisesse de volta deveria ir a Beersheva e pagar 1,000 shekels. Eu disse a ele que não tinha dinheiro e precisava do animal para trabalhar. Então, o policial que segurava o burro agarrou meu braço esquerdo enquanto o outro me golpeou no ombro com o rifle quebrando meu braço”, relatou Halimeh, que acabou sendo algemada &#8211; a despeito da fratura &#8211; e agredida até que os guardas resolveram liberá-la (<a href="http://www.btselem.org/english/testimonies/20090311_bp_beat_halima_a_shawamreh_in_deir_al_asal_al_foqa.asp" target="_blank">veja o relato completo</a>). Tudo isso ocorreu em território palestino, praticamente no quintal de Halimeh. Os invasores eram os soldados israelenses.</p>
<p>Além do isolamento humano e econômico, o Muro viabilizou o controle israelense da quase totalidade do Aqüífero de Basin, um dos três maiores da Cisjordânia, que fornece 362 milhões de metros cúbicos de água por ano. O controle dos recursos hídricos na região é outra forma de domínio imposta pelos israelenses sobre os palestinos. Segundo <a href="http://www.chomsky.info/" target="_blank">Noam Chomsky</a>, “o Muro já abarcou algumas das terras mais férteis do lado oriental. E, o que é crucial, estende o controle de Israel sobre recursos hídricos críticos, dos quais Israel e seus assentados podem apropriar-se como bem entenderem”.</p>
<p>Durante sua recente viagem à Terra Santa, em maio, o Papa Bento XVI visitou a Cisjordânia. Em discurso pronunciado em uma escola, disse que o Muro pode ser derrubado, desde que Israel e os palestinos derrubem os muros em torno dos seus corações:</p>
<blockquote><p>Embora muros possam ser construídos facilmente, todos sabemos que eles não duram para sempre. Eles podem ser derrubados. Primeiro, porém, é necessário remover os muros que construímos em torno dos nossos corações. Meu desejo mais sincero a vocês, o povo palestino, é que isso aconteça em breve. Dos dois lados do muro, é preciso grande coragem para que o medo e a desconfiança possam ser superados e para que seja possível resistir ao desejo de retaliar por perdas e feridas.</p></blockquote>
<p>Para ir de Jerusalém a Belém, um trajeto de poucos quilômetros, o comboio do papa precisou atravessar portões de aço no meio da seqüência de muros de concreto, bloqueios (<em>checkpoinsts</em>) e torres de vigilância. Apenas uma rápida mostra do que os palestinos vivem diariamente.</p>
<p>Em 23 de fevereiro de 2004, Chomsky escreveu um artigo para o <em>New York Times</em> resumindo em poucas palavras as verdadeiras intenções por detrás do Muro da Cisjordânia:</p>
<blockquote><p>Poucos questionariam o direito israelense de proteger seus cidadãos contra ataques terroristas ou mesmo de erguer um muro de segurança, se esse fosse um meio apropriado. Também é claro onde tal muro seria erguido se a segurança constituísse a preocupação orientadora: dentro de Israel, no interior da fronteira internacionalmente reconhecida, a Linha Verde estabelecida depois da guerra de 1948-49. O muro poderia então ser tão proibitivo quanto as autoridade quisessem: patrulhado pelo exército nos dois lados, pesadamente minado, impenetrável. Um tal muro maximizaria a segurança – e não haveria protesto internacional ou violação das leis internacionais.</p></blockquote>
<p><strong>Outro deserto, outro muro</strong><br />
Cerca de 5,6 mil pessoas já morreram tentando cruzar a fronteira do México com os Estados Unidos desde que o presidente Bill Clinton impulsionou o programa de segurança na fronteira em 1994. Cerca de 500 mortes ocorreram este ano, apesar das promessas de Barack Obama em estimular reformas na imigração. No entanto, estes são números estimados. Muita gente simplesmente desaparece no deserto. Morrem de sede, perdidos, são assassinados pelos “coiotes” ou por fazendeiros estadunidenses que tomam para si o patrulhamento da região.</p>
<div class="wp-caption alignnone" style="width: 430px"><img src="http://amalgama.blog.br/imagens/092/muro_EUA_mexico.jpg" alt="O muro EUA-México" width="420" height="240" /><p class="wp-caption-text">-- O muro EUA-México --</p></div>
<p>Nos primeiros cinco meses deste ano, 160 mexicanos morreram tentando a travessia, em conflitos com fazendeiros, de sede ou desnutrição ao cruzar zonas desérticas, ou afogados ao tentar cruzar o Rio Grande, que separa o Texas do México. Na falta de guardas de fronteira e irritados com os imigrantes ilegais, fazendeiros da região assumiram o policiamento. Neste ano três mexicanos que tentavam entrar no país pelo Arizona foram mortos por patrulhas civis e outros sete ficaram feridos.</p>
<p>O muro fronteiriço Estados Unidos–México, hoje com cerca de 965 km, inclui barreiras de contenção, iluminação de alta intensidade, detectores antipessoais de movimento, sensores eletrônicos e equipamentos de visão noturna, bem como vigilância permanente com veículos e helicópteros. Além de separar geograficamente a fronteira San Diego-Tijuana, o Muro é ideológico, impede a integração dos &#8220;subdesenvolvidos&#8221; com os “desenvolvidos”.</p>
<p>Recentemente, a secretária de Estado americana Hillary Clinton afirmou que o Muro &#8220;não resolve o problema&#8221; do fluxo ilegal de pessoas, drogas e armas entre os dois países. Em 94, ao comentar a decisão de Clinton, o presidente mexicano, Felipe Calderón, já antecipava esta conclusão. &#8220;O muro não vai resolver nenhum problema. A humanidade cometeu um tremendo erro ao construir o muro de Berlim, e creio que hoje em dia os Estados Unidos estão cometendo um grave erro ao construir esta barreira na nossa fronteira comum&#8221;.</p>
<p><strong>Um muro de água</strong><br />
<img class="alignleft" src="http://amalgama.blog.br/imagens/092/yoani-sanchez.jpg" alt="" width="300" height="221" />Enquanto escrevo estas linhas na quente noite de sexta-feira, 6 de novembro, acontece em São Paulo o debate “<a href="http://www.abn.com.br/editorias1.php?id=54685" target="_blank">Liberdade de Expressão em Cuba</a>”. Presentes, o senador Eduardo Suplicy, o jornalista Eugênio Bucci e o historiador e professor <a href="http://www.jaimepinsky.com.br/" target="_blank">Jaime Pinsky</a> (mediador). A terceira convidada, no entanto, foi impedida de participar do encontro. Trata-se de <a href="http://es.wikipedia.org/wiki/Yoani_S%C3%A1nchez" target="_blank">Yoani Sánchez</a>, autora do livro <em><a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/busca/busca.asp?palavra=de+cuba+com+carinho&amp;tipo_pesq=titulo&amp;sid=72321112811826379302776918&amp;k5=25D831A3&amp;uid=&amp;limpa=0&amp;parceiro=TIOPAT&amp;x=10&amp;y=12" target="_blank">De Cuba, com carinho</a></em>, publicado pela editora Contexto, e de um dos blogs mais lidos do mundo, o <a href="http://www.desdecuba.com/generaciony/" target="_blank">Generación Y</a>.</p>
<p>Yoani foi convidada a vir ao Brasil para o lançamento de sua obra, mas foi impedida de deixar o país pelas autoridades cubanas. Esbarrou, mais uma vez, nas muralhas ideológicas que mantém Cuba nas trevas. Não é a primeira vez que isso ocorre. A blogueira já teve negados diversos pedidos para sair de Cuba para receber prêmios e participar de palestras.</p>
<blockquote><p>Essa inclinação infantil à traquinagem me permitiu suportar as negativas da viagem, o círculo radiativo em que tentam me envolver, os insultos, as campanhas de difamação, o controle da polícia política e até a neurose de possíveis microfones na minha casa. Tenho tratado de celebrar inclusive o que me tiraram, como a possibilidade de viajar, assistir as cerimônias de diversos prêmios, acessar Geração Y das redes cubanas, contatar com muitos amigos, entrar em eventos culturais no meu próprio país e presenciar o lançamento dos meus livros.</p>
<p>Precisamente hoje estou ébria de satisfação porque uma compilação dos meus textos, intitulada &#8220;De Cuba, com carinho&#8221;, será apresentada esta tarde no Brasil. Atenta às três horas de diferença que me separam do Rio de Janeiro, vou festejar às cinco da tarde a bela edição dos meus posts em português. Meus dentes serão vistos a vários metros de distância, não só porque os tenho grandes e separados, senão pela gargalhada permanente que levarei pendurada na cara. Uma risada corrosiva não compreendida pelos rostos carrancudos dos que me impediram de chegar até lá; apunhalada do regozijo que corta e atravessa os que não sabem lidar com a inesperada alegria do cativo.</p></blockquote>
<p>O trecho acima é de um <a href="http://www.desdecuba.com/generaciony/?p=2377" target="_blank">post</a> publicado no Generacion Y em 29 de outubro, dia em que <em>De Cuba, com carinho</em> foi lançado no Rio de Janeiro. Me faz crer que nenhum tipo de muro, seja ele físico ou psicológico, pode conter o espírito humano ou restringir totalmente o nosso impulso pela liberdade de pensar, questionar e ser.</p>
<p></p>

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		<pubDate>Sat, 07 Nov 2009 02:00:48 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Caro(a) leitor(a),
O ano está chegando ao fim e, como sempre, as compras começam. Se por acaso você for fazê-las no Submarino, considere acessar antes o nosso coletivo e clicar no banner do Submarino que está na lateral. Você irá para uma área específica da loja, mas poderá navegar e fazer suas compras normalmente; e, como [...]<p></p>
]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Caro(a) leitor(a),</p>
<p>O ano está chegando ao fim e, como sempre, as compras começam. Se por acaso você for fazê-las no Submarino, <strong>considere acessar antes o nosso </strong><a href="http://www.amalgama.blog.br/" target="_blank"><strong>coletivo</strong></a><strong> e clicar no banner do Submarino que está na lateral</strong>. Você irá para uma área específica da loja, mas poderá navegar e fazer suas compras normalmente; e, como terá acessado via Amálgama, garantirá comissões para o blog, permitindo que entremos o ano com as despesas com o servidor pagas com antecedência e empreguemos tempo e energia em outros projetos durante o 2010 de eleições.<span id="more-735"></span></p>
<p>Se souber de amigos que farão compras no Submarino nesse período de Natal, sugira que eles também passem antes no <a href="http://www.amalgama.blog.br/" target="_blank">www.amalgama.blog.br</a> e cliquem no banner da lateral.</p>
<p>Grato,</p>
<p>Daniel Lopes, editor</p>
<p></p>

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		<title>500 dias com ela</title>
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		<pubDate>Fri, 06 Nov 2009 20:10:32 +0000</pubDate>
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				<category><![CDATA[Cinema]]></category>
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		<description><![CDATA[por Jean Garnier – O que pensar de um filme em que logo no começo somos avisados de que não se trata de uma história típica de amor e depois vemos o protagonista afirmando que “é a melhor garota dos meus sonhos”? Isso acontece em 500 dias com ela (estreia hoje). Muito mais do que [...]<p></p>
]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em><strong>por Jean Garnier</strong></em> – O que pensar de um filme em que logo no começo somos avisados de que não se trata de uma história típica de amor e depois vemos o protagonista afirmando que “é a melhor garota dos meus sonhos”? Isso acontece em <em><a href="http://www.youtube.com/watch?v=d-aERNK_NF4" target="_blank">500 dias com ela</a></em> (<strong>estreia hoje</strong>). Muito mais do que uma divertida comédia romântica, é também um relato original, sem ordem cronológica, de um romance fracassado. O relacionamento é narrado de forma que o filme avança e retrocede como um contador de dias, inclusive com os números, fazendo o espectador acompanhar todas as fases de um relacionamento: a impressão do início, os olhares, a aproximação, o primeiro beijo, a cumplicidade, as diversões, dúvidas, brigas e o fim – mas, lógico, não nessa ordem.<span id="more-733"></span></p>
<p>Tom Hansen (<a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Joseph_Gordon-Levitt" target="_blank">Joseph Gordon-Levitt</a>) é um rapaz de vinte e poucos anos, arquiteto frustrado que trabalha como um entediado escritor de cartões com mensagens calorosas, mas não acredita em nada do que escreve. Ele é uma daquelas pessoas que, mesmo jovem, já está se conformado em viver uma vida sem graça. É fisgado por algo que lhe chama a atenção e acredita que pode ser duradouro: a bonita e misteriosa Summer Finn (<a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Zooey_Deschanel" target="_blank">Zooey Deschanel</a>), a nova assistente do seu chefe, pela qual se apaixona à primeira vista.</p>
<p>Ao mesmo tempo em que eles se aproximam por gostos comuns, alguns sentimentos os separam. Enquanto ele é um daqueles românticos que vê virtudes até nas coisas mais banais em relação à amada (“O jeito que ela morde os lábios”, por exemplo), Summer é pragmática e cria um grande conflito desde o início, ao reforçar sua intenção de não casar e sua opinião de quem não acredita muito no amor.</p>
<div class="wp-caption alignnone" style="width: 410px"><img src="http://amalgama.blog.br/imagens/092/500_dias_com_ela.jpg" alt="( Joseph e Zooey numa cena do filme )" width="400" height="256" /><p class="wp-caption-text">( Joseph e Zooey numa cena do filme )</p></div>
<p>Pode ser um tanto redundante afirmar, mas a atuação do casal ofusca totalmente as outras, principalmente porque a química entre os protagonistas funciona de uma maneira impressionante. Para não cometer injustiça, vale mencionar os momentos que Tom tem com sua irmã mais nova, Rachel (<a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Chlo%C3%AB_Moretz" target="_blank">Chloe Moretz</a>), que se torna uma espécie de confidente mirim e dá algumas preciosas dicas da sua visão feminina sobre relações amorosas.</p>
<p>O diretor <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Marc_Webb" target="_blank">Marc Webb</a> é conhecido pela produção de alguns clipes (Green Day, Jesse McCartney) e acertou em cheio ao revigorar a forma de se narrar uma história romântica moderna, usando canções e referências do mundo pop para melhorar a atmosfera e a versatilidade da trama, sem apelar para a cafonice, momentos óbvios ou clichês. Os fãs desse gênero irão se deliciar, principalmente com uma mistura de anos 1980 (The Clash, Smiths, Jesus and The Mary Chain, Pil, Joy Division) com o contemporâneo (Regina Spektor, Wolfmother, Spoon, Feist, Black Lips). Pode não ser um conto de amor feliz, daqueles melados em que todos imaginam que a mocinha terminará nos braços do mocinho, mas será difícil não se apaixonar pelo filme.</p>
<p>[ <a href="http://www.youtube.com/watch?v=d-aERNK_NF4" target="_blank">veja o trailer</a> ]</p>
<p></p>

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		<title>A precariedade do romance</title>
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		<pubDate>Thu, 05 Nov 2009 16:00:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<category><![CDATA[elitismo]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[mario vargas llosa]]></category>

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		<description><![CDATA[por Alfredo Cesar * – Não há nada mais cansativo do que a defesa da literatura por parte de seus tantos amantes. Considerada desde os tempos medievais como inútil e combatida como supérflua, a literatura necessita se justificar constantemente. Talvez por vivermos acuados nesse mundo que nos demanda tanta praticidade, nós, os estudiosos da literatura, [...]<p></p>
]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignleft" src="http://amalgama.blog.br/imagens/092/mario_vargas_llosa.jpg" alt="" width="290" height="198" /><em><strong>por Alfredo Cesar</strong></em> * – Não há nada mais cansativo do que a defesa da literatura por parte de seus tantos amantes. Considerada desde os tempos medievais como inútil e combatida como supérflua, a literatura necessita se justificar constantemente. Talvez por vivermos acuados nesse mundo que nos demanda tanta praticidade, nós, os estudiosos da literatura, acabamos nos ressentindo e começamos a exagerar a respeito das excelsas funções da literatura. Não raro, resvalamos numa espécie de nefelibata idealismo, e esquecemos que, ao fazer isso, tornamos a literatura ainda mais enleada de mistificações.<span id="more-724"></span></p>
<p>Eis o caso do <a href="http://www.revistapiaui.com.br/edicao_37/artigo_1159/Em_defesa_do_romance.aspx" target="_blank">recente artigo</a> do escritor peruano Mário Vargas-Llosa, “Em defesa do romance”, publicado na revista <em>piauí</em>. Vargas-Llosa faz mais uma de tantas defesas “humanistas” do gênero. Sem o romance, segundo o escritor, não nos diferenciaríamos tanto assim dos animais. Através da leitura de obras de ficção, aprenderíamos a viver uma vida melhor. Mas já no começo do artigo percebemos que por trás do “humanismo” do autor, esconde-se – de forma nada discreta – um profundo elitismo. Vargas-Llosa afirma:</p>
<blockquote><p>Não é exagero afirmar que um casal que haja lido Garcilaso, Petrarca, Góngora e Baudelaire ama e usufrui mais do que outro, de analfabetos semi-idiotizados pelas séries de televisão.</p></blockquote>
<p>A defesa do romance começa a se transformar na defesa do estilo de vida de uma casta social – os que lêem Garcilaso, Petrarca, Góngora e Baudelaire –, e menosprezo a todos os “semi-idiotizados” que não conhecem tais autores. Aliás, esse desdém em relação à cultura de massa vindo de um “defensor” do romance não deixa de ser irônico, pois as acusações sofridas pelo romance no início no século XVII eram muito semelhantes àquelas hoje desferidas por Vargas-Llosa contra a cultura de massa. Perto dos gêneros tradicionais como a épica, a tragédia, a comédia, o novo gênero parecia não ter foco, misturando o sublime com o grotesco, e ao narrar eventos corriqueiros de pessoas banais do tempo presente, o romance mostrava-se despojado de qualquer nobreza. “Defensores” de poemas épicos e tragédias poderiam dizer que os leitores dos clássicos amariam melhor que os arrivistas amantes do romance. Como comparar Beatriz de Dante, excelsa e angelical, com a Dulcinéia de Quixote?</p>
<p>Os tempos passaram, as dinâmicas culturais mudaram e hoje vemos Vargas-Llosa defendendo o romance como farol das grandes questões da humanidade e desprezando a banalidade da cultura de massas, estabelecendo assim uma falsa polaridade, pois bem sabemos o quanto o romance contemporâneo dialoga com a cultura de massas, que está longe de ser um ente homogêneo. No mais, convivo com acadêmicos há bons anos, leitores de romances e poemas, e não vejo em suas paixões, amores e obsessões nenhuma diferença qualitativa em relação a qualquer outra pessoa que não tem a felicidade de ler frequentemente obras de literatura. Aliás, o romance não nasce e se desenvolve exatamente para mapear o amor e a vida de pessoas ordinárias, como Emma Bovary de Flaubert e Miss Dalloway, personagem de Virgina Woolf?</p>
<p>Depois de separar um tanto arrogantemente a humanidade entre aqueles que, como ele, amam mais solidamente – porque são leitores de Baudelaire e Garcilaso – dos que não amam com tanta qualidade, como os consumidores da cultura de massa, Vargas-Llosa enxerga o romance como gênero capaz de nos ensinar sobre a tolerância diante das diferenças étnicas e culturais! O romance faz dos leitores pessoas tolerantes com aqueles diferentes deles mesmos, certamente tanto quanto como o próprio Vargas-Llosa! Diz o escritor peruano:</p>
<blockquote><p>Nada, mais que bons romances, ensina a ver nas diferenças étnicas e culturais a riqueza do patrimônio humano, e a valorizá-las como uma manifestação de sua múltipla criatividade.</p></blockquote>
<p>Eis uma tese bonita, mas absolutamente carente de fundamentação. As elites coloniais britânicas e francesas certamente liam Shakespeare e Montaigne, o que não as impedia de tratar os colonizados como seres essencialmente desiguais a elas próprias. Isso para nem sequer mencionar o caso nazista, já que a elite do III Reich, a começar pelo próprio Hitler, tinha uma certa educação estética. Como esses leitores cultivados não perceberam a grande lição humanista do romance?</p>
<p>Creio que aqui chegamos ao nó de minha discordância com o a visão do romance exposta por Vargas-Llosa em seu artigo. A meu ver, Vargas-Llosa fetichiza a literatura. Fetichismo é atribuir poderes e qualidades a um objeto que de fato não os possui. O grande problema na argumentação de Vargas-Llosa é que o escritor peruano parece querer derivar uma ética a partir da forma romanesca. Como se da leitura de romances nós passássemos a amar com mais qualidade, a tolerar as pessoas diferentes de nós e assim por diante. Vargas-Llosa está preocupado o tempo todo com o que a literatura pode fazer de nós, quando o crítico materialista sabe que esse é apenas um dado do movimento dialético. <em>Tão importante quanto saber o que a literatura pode fazer de seus leitores, é entender o que nós fazemos da literatura</em>. É preciso colocar o modelo de Vargas-Llosa de cabeça pra baixo: <em>Não é a literatura que cria um modo de agir no mundo. São os nossos posicionamentos éticos que potencializam a literatura, e a impedem de tornar-se letra morta, fixa em seus valores originários, sejam eles quais forem, para continuar dialogando com nossas angústias e problemas.</em></p>
<p>Ora, por que a literatura tão humanista e liberal não ensinou os valores de tolerância para as elites coloniais britânicas e francesas? Porque estas não eram as perguntas que tais leitores estavam fazendo aos romances que liam. Porque esses não eram os problemas que consideravam os mais importantes. Esses valores fazem sentido num mundo calejado pelas guerras mundiais, pelos fundamentalismos religiosos e pelos regimes totalitários e autoritários que assolaram nosso planeta numa escala inédita no século 20. E apoiados nessa visão de mundo, esculpida pelo processo histórico, revisitamos nossos clássicos, fazendo-lhes novas perguntas. Mas não são perguntas a um oráculo, que nos ensinará um modo de agir no mundo.</p>
<p>Obras literárias podem nos dar novo vocabulário para nomear experiências que antes intuíamos mas não conseguíamos definir; podem nos oferecer <em>insights</em> sobre determinados processos sociais ou psíquicos; mas dificilmente – apenas por elas mesmas – nos ensinarão a tratar o nosso próximo de forma melhor e com mais dignidade. Pois como todo conhecimento, a literatura também pode ser instrumentalizada para os mais diversos fins, e defesa dos mais estranhos valores. Sempre lembro de amigos espanhóis e italianos que detestavam <em>Don Quijote</em> e <em>A Divina Comédia</em>, pois esses livros eram ensinados obrigatoriamente na escola, em seus respectivos países, de uma maneira oficial, laudatória, repleta de decorebas, auto-referente, guiada pelas perguntas mais tediosas e aborrecidas. Como se vê, os seres humanos são capazes de transformar um livro como <em>Don Quijote</em> num romance “chapa-branca”, ao mesmo tempo que transformá-lo numa ficção representativa de muitos de nossos dilemas, anos após anos, pelas mais diversas razões.</p>
<p>A literatura pode ajudar a justificar uma série de ideologias e visões de mundo. As lacunas dos textos literários são constantemente preenchidas por nós, pelos nossos anseios, preconceitos e utopias, para o bem e para o mal. Sua fragilidade e sua força parecem residir nessa indeterminação. Criação de seres humanos precários, pelejando contra a contingência da vida, como exigir algo diferente da literatura?</p>
<p>* <em>Alfredo Cesar é professor de literatura luso-brasileira na Universidade de Chicago</em>.</p>
<p></p>

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		<title>Que venham as rugas</title>
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		<pubDate>Wed, 04 Nov 2009 03:05:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Pessoalidade]]></category>
		<category><![CDATA[antirugas]]></category>
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		<description><![CDATA[por Camila Pavanelli &#8211; Dizem as indústrias de cosméticos que as mulheres devem começar a usar cremes anti-rugas aos vinte e cinco anos de idade. Eu, é claro, acreditei &#8211; afinal, se é pra ter fé em alguma coisa na vida, que seja no rejuvenescimento da minha pele, apesar de isso ser ainda menos provável [...]<p></p>
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			<content:encoded><![CDATA[<p><em><strong>por Camila Pavanelli</strong></em> &#8211; Dizem as indústrias de cosméticos que as mulheres devem começar a usar cremes anti-rugas aos vinte e cinco anos de idade. Eu, é claro, acreditei &#8211; afinal, se é pra ter fé em alguma coisa na vida, que seja no rejuvenescimento da minha pele, apesar de isso ser ainda menos provável do que a transubstanciação do corpo de Cristo. Assim, há dois anos que o momento mais religioso do meu dia vem sendo aqueles dois minutos de espalhamento de cremes e pensamentos positivos sobre todo o rosto, região do pescoço e área embaixo dos olhos, logo antes de dormir. Sim, pois, como as melhores bruxarias, esses cremes só funcionam direito depois da meia-noite.<span id="more-715"></span></p>
<p>Ocorre que, depois de dois anos de experiência com esses cremes e nenhum resultado visível &#8211; o que pode ser entendido, aliás, como um excelente resultado: depois de certa idade, nenhuma notícia significa boas notícias &#8211;, minha fé foi abalada. Não a fé na eficácia do produto, que sem isso eu viraria uma descrente total &#8211; mas a fé na minha possibilidade real de seguir utilizando-o com a frequência religiosa que ele exige de suas devotas.</p>
<div class="wp-caption alignnone" style="width: 510px"><img class=" " src="http://amalgama.blog.br/imagens/092/cremes-rugas.jpg" alt="Para quem pretende usar a vida toda, boa sorte..." width="500" height="237" /><p class="wp-caption-text">Para quem pretende usar por toda a vida, boa sorte...</p></div>
<p>Isso porque meu último relacionamento estável, ora vejam só, acabou quando eu tinha por volta de vinte e cinco anos. Não houve, portanto, sobreposição de namoro e creme anti-idade. Naquela época, eu usava apenas um hidratante comum pela manhã, se tanto &#8211; e sua aplicação na face era das últimas coisas que eu fazia antes de trocar leves beijos com o namorado e sair de casa. Ou seja: o contato homem-creme era mínimo e perfeitamente suportável.</p>
<p>E agora fico pensando como vai ser se eu voltar a namorar um dia (planos não faltam). O creme matinal, tudo bem: a estratégia de passá-lo imediatamente antes de sair de casa seguiria dando bons resultados, suponho. Porque de manhã, você se despede do seu namorado ou marido e sabe que seu rosto passará algumas horas sem ser vorazmente beijado, tocado e bagunçado. Mas e à noite? Tirando raras ocasiões em que os dois estão extremamente exaustos e é certeza absoluta de que um não passará nem perto do rosto do outro, carinhos no meio da noite acontecem.</p>
<p>Reparem que não estou falando de sexo &#8211; apesar de que assaltos no meio da noite à geladeira quentinha do outro lado da cama acontecem também. Estou me referindo mesmo aos contatos semi-involuntários que uma cama compartilhada propicia a duas pessoas que têm vontade de se pegar. Dormir junto e esbarrar no outro no meio da noite sempre foi uma parte importante e desejada dos meus namoros passados &#8211; o que foi sem dúvida bastante facilitado pela ausência de películas cosméticas recobrindo o meu corpo. Porque, convenhamos, nada mais brochante do que sentir uma substância pastosa nos lábios em vez da pele da pessoa amada. Lamber, então, fica impossível. Lembro de um namorado que, certa vez, esqueceu que eu estava usando um <em>spray</em> anti-mosquitos e mordeu o meu braço. Acreditem: foi feia a careta.</p>
<p>Fico me perguntando como fazem as mulheres vaidosas e comprometidas com mais de vinte e cinco anos. Elas passam os seus cremes à noite e viram-se para o outro lado? Ou passam pouquíssimo creme, de modo que ele seja total e rapidamente absorvido e seus efeitos pegajosos não sejam notados do lado de lá da cama? Aliás, será que é isso: será que passo creme demais? Será que alguma indústria de cosméticos já recebeu uma carta de alguma pessoa apaixonada pedindo maiores investimentos na pesquisa e desenvolvimento de cremes de alta absorção cujo impacto sobre lábios alheios fosse imperceptível, mesmo imediatamente após o uso?</p>
<p>Eu só sei de uma coisa. Se não inventarem esse creme até eu voltar a namorar, é pena, mas precisarei acolher com carinho minhas rugas vindouras. Sou uma imediatista incorrigível: meu desejo presente sempre foi mais importante do que nebulosas promessas futuras de felicidade. Cremes noturnos serão aposentados e beijos roubados durante o sono serão bem-vindos. Que venham as rugas! Viver envelhece &#8211; e, já que mata, que seja de amor apaixonado.</p>
<div class="wp-caption alignnone" style="width: 386px"><img src="http://amalgama.blog.br/imagens/092/rugas-comentario.jpg" alt="Comentário de um leitor no hypescience.com" width="376" height="184" /><p class="wp-caption-text">Comentário de um leitor no hypescience.com</p></div>
<p></p>

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		<title>Como comecei a ler livros</title>
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		<pubDate>Mon, 02 Nov 2009 23:40:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
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		<category><![CDATA[literatura brasileira]]></category>
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		<description><![CDATA[por Luiz Biajoni – Meus pais não eram de ler livros, mas sempre tinha jornais em casa. A primeira coisa que me lembro de ler de fato e me impressionar foram as sinopses de filmes na programação de TV do jornal. Eu adorava aquilo, lia todas as sinopses. Assim nasceu meu gosto por sinopses, já [...]<p></p>
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			<content:encoded><![CDATA[<p><em><strong>por Luiz Biajoni</strong></em> – Meus pais não eram de ler livros, mas sempre tinha jornais em casa. A primeira coisa que me lembro de ler de fato e me impressionar foram as sinopses de filmes na programação de TV do jornal. Eu adorava aquilo, lia todas as sinopses. Assim nasceu meu gosto por sinopses, já pensei em lançar um livro só com sinopses. Imagina quanto tempo seria poupado, do escritor e do leitor. Em três linhas resolveríamos a história. &#8220;Ladrão internacional rouba ex-chefe nazista. Gangue do chefe o persegue. Ele acaba se apaixonando pela esposa do chefe&#8221;. O que acontece no meio do filme (ou do livro) ou no final todo mundo sempre sabe. No meio, é aquela correria, aquele monte de mal entendido&#8230; No fim, o mocinho fica com a mocinha. E fim.<span id="more-712"></span></p>
<p>Meu avô sempre gostou de ler e tinha um baú na casa dele com um monte de livros velhos. Eu gostava dos livros mesmo sem ter lido. Eu ficava olhando os nomes e as capas e imaginando as sinopses das histórias. <em>Recordação da Casa dos Mortos</em>, de um tal Dostoiévski. <em>O Primo Basílio</em>, de um tal Eça de Queirós. Eu gostava desse nome, queria ter um amigo que chamasse Eça para poder dizer &#8220;Eu gosto do Eça à beça!&#8221;. Na verdade, pegava esse livro, ficava olhando para o nome e pensava: &#8220;O quer será que o primo Basílio fez? Deve ter sido alguma vingança com a família que lhe deu esse nome esquisito&#8230;&#8221; Nessa mesma coleção do meu avô encontrei um livro que me chamou a atenção e que levei para casa e li e reli e me encantou. Não foi exatamente dos primeiros que li, mas um dos que mais me impressionaram: <em><a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=2923889&amp;sid=874111646118104993127525&amp;k5=35C91B3A&amp;uid=" target="_blank">Os Heróis</a></em>, de Charles Kingsley.</p>
<p>Eu conhecia alguns heróis, mas não aqueles do livro. Eu conhecia heróis do Gibi. Meu pai tinha um tio mecânico de automóveis que tinha toda a coleção dos Gibis. Quando estudava de manhã e não tinha nada para fazer à tarde, pegava minha bicicletinha e ia até a Oficina do Fleury, sentava lá no fundo, e ficava lendo as aventuras de Flash Gordon, O Príncipe Valente e Nick Holmes – o meu preferido.</p>
<p>Quando estava aí para completar meus 12 anos, foi lançado no Brasil os gibis &#8220;Heróis da TV&#8221; com os heróis Marvel. Eu nunca soube a razão dos gibis terem esse nome, se não passava desenho de nenhum deles na TV. Enfim. Comecei obrigar meu pai a comprar. E tomei contato com todos esses heróis maravilhosos do <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Stan_Lee" target="_blank">Stan Lee</a>, um verdadeiro construtor de mitos modernos.</p>
<p style="text-align: center;">*</p>
<p>No colégio, não sei por que cargas d&#8217;água, me botaram para tomar conta da biblioteca. Não lembro se foi um lance voluntário, mas, quando vi, tinha que estar na biblioteca duas vezes por semana no período da manhã – eu estudava à tarde nessa época – e registrar se alguém chegava para retirar um livro. Poucas vezes chegava alguém. E como não tinha nada pra fazer, ficava lendo umas coisas lá.</p>
<p>Também no colégio eu tinha uns amigos que gostavam de ler de verdade. A gente ia até a biblioteca municipal e ficava lá por horas pesquisando livros, lendo, retirando volumes que nunca foram abertos. Mas era uma aventura! E pegava bem aparecer com livros grossos em casa. Lemos algumas coisas interessantes como as versões resumidas de <em>Moby Dick</em>, <em>Dom Quixote</em> ou <em>O Conde de Monte Cristo</em>. Lembro de ter lido uma versão quadrinizada bastante boa do <em>Hamlet</em> de Shakespeare – quando li o original, me bateu a nostalgia: preferia a versão quadrinizada!</p>
<p>As professoras de português, a Dona Vera e a Dona Marlene, nos davam bons livros (tirando o <em>Iracema</em> do José de Alencar, que eu de-tes-tei!). Começamos com a famosa Coleção Vaga-Lume, cujo <em>Mistério do Cinco Estrelas</em> é o meu favorito, até alguns outros infanto-juvenis, como <em>O Gênio do Crime</em>, do João Carlos Marinho, meu preferido de todos os tempos, um livro que influenciou muito minha geração de trintões metidos a escritores. Nos sentimos todos verdadeiramente homens e leitores depois de <em>Dom Casmurro</em>, do Machado; e <em>O Cortiço</em>, do Aluísio de Azevedo – esse sim, um livro <em>quente</em>!</p>
<p>Uma minha tia, a mais nova de quatro irmãos, foi fazer letras e estava sempre com livros em casa. Sempre tinha uma coletânea do Drummond, do Quintana&#8230; Ela também tinha aquela coleção &#8220;Para Gostar de Ler&#8221;, e eu lia – não para gostar, nunca achei que fosse gostar, mas, quando vi, já estava gostando. No meu aniversário de 11 anos, e em todos os outros posteriores, ela me deu um livro. Incluído um dos que mais me deram prazer. Foi <em>Memórias de Um Cabo de Vassoura</em>, do Orígenes Lessa.</p>
<p>Nesse período, não lembro quem me deu, algum parente ou amigo de meus pais, um livro que também amei: <em>O Menino do Dedo Verde</em>, do Maurice Druon.</p>
<p style="text-align: center;">*</p>
<p>Um tio sempre gostou de ler e a casa dele sempre teve prateleiras cheias de livros. Tinha uns livros bem estranhos ali, de uns autores que nunca tinha ouvido falar e com títulos bem estranhos. Um deles chamava <em>O Templo de Satã</em>, de Stanilas de Guaita. Eu sempre folheava aquele livro com um medo do cão! Tinha uma receita para fazer uma pessoa! E tinha umas frases que, se você falasse em voz alta, podia morrer instantaneamente! Nunca falei. Acho que por isso que estou aqui vivo até hoje.</p>
<p>Eu achava que meu tio era alguma espécie de bruxo. Uma vez pedi um livro para ele, de presente. E ele me deu as <em>Histórias Extraordinárias</em> de Edgar Allan Poe. Aquilo sim me deu medo. A história do gato preto é uma das minhas preferidas até hoje.</p>
<p>Nessa época, dos 12 ou 13 anos, alguém me emprestou O Exorcista, do Peter Blatty. Eu li in-tei-ri-nho! Não sei como, até hoje tenho arrepios de pensar. Uma vez estava lendo o livro na cama antes de dormir e a cama tremeu! Eu juro!</p>
<p style="text-align: center;">*</p>
<p>Um dia minha mãe pegou um ônibus e encontrou um livro lá. Era <em>O Tocador de Tuba</em>, do Chico Anísio. Ela chegou em casa com o livro, ninguém sabia que o humorista era escritor. Eu falei &#8220;Deixa eu ver isso aí!&#8221; – como se fosse um grande conhecedor de literaturas. Em poucos minutos tinha lido o livro. Um livro saboroso, delicioso, injustamente fora de catálogo há muito tempo, cheio de causos nordestinos transbordando humor.</p>
<p>Nesse período época eu me achava algum tipo de intelectual, já que eu gostava de ler de verdade enquanto meus amigos continuavam afirmando que ficar correndo atrás de uma bola era uma coisa muito melhor para se fazer. Bobagem. Você vai correr atrás de uma bola hoje e vai correr atrás de uma bola amanhã e a cena vai ser sempre você correndo como um idiota atrás de uma bola. Eu lia uma página nesse minuto e, no outro, estava vivendo outra aventura. Era outra cena, outra situação. Podia estar no Nordeste com o Chico Anísio ou no Egito com um pesquisador de demônios; podia estar nas terras míticas com Jasão e os Argonautas ou vivendo o drama realista de um menino com o dedo verde – onde ele tocava nascia uma planta. Podia estar acompanhando o terror de um homem perseguido por um vingativo gato preto ou desvendando um crime com Sherlock Holmes.</p>
<p>Tudo era muito divertido. E tudo é muito divertido, pois a capacidade humana de criar, reinventar histórias e contá-las não tem fim. Eu gosto e lê-las e de criá-las. Acho que nossa vida fica muito melhor com elas.</p>
<p></p>

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