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	<title>Punctum</title>
	
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	<description>revista de cinema</description>
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		<title>Mostra Abel Ferrara: Maria (2005)</title>
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		<pubDate>Mon, 07 May 2012 20:51:31 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Maria estabelece: estamos na soleira do desconhecido. Sinto que o filme é nada mais do que um convite a compartilhar essa questão. Como se estabelece? Nenhuma outra cena poderia abrir este filme que não Noli me tangere: Maria (Juliette Binoche, filmada entre a loucura e a santidade) testemunha a ressurreição de Cristo (Matthew Modine), numa cena que faz coexistir natural e sobrenatural.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>por <em>Marlon Krüger</em></p>
<p>Mostra organizada pelo Cineclube Rogério Sganzerla</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>Maria</em> estabelece: estamos na soleira do desconhecido. Sinto que o filme é nada mais do que um convite a compartilhar essa questão. Como se estabelece? Nenhuma outra cena poderia abrir este filme que não <em>Noli me tangere</em>: Maria (Juliette Binoche, filmada entre a loucura e a santidade) testemunha a ressurreição de Cristo (Matthew Modine), numa cena que faz coexistir natural e sobrenatural.</p>
<p>Qual é, no mundo de hoje, a utilidade de um novo filme sobre Jesus? Sua história, enraizada em cada um de nós, para alguns por um ponto de vista íntimo e religioso, para outros por um ponto de vista simplesmente histórico, não necessita mais, segundo Ted (Forest Whitaker), de representação, mas de uma assimilação, eventualmente uma transposição. Marie, atriz de <em>This Is My Blood </em>- uma espécie de resposta ao <em>Paixão de Cristo</em> de Mel Gibson, dirigido por um alter-ego de Ferrara, Tony Childress, também interpretado por Matthew Modine &#8211; sob influência de Maria Madalena atira-se impetuosamente num portal para um outro mundo: o retorno às origens, a tentativa de compreensão do mundo contemporâneo.</p>
<p>Marie, encarando a violência, seja em Nova Iorque, seja na Palestina, carrega o poder de ser uma figura composta, uma figura que graças ao trabalho metódico dos fundadores da igreja romana tem quase todos os seus traços apagados. Maria Madalena, “apóstola dos apóstolos”, esquecida, rejeitada, cuja provável conexão a um gnosticismo onde a mulher é igual ao homem e torna-se uma figura-chave na vida de Cristo, é aquela que sabe, aquela que viu. Evocando a dificuldade de um ator sair do papel, especialmente quando esse papel tem fundo histórico e espiritual, Ferrara descreve bem pontualmente, de modo consideravelmente implícito (a personagem de Binoche, na realidade, é pouco presente) a jornada de uma mulher disposta de fazer seu corpo a miséria do mundo, de tudo abandonar, a fim de se purificar e alcançar um certo grau de plenitude (no maravilhoso último plano do filme).</p>
<p>Do outro lado da linha está Ted, o jornalista que faz questões, que interroga sua própria fé e a dos outros. Ted insiste na questão da fé em Deus diversas vezes em seu programa de televisão enquanto entrevista teólogos. Mas a questão é outra: é um conflito com si mesmo, que ele só perceberá na cena mais intensa do filme, na capela do hospital, onde Ted irá falar com Cristo, liberando uma enxurrada de lágrimas e queixas. Cena através da qual passa o peso dos erros de um homem que abandonou sua esposa pelo trabalho, pela amante, mesmo durante sua gravidez. Ele não está ali para se tornar religioso, mas para redescobrir uma fé possível, para se conectar ao mundo no qual Marie, a atriz, navega após a rodagem de <em>This Is My Blood</em>, mundo feito de amor e redenção. Muitas vezes vendo o universo sombrio e violento de Ferrara, onde as emoções são como navalhas muito afiadas, nos esquecemos de que há esperança em Ferrara. É esta a fraqueza e a beleza de seus filmes.</p>
<p>Há uma característica formal de Maria que precisa ser sublinhada: sua estrutura. Um filme de oitenta e cinco minutos que pula de personagem a personagem que não possui a estrutura de um mosaico, que não é uma miscelânea de planos preguiçosamente amarrados por um tema. O que mantém o filme de Ferrara é seu lugar geométrico bem fixado, sua relação de igualdade entre seus momentos, em cada cena ou plano possuir unidade dramática e o trabalho de uma montagem abrupta, que demarca territórios, funde imagens, altera a natureza do registro.</p>
<p><em>Maria</em>, o discurso do método auto-reflexivo (por vezes, diretamente explicativo do que permaneceu soterrado no subtexto de seus filmes anteriores) de um cineasta, é como Ferrara: tocante e embriagante, incessantemente em busca do absoluto.</p>
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