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      <title>Rascunho.net</title>
      <description>Notícias, críticas e crónicas</description>
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      <pubDate>Fri, 25 May 2012 07:48:41 +0000</pubDate>
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         <title>Crítica: a máquina de fazer espanhóis, de valter hugo mãe (2010)</title>
         <link>http://www.rascunho.net/critica.php?id=1795</link>
         <description>&lt;img src='http://www.rascunho.net/img/maquinadefazerespanhois.JPG'&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Podia ser o retrato de um pa&amp;iacute;s, uma cr&amp;oacute;nica de costumes, uma
radiografia a um tempo, a um tempo que &amp;eacute; o nosso, mas &amp;eacute; mais do que isso. &amp;Eacute;
muitas coisas: &lt;em&gt;a m&amp;aacute;quina de fazer
espanh&amp;oacute;is&lt;/em&gt;, assim, na letra pequena que o autor escolheu, &amp;eacute; a confirma&amp;ccedil;&amp;atilde;o de
que valter hugo m&amp;atilde;e &amp;eacute; um escritor a n&amp;atilde;o deixar escapar por entre os v&amp;aacute;rios
nomes que a literatura portuguesa vai produzindo e os muitos mais volumes que
s&amp;atilde;o dados &amp;agrave; estampa todos os anos pelas editoras de Portugal.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;A hist&amp;oacute;ria &amp;eacute; simples e no primeiro cap&amp;iacute;tulo fica-se desde
logo a perceber por onde nos leva valter hugo m&amp;atilde;e. ant&amp;oacute;nio jorge da silva,
personagem principal e narrador do romance, j&amp;aacute; passou dos 80 e est&amp;aacute; no hospital
numa espera que acaba por n&amp;atilde;o ter fim. laura, a companheira de uma vida, morre
repentinamente depois de uma indisposi&amp;ccedil;&amp;atilde;o &amp;agrave; hora do lanche. Na sala onde
aguarda, silva conhece um outro silva &amp;ndash; o silva da europa, &amp;laquo;o peito inchado de
orgulho como se tivesse conquistado tudo sozinho&amp;raquo; (p. 17) &amp;ndash; primeira de uma
s&amp;eacute;rie de personagens que contribuem para o retrato social que o livro tamb&amp;eacute;m &amp;eacute;.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;N&amp;atilde;o cortamos o prazer da leitura se dissermos, desde j&amp;aacute;, que
&amp;agrave; morte de laura se sucede o internamento de ant&amp;oacute;nio jorge da silva num lar da
terceira idade. E &amp;eacute; nesta casa, que tem dificuldade em aceitar, que o silva
principal nos mostra quem &amp;eacute; e quem os outros s&amp;atilde;o. &amp;Eacute; aqui que o livro acontece,
num tom tenso, triste e ir&amp;oacute;nico, mas pontuado, de quando em vez, por uma
extraordin&amp;aacute;ria capacidade de nos fazer sorrir.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;Eacute; um livro que reflecte sobre a vida e sobre o fim dela,
sobre o que somos no final da vida: &amp;laquo;um problema com o ser-se velho &amp;eacute; o de
julgarem que ainda devemos aprender coisas quando, na verdade, estamos a
desaprend&amp;ecirc;-las, e faz todo o sentido que assim seja para que nos afundemos
inconscientemente na imin&amp;ecirc;ncia do desaparecimento. a inconsci&amp;ecirc;ncia apaga as dores,
claro, e as alegrias&amp;raquo; (p. 41). E &amp;eacute; este exerc&amp;iacute;cio que valter hugo m&amp;atilde;e faz ao imaginar
o que ainda n&amp;atilde;o &amp;eacute; que, em parte, faz de &lt;em&gt;a
m&amp;aacute;quina de fazer espanh&amp;oacute;is&lt;/em&gt; um livro inesquec&amp;iacute;vel: ningu&amp;eacute;m se atreve a
pensar na velhice quando ela est&amp;aacute; longe. hugo m&amp;atilde;e f&amp;aacute;-lo ao longo de 300 p&amp;aacute;ginas
e obriga-nos a faz&amp;ecirc;-lo tamb&amp;eacute;m.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;Depois, &lt;em&gt;a m&amp;aacute;quina de
fazer espanh&amp;oacute;is&lt;/em&gt; &amp;eacute; um convite a uma an&amp;aacute;lise do que s&amp;atilde;o os portugueses de
hoje, muito mais marcados do que querem ser por aquilo que ontem foram. Um pa&amp;iacute;s
que ainda se lembra do que foi a ditadura, que ainda n&amp;atilde;o se libertou totalmente
dela. &amp;laquo;n&amp;oacute;s fizemos tudo pela igreja porque as conven&amp;ccedil;&amp;otilde;es, &amp;agrave; &amp;eacute;poca, eram muito
mais r&amp;iacute;gidas do que aquilo que a frescura da nossa juventude nos permitia
almejar. ainda nos marcavam as heran&amp;ccedil;as castradoras de uma educa&amp;ccedil;&amp;atilde;o com idas &amp;agrave;
missa, mas, sobretudo, uma dificuldade em cortar com o que os outros esperariam
da nossa conduta.&amp;raquo; (p. 95).&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;H&amp;aacute; igreja, poder pol&amp;iacute;tico e futebol naquele que &amp;eacute; o mais
recente romance de valter hugo m&amp;atilde;e, lan&amp;ccedil;ado no in&amp;iacute;cio do ano passado, com a
chancela da Alfaguara. E h&amp;aacute; tamb&amp;eacute;m rela&amp;ccedil;&amp;otilde;es familiares intensas, rela&amp;ccedil;&amp;otilde;es
familiares perdidas, rela&amp;ccedil;&amp;otilde;es pessoais que se constroem, que se perdem ao ritmo
da morte. Deambula&amp;ccedil;&amp;otilde;es de fim de vida, quest&amp;otilde;es existenciais expostas de modo
simples, porque simples &amp;eacute; a escrita de valter hugo m&amp;atilde;e: &amp;laquo;deus &amp;eacute; a cobi&amp;ccedil;a que
temos dentro de n&amp;oacute;s. &amp;eacute; um modo de querermos tudo, de n&amp;atilde;o bastarmos com o que &amp;eacute;
garantido e j&amp;aacute; t&amp;atilde;o abundante. como se n&amp;atilde;o fosse suficiente tanto quanto se nos
p&amp;otilde;e diante durante a vida.&amp;raquo; (p. 225).&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;Simples &amp;eacute; escrita de valter hugo m&amp;atilde;e e simples &amp;eacute; &lt;em&gt;a m&amp;aacute;quina de fazer espanh&amp;oacute;is&lt;/em&gt; sem nunca
serem simplistas, uma e outra. Porque esta simplicidade de dizer as coisas, t&amp;atilde;o
naturais que n&amp;atilde;o parecem ter sido inventadas, s&amp;atilde;o sobre o mais complexo que h&amp;aacute;:
vida e morte, mas sobretudo a vida.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;Admite-se que a letra pequena que valter hugo m&amp;atilde;e usa quase
sempre possa ser um obst&amp;aacute;culo &amp;agrave; leitura. Mas imagine que l&amp;ecirc; o livro em voz alta
&amp;ndash; leia em voz alta. Na verdade, &lt;em&gt;a m&amp;aacute;quina
de fazer espanh&amp;oacute;is&lt;/em&gt; &amp;eacute; quase como se fosse um poema. Cadente, enla&amp;ccedil;ado, &amp;eacute;
para ler de uma s&amp;oacute; vez, de um trago, sem paragens nem interrup&amp;ccedil;&amp;otilde;es. N&amp;atilde;o &amp;eacute; um
livro de cabeceira.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/5jXp4N-GKQK7Ejwjsa-4Dsbja4o/0/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/5jXp4N-GKQK7Ejwjsa-4Dsbja4o/0/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;br/&gt;
&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/5jXp4N-GKQK7Ejwjsa-4Dsbja4o/1/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/5jXp4N-GKQK7Ejwjsa-4Dsbja4o/1/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;</description>
         <author>Isabel Correia de Castro</author>
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         <pubDate>Tue, 15 Feb 2011 17:44:20 +0000</pubDate>
      </item>
      <item>
         <title>Crítica: Ham on Rye, de Charles Bukowski (2010)</title>
         <link>http://www.rascunho.net/critica.php?id=1794</link>
         <description>&lt;img src='http://www.rascunho.net/img/charles_bukowski-ham_on_rye.jpg'&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;O ano
que passou foi especialmente agrad&amp;aacute;vel para os &lt;em&gt;bukowskianos&lt;/em&gt;. Em Abril a Ant&amp;iacute;gona publicou &lt;em&gt;Correios&lt;/em&gt;, o primeiro romance de Charles Bukowski &lt;span&gt;(1920-1994), originalmente editado em 1971, com tradu&amp;ccedil;&amp;atilde;o de Rui
Lopes e pref&amp;aacute;cio de Gerald Locklin. Em Setembro, a renovada Ulisseia lan&amp;ccedil;ou,
com tradu&amp;ccedil;&amp;atilde;o de manuel a. domigos, aquele que &amp;eacute; considerado por muitos o melhor
romance do velho Buk: &lt;em&gt;Ham on Rye &lt;/em&gt;(1982),
t&amp;iacute;tulo de tradu&amp;ccedil;&amp;atilde;o impratic&amp;aacute;vel que a vers&amp;atilde;o portuguesa acolheu num mais
literal, mas porventura menos feliz, &lt;em&gt;P&amp;atilde;o
com Fiambre&lt;/em&gt;. (Abra-se, desde j&amp;aacute;, o par&amp;ecirc;ntesis: n&amp;atilde;o deixa de ser ir&amp;oacute;nico que
uma escrita t&amp;atilde;o literal comece logo por criar problemas no t&amp;iacute;tulo de um livro.)
Se tivermos em conta que, at&amp;eacute; &amp;agrave; data, apenas hav&amp;iacute;amos merecido em l&amp;iacute;ngua
portuguesa um dos romances do autor, mais concretamente &lt;em&gt;Mulheres &lt;/em&gt;(1978), vertido para portugu&amp;ecirc;s por Fernando Lu&amp;iacute;s sob selo
da Dom Quixote, &amp;eacute; de saudar esta inusitada infla&amp;ccedil;&amp;atilde;o de romances &lt;em&gt;bukowskianos&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;span&gt; nas prateleiras das livrarias portuguesas.
Apesar do eco cibern&amp;eacute;tico que estas edi&amp;ccedil;&amp;otilde;es mereceram, a imprensa oficial, que
est&amp;aacute; para os livros como o jornal &lt;em&gt;A Bola&lt;/em&gt; para os jogos do Benfica, n&amp;atilde;o fez grande caso. Salvo rar&amp;iacute;ssimas excep&amp;ccedil;&amp;otilde;es, uma
nota de rodap&amp;eacute; aqui, outra acol&amp;aacute;, foi tudo o que pudemos ler de apontamento
cr&amp;iacute;tico sobre a primeira edi&amp;ccedil;&amp;atilde;o portuguesa de &lt;em&gt;Ham on Rye&lt;/em&gt;. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span&gt;Matemos, desde j&amp;aacute;, o
assunto da tradu&amp;ccedil;&amp;atilde;o: podia estar melhor se tivesse sido acompanhada de uma
revis&amp;atilde;o digna. Deixando de lado as cada vez mais frequentes e irritantes
gralhas das tradu&amp;ccedil;&amp;otilde;es portuguesas, h&amp;aacute; op&amp;ccedil;&amp;otilde;es que deixam muito a desejar. Por
exemplo, a prolifera&amp;ccedil;&amp;atilde;o de pronomes pessoais em frases ou par&amp;aacute;grafos que os n&amp;atilde;o
justificam. Sabemos que em l&amp;iacute;ngua inglesa eles est&amp;atilde;o l&amp;aacute;, mas no portugu&amp;ecirc;s podem
ficar impl&amp;iacute;citos tornando a escrita mais natural e libertando a leitura de
solavancos desnecess&amp;aacute;rios: &amp;laquo;Ela usava uma elaborada peruca branca. Ela dava-nos
reguadas frequentemente quando pensava que est&amp;aacute;vamos a ser desobedientes. Acho
que ela nunca ia &amp;agrave; casa de banho&amp;raquo; (p. 31). Noutras ocasi&amp;otilde;es a tradu&amp;ccedil;&amp;atilde;o de
express&amp;otilde;es coloquiais coloca problemas de repeti&amp;ccedil;&amp;atilde;o igualmente evit&amp;aacute;veis: &amp;laquo;Era
mais ou menos um ano mais velho do que eu e n&amp;atilde;o era da minha escola&amp;raquo; (p. 54). E
h&amp;aacute; situa&amp;ccedil;&amp;otilde;es que configuram desaten&amp;ccedil;&amp;otilde;es gramaticais ou de concord&amp;acirc;ncia que
dificultam a percep&amp;ccedil;&amp;atilde;o das frases: &amp;laquo;Conseguia-o ver deitado no passeio&amp;hellip;&amp;raquo; (p.
250), &amp;laquo;O vosso sal&amp;aacute;rio &amp;eacute; de quarta e quatro c&amp;ecirc;ntimos e meio &amp;agrave; hora&amp;raquo; (p. 259),
&amp;laquo;Bem, um ou dois tinham funcionado &amp;ndash; para mim &amp;ndash; mas pareciam que tinham sido
guiados em vez de fazerem o caminho sozinhos&amp;raquo; (p. 289).&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;A &lt;em&gt;literalidade&lt;/em&gt; da escrita de Bukowski
merece uma aten&amp;ccedil;&amp;atilde;o redobrada. A sua prosa, mais ainda os seus poemas, minam-nos
consecutivamente o terreno. H&amp;aacute; uma tend&amp;ecirc;ncia para o lermos com a pressa que o
pr&amp;oacute;prio ritmo da narrativa nos imprime, mas essa tend&amp;ecirc;ncia corre o risco de
resvalar para uma superficialidade que nada tem que ver com o car&amp;aacute;cter
essencial do que est&amp;aacute; escrito. &amp;Eacute; muito frequente, por exemplo, vermos os livros
de Charles Bukowski reduzidos a meros retratos de uma vida decadente perdida
num turbilh&amp;atilde;o de aventuras com mulheres, pancadaria, &amp;aacute;lcool, jogos de azar e
trafulhices v&amp;aacute;rias. Em &lt;em&gt;Ham on Rye&lt;/em&gt;, o
romance que recupera os tempos de juventude do alter-ego Henry Chinaski, todo
esse ambiente est&amp;aacute; afundado debaixo da opress&amp;atilde;o social caracter&amp;iacute;stica da Grande
Depress&amp;atilde;o. Deus, p&amp;aacute;tria e fam&amp;iacute;lia, &amp;agrave; moda americana, com esta &amp;uacute;ltima sentada em
torno de uma mesa onde a palavra frustra&amp;ccedil;&amp;atilde;o adquire o peso das expectativas
defraudadas e das ambi&amp;ccedil;&amp;otilde;es esmorecidas: &amp;laquo;Ent&amp;atilde;o, &amp;eacute; isso que eles
querem: mentiras. Mentiras bonitas. &amp;Eacute; disso que precisam. As pessoas eram
rid&amp;iacute;culas&amp;raquo; (p. 101). Encontramos ao longo do romance as ra&amp;iacute;zes de uma solid&amp;atilde;o enraivecida que afluiu
no sentido da indiferen&amp;ccedil;a e da desist&amp;ecirc;ncia social, por se tornar insuport&amp;aacute;vel
uma conviv&amp;ecirc;ncia com a mentira e se ansiar pela genuidade das coisas.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;N&amp;atilde;o &amp;eacute;
de estranhar que Charles Bukowski tenha ocupado tantas p&amp;aacute;ginas com as ilus&amp;otilde;es
da fam&amp;iacute;lia &amp;#9472; &amp;laquo;V&amp;iacute;nhamos todos de fam&amp;iacute;lias v&amp;iacute;timas da Depress&amp;atilde;o, est&amp;aacute;vamos mal
alimentados, mas mesmo assim t&amp;iacute;nhamos crescido e ficado fortes. Penso que a
maioria era pouco acarinhada pela fam&amp;iacute;lia, mas tamb&amp;eacute;m n&amp;atilde;o ped&amp;iacute;amos carinho ou
mimo a ningu&amp;eacute;m. &amp;Eacute;ramos uma anedota mas as pessoas pensavam duas vezes antes de
se rirem de n&amp;oacute;s&amp;raquo; (p. 112) &amp;#9472; e a inutilidade da institui&amp;ccedil;&amp;atilde;o escolar. O que aqui
se revela &amp;eacute; uma emerg&amp;ecirc;ncia para a ruptura com essas institui&amp;ccedil;&amp;otilde;es, ao mesmo
tempo que se afirma um rep&amp;uacute;dio para com as vidas entediantes da maioria e a
mais completa incompet&amp;ecirc;ncia para a adapta&amp;ccedil;&amp;atilde;o social. Quando olha para si
pr&amp;oacute;prio, aquilo que o jovem Chinaski v&amp;ecirc; oscila entre uma necessidade de
afirma&amp;ccedil;&amp;atilde;o e a mais brutal das constata&amp;ccedil;&amp;otilde;es. Nesta prosa, &amp;laquo;as tripas cheias de
merda&amp;raquo;, a acne, a hilaridade com que as situa&amp;ccedil;&amp;otilde;es mais abjectas nos s&amp;atilde;o
relatadas, n&amp;atilde;o busca a m&amp;iacute;nima complac&amp;ecirc;ncia humor&amp;iacute;stica do leitor, s&amp;atilde;o provas
factuais da debilidade essencial dos homens. Da&amp;iacute; que a grande surpresa seja um
&amp;laquo;gajo t&amp;atilde;o grande a chorar&amp;raquo;, porque nesse gesto de deixar as l&amp;aacute;grimas romperem
os m&amp;uacute;sculos est&amp;aacute; a ess&amp;ecirc;ncia da humanidade. &amp;Eacute; nestes aspectos a seu modo
ontol&amp;oacute;gicos que a prosa de Charles Bukowski adquire a dimens&amp;atilde;o dos grandes, os
mesmos que ele ia procurar na Biblioteca e aos quais se agarrou como um
n&amp;aacute;ufrago agarrando-se a uma t&amp;aacute;bua de madeira. O sexo, o &amp;aacute;lcool, a literatura
s&amp;atilde;o os b&amp;aacute;lsamos hedonistas que afastam do desistente a ideia do suic&amp;iacute;dio,
transformando-o, pois claro, num resistente.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/jA_B-Adwq1Ik84BraDRlei7NyJ0/0/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/jA_B-Adwq1Ik84BraDRlei7NyJ0/0/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;br/&gt;
&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/jA_B-Adwq1Ik84BraDRlei7NyJ0/1/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/jA_B-Adwq1Ik84BraDRlei7NyJ0/1/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;</description>
         <author>Henrique Fialho</author>
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         <pubDate>Mon, 14 Feb 2011 10:37:08 +0000</pubDate>
      </item>
      <item>
         <title>Crítica: K3, de Nuno Dempster (2011)</title>
         <link>http://www.rascunho.net/critica.php?id=1793</link>
         <description>&lt;img src='http://www.rascunho.net/img/k3capaAF.jpg'&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;N&amp;atilde;o sei se foi no pr&amp;oacute;prio Wittgenstein,
se no filme que Derek Jarman lhe dedicou, que um dia vi a experi&amp;ecirc;ncia da guerra
declarada como a &amp;uacute;nica verdadeiramente elucidativa do sentido da vida. &amp;Eacute;
prov&amp;aacute;vel que assim seja. Tratando-se de uma experi&amp;ecirc;ncia que nos coloca no
centro de uma situa&amp;ccedil;&amp;atilde;o-limite, a guerra apresenta-nos a tudo o que enforma a
exist&amp;ecirc;ncia do homem: do medo &amp;agrave; esperan&amp;ccedil;a, passando pelo sentimento da
insignific&amp;acirc;ncia que em tudo medra. A consci&amp;ecirc;ncia de que tudo o que existindo
pode, de um momento para o outro, desaparecer sem deixar rastro &amp;eacute;, pois, a
consci&amp;ecirc;ncia da vida tal como ela &amp;eacute;. Assim sendo, n&amp;atilde;o admira que algumas das
melhores obras liter&amp;aacute;rias, cinematogr&amp;aacute;ficas, pict&amp;oacute;ricas que a hist&amp;oacute;ria
consagrou tenham a guerra como cen&amp;aacute;rio ou objecto de reflex&amp;atilde;o. A poesia n&amp;atilde;o escapa.
Agora que se comemoram, salvo seja, 50 anos sobre o come&amp;ccedil;o da guerra colonial
portuguesa, voltamos a ter em verso ecos dessa experi&amp;ecirc;ncia traum&amp;aacute;tica. Para
al&amp;eacute;m dos poemas que Fernando Assis Pacheco consagrou ao tema, e que para mim
continuam a ser os melhores, n&amp;atilde;o h&amp;aacute; nada que se compare, no plano nacional, a
K3 (&amp;amp;etc., Janeiro de 2011), o mais recente livro de Nuno Dempster.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Poema longo, na linha formal do
anterior Londres, tamb&amp;eacute;m ele vindo a lume com o selo da &amp;amp; etc., K3 vai aos
confins da mem&amp;oacute;ria colher a mat&amp;eacute;ria de que &amp;eacute; feito. Ecos, evoca&amp;ccedil;&amp;otilde;es, d&amp;uacute;bias ocorr&amp;ecirc;ncias,
lembran&amp;ccedil;as, recorda&amp;ccedil;&amp;otilde;es, moldam uma epopeia que se nega a si pr&amp;oacute;pria por nada
no que nela &amp;eacute; relatado ser digno de orgulho her&amp;oacute;ico. De algum modo a viagem que
parte da Esta&amp;ccedil;&amp;atilde;o Mar&amp;iacute;tima de Alc&amp;acirc;ntara nos questiona sobre a pr&amp;oacute;pria natureza
da poesia e suas fragilidades quando confrontada com os relances da vida.
Afinal, a poesia ainda &amp;eacute; poss&amp;iacute;vel. Nuno Dempster sabe que &amp;laquo;os versos ser&amp;atilde;o
sempre / mais do que os mortos / e t&amp;ecirc;m vida curta&amp;raquo; (p. 7), mas nem por isso
lhes nega o sangue que tendo por destino um esquecimento incerto pode servir
para, reavivando o passado, melhor entendermos o presente. A Hist&amp;oacute;ria
Tr&amp;aacute;gico-Mar&amp;iacute;tima que este poema esconjura &amp;eacute; a de toda uma gera&amp;ccedil;&amp;atilde;o de n&amp;aacute;ufragos
que, ora ficando por terra, ora perecendo afogados numa incur&amp;aacute;vel amargura, se
viram privados de uma juventude confortavelmente instalada como aquela que as
&amp;uacute;ltimas d&amp;eacute;cadas souberam alimentar.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Nalguns momentos os versos
parecem pretender exorcismar os traumas que se foram mantendo colados ao corpo,
noutros vem &amp;agrave; tona um desassossego pol&amp;iacute;tico e hist&amp;oacute;rico que tende a questionar
motivos sem encontrar desculpas ou justifica&amp;ccedil;&amp;otilde;es: &amp;laquo;Estou certo de que muitos /
deveriam julgar poss&amp;iacute;vel / manter a antiga rota dos escravos, / e os limites
tra&amp;ccedil;ados por Afonso V. // Da&amp;iacute; que houvesse gente a quem a morte, / sa&amp;iacute;da das
rajadas de G3, / era a forma de ser destino &amp;uacute;til, / sem que o olhar hesitasse /
e, menos, se quedasse pensativo, // fiel ao rei, &amp;agrave; p&amp;aacute;tria, ao povo, palavras
que n&amp;atilde;o dizem anda, / surgem de altifalantes anacr&amp;oacute;nicos, cujo som se confunde
em uma ideia nula&amp;raquo; (p. 21). Nada disto morreu, vai refor&amp;ccedil;ando o poema enquanto
nos introduz aos subterr&amp;acirc;neos do K3, um bunker situado na Guin&amp;eacute;, hoje devorado
pela selva e ruinosa representa&amp;ccedil;&amp;atilde;o da mis&amp;eacute;ria semeada pela guerra.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Tratando-se de um poema
evocativo com uma experi&amp;ecirc;ncia traum&amp;aacute;tica em pano de fundo, o que mais acaba por
impressionar &amp;eacute; a heterodoxia do discurso: &amp;laquo;Deve dizer-se aos m&amp;iacute;sticos / e
&amp;agrave;queles que acreditam / em destinos supremos / que o ch&amp;atilde;o da humanidade / &amp;eacute; um
palimpsesto de esperma e sangue, / com pegadas em volta / da cama das mulheres
em tempo de guerra, // como em redor da esteira / de Djariato, / numa palhota
de h&amp;aacute; mil anos, / uma era t&amp;atilde;o diversa, // os soldados nos anos do poema, / a
desejar-lhe o belo tronco nu, / os seios empinados, / o ventre liso, / a tanga
que ca&amp;iacute;sse&amp;raquo; (pp. 34-35). No entanto, Dempster cont&amp;eacute;m-se nas imagens, n&amp;atilde;o se
perde por realiza&amp;ccedil;&amp;otilde;es sensacionalistas e gratuitamente provocat&amp;oacute;rias, deixa os
cheiros virem &amp;agrave; tona, ilustra a solid&amp;atilde;o, reaviva os sons do pesadelo sem nos
impor, o que &amp;eacute; o mais dif&amp;iacute;cil, a pornografia dos corpos trucidados, das
viola&amp;ccedil;&amp;otilde;es, da insanidade t&amp;iacute;pica destes teatros abjectos de matan&amp;ccedil;a. O que se
busca, muitos anos depois da experi&amp;ecirc;ncia vivida, &amp;eacute; sossego e paz para um
cansa&amp;ccedil;o transportado ao longo dos anos, &amp;eacute; aliviar o peso da lembran&amp;ccedil;a. Da&amp;iacute; que
a conclus&amp;atilde;o, se assim lhe podemos chamar, n&amp;atilde;o pudesse ser outra: &amp;laquo;Voltar ou n&amp;atilde;o
voltar, // morrer ou n&amp;atilde;o morrer, tanto fazia&amp;raquo; (p. 63).&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/dI5-fGgplWOKXgbANQyR4NLrEcw/0/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/dI5-fGgplWOKXgbANQyR4NLrEcw/0/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;br/&gt;
&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/dI5-fGgplWOKXgbANQyR4NLrEcw/1/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/dI5-fGgplWOKXgbANQyR4NLrEcw/1/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;</description>
         <author>Henrique Fialho</author>
         <guid isPermaLink="false" />
         <pubDate>Sun, 06 Feb 2011 14:35:51 +0000</pubDate>
      </item>
      <item>
         <title>Três comunidades sob a mesma T(h)ree</title>
         <link>http://www.rascunho.net/artigo.php?id=3302</link>
         <description>&lt;img src='http://www.rascunho.net/img/Wilson Tsang 2.JPG'&gt;&lt;br /&gt;Demonstrar que o «encontro de raízes» não impede «fuga ao tradicionalismo» é um objectivo de &lt;i&gt;T(h)ree&lt;/i&gt;, compilação de música moderna e alternativa made in Hong Kong, Macau e Portugal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Tr&amp;ecirc;s dezenas de bandas, divididas aos pares ao longo de 15 temas, 
visitam e unem a m&amp;uacute;sica moderna e alternativa de Portugal, &amp;agrave;s das 
cidades de Macau e Hong Kong. Esta &amp;eacute; a proposta do primeiro de tr&amp;ecirc;s cap&amp;iacute;tulos de &lt;a rel="nofollow" target="_blank" href="http://www.myspace.com/projectothree"&gt;&lt;em&gt;T(h)ree&lt;/em&gt;&lt;/a&gt;, compila&amp;ccedil;&amp;atilde;o criada por David
Valentim. Ap&amp;oacute;s ter vivido em ambas as cidades chinesas, este arquitecto de
forma&amp;ccedil;&amp;atilde;o encontrou-se com o RASCUNHO no Museu de Oriente, espa&amp;ccedil;o que se preparava
para receber nomes inscritos no verso deste &amp;aacute;lbum como &amp;Ouml;lga, Norberto Lobo, O Monstro ou
os orientais S.T., Joey Chu e Wilson Tsang (foto).&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;img style="margin-left:5px;margin-right:5px;float:right;" alt="" width="200" height="182"/&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;T(h)ree&lt;/em&gt;, o
baptismo desta compila&amp;ccedil;&amp;atilde;o, leva-nos a pensar que se deve &amp;agrave;s tr&amp;ecirc;s comunidades
integrantes deste projecto: a portuguesa, a macaense e a de Hong Kong. Que
outros motivos o levaram a escolher este nome?&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Por a letra &amp;laquo;h&amp;raquo; estar entre par&amp;ecirc;ntesis, tamb&amp;eacute;m pode
ser considerado &amp;aacute;rvore, devido &amp;agrave;s diferentes ramifica&amp;ccedil;&amp;otilde;es que podem surgir de
um projecto como este. O que estou a fazer &amp;eacute; semear uma &amp;aacute;rvore musical que
esperemos que no futuro cres&amp;ccedil;a, seja regada, apoiada a n&amp;iacute;vel institucional e
por quem a ouve. No fundo, estamos a falar de ra&amp;iacute;zes musicais e ramifica&amp;ccedil;&amp;otilde;es
culturais.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Fala em
futuro e em novas edi&amp;ccedil;&amp;otilde;es. Podemos ent&amp;atilde;o supor que existir&amp;atilde;o novos cap&amp;iacute;tulos
neste projecto?&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&amp;Eacute; uma trilogia asi&amp;aacute;tica, com Portugal e a sua m&amp;uacute;sica
como base, e onde os outros dois territ&amp;oacute;rios integrantes v&amp;atilde;o mudando de &amp;aacute;lbum
para &amp;aacute;lbum. Este primeiro volume &amp;eacute; de Hong Kong e Macau, depois ser&amp;atilde;o outros
dois territ&amp;oacute;rios asi&amp;aacute;ticos, e o terceiro ir&amp;aacute; pelo mesmo caminho.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;A compila&amp;ccedil;&amp;atilde;o
acaba de ser lan&amp;ccedil;ada, mas come&amp;ccedil;ou a ser criada h&amp;aacute; mais de um ano. Como &amp;eacute; que
surgiu a ideia de conceber este projecto? &lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Surgiu quando vivi em Hong-Kong, onde desenvolvi alguns projectos musicais, nomeadamente na produ&amp;ccedil;&amp;atilde;o de eventos de
m&amp;uacute;sica &lt;em&gt;underground&lt;/em&gt;. Esta experi&amp;ecirc;ncia
permitiu-me conhecer muitos m&amp;uacute;sicos locais e alternativos, todos eles
desconhecedores da m&amp;uacute;sica portuguesa, o que me fez pensar que estava numa
situa&amp;ccedil;&amp;atilde;o privilegiada para juntar a m&amp;uacute;sica moderna e alternativa de Portugal
com a de Hong Kong e Macau.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;A que
especificidades musicais se refere quando fala em m&amp;uacute;sica moderna?&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Os emigrantes de hoje em dia j&amp;aacute; n&amp;atilde;o s&amp;atilde;o os de
antigamente, que tinham um certo saudosismo, amor incondicional &amp;agrave; P&amp;aacute;tria, e
esperavam que o D. Sebasti&amp;atilde;o regressasse numa tarde de nevoeiro. Com a Internet
e as novas tecnologias, estamos muito mais pr&amp;oacute;ximos e, no meu caso
particular, quando estou em Hong Kong e Macau sinto-me ligado a Portugal. Quando
digo moderna e alternativa significa que quero fugir a tradicionalismo: ao fado
ou &amp;agrave; m&amp;uacute;sica popular portuguesa, at&amp;eacute; porque hoje em dia h&amp;aacute; um novo sentimento na
emigra&amp;ccedil;&amp;atilde;o.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Encaixar
nessa defini&amp;ccedil;&amp;atilde;o de m&amp;uacute;sica moderna e alternativa ajuda a justificar a forte
presen&amp;ccedil;a da m&amp;uacute;sica electr&amp;oacute;nica. Esse foi o factor mais importante na escolha
das bandas? &lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Tal como referi, fiz v&amp;aacute;rios festivais de m&amp;uacute;sica alternativa
em Hong Kong e Macau, dos quais escolhi as bandas que melhor exprimem o que se
faz dentro da m&amp;uacute;sica moderna local. Tentei perceber quais eram as qualidades delas
e, depois, tentei junt&amp;aacute;-las com m&amp;uacute;sicos portugueses que enfatizassem essas
mais-valias e adicionassem novos elementos. Foi um pouco de l&amp;aacute; para c&amp;aacute; que fiz
essa liga&amp;ccedil;&amp;atilde;o.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;img style="float:left;margin-left:5px;margin-right:5px;" alt=""/&gt;&lt;strong&gt;H&amp;aacute;
projectos musicais portugueses que sejam conhecidos em Macau ou Hong Kong?&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;N&amp;atilde;o h&amp;aacute; vida para al&amp;eacute;m do fado. A
Macau v&amp;atilde;o muitos fadistas, bandas dos anos 90 que j&amp;aacute; n&amp;atilde;o est&amp;atilde;o muito na moda e at&amp;eacute;
m&amp;uacute;sicos de interven&amp;ccedil;&amp;atilde;o com carreiras que se prolongam desde o 25 de Abril. Em
Hong Kong &amp;eacute; quase zero: no m&amp;aacute;ximo existe um ou outro fadista que v&amp;atilde;o l&amp;aacute;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Com o
decorrer deste projecto, as bandas orientais j&amp;aacute; lhe deram algum parecer
relativamente &amp;agrave;s portuguesas?&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O contacto delas com a m&amp;uacute;sica portuguesa come&amp;ccedil;ou com
o &lt;em&gt;T(h)ree&lt;/em&gt;, j&amp;aacute; h&amp;aacute; quase dois anos. Todos
aqueles que entraram na compila&amp;ccedil;&amp;atilde;o adoraram ou ficaram muito surpreendidos com
o que receberam do seu parceiro portugu&amp;ecirc;s. O contr&amp;aacute;rio tamb&amp;eacute;m se fez sentir. A
Gloria Tang (de Hong Kong), que cantou uma m&amp;uacute;sica com o Norberto Lobo, ficou
muito surpreendida com o que este fez, tal como o ST (tamb&amp;eacute;m de Hong Kong, na foto)
tamb&amp;eacute;m ficou com os Balla. Essa liga&amp;ccedil;&amp;atilde;o depois fez com que eles tamb&amp;eacute;m
tentassem conhecer um pouco mais a m&amp;uacute;sica de Portugal. Eu sou apenas a igni&amp;ccedil;&amp;atilde;o
de um projecto que depois ganha vida pr&amp;oacute;pria e ajuda a suprimir falta de
liga&amp;ccedil;&amp;atilde;o, n&amp;atilde;o s&amp;oacute; entre estas tr&amp;ecirc;s comunidades, como entre Portugal e o mercado
muito fechado do resto da &amp;Aacute;sia.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a rel="nofollow" target="_blank" href='http://www.rascunho.net/artigo.php?id=3302'&gt;Artigo publicado em www.rascunho.net&lt;/a&gt;
&lt;p&gt;&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/l1eE9gadC91WaxCq_lsK-i3Y6gQ/0/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/l1eE9gadC91WaxCq_lsK-i3Y6gQ/0/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;br/&gt;
&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/l1eE9gadC91WaxCq_lsK-i3Y6gQ/1/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/l1eE9gadC91WaxCq_lsK-i3Y6gQ/1/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;</description>
         <guid isPermaLink="false" />
         <pubDate>Tue, 01 Feb 2011 10:48:42 +0000</pubDate>
      </item>
      <item>
         <title>Al Berto homenageado em dia de aniversário</title>
         <link>http://www.rascunho.net/artigo.php?id=3301</link>
         <description>&lt;img src='http://www.rascunho.net/img/al_berto-botequim11.jpg'&gt;&lt;br /&gt;Um conjunto de intelectuais e agentes culturais ligados ao poeta crepuscular reúnem-se, esta terça-feira, em Lisboa. A tertúlia acontece no Botequim, como nos tempos em que Natália Correia dirigia o espaço e fazia do Largo da Graça um centro da capital.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Os 63 anos que Al Berto faria hoje, 11 de Janeiro, v&amp;atilde;o ser
assinalados no Botequim, em Lisboa, com uma noite de poesia e tert&amp;uacute;lia. H&amp;aacute; uma
mesa de pessoas que, tendo sido pr&amp;oacute;ximas do homem ou estando ligadas &amp;agrave; obra do
autor, v&amp;atilde;o nortear o debate. Os versos, esses, ser&amp;atilde;o de quem quiser levantar-se
e falar.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;Julieta Santos, directora do Teatro do Mar, e Isabel Silva,
do Centro Cultural Emmerico Nunes, s&amp;atilde;o as duas convidadas que chegam ao Largo
da Gra&amp;ccedil;a vindas de Silves, cidade alentejana onde Al Berto passou toda a inf&amp;acirc;ncia
e a adolesc&amp;ecirc;ncia at&amp;eacute; se mudar para Lisboa, para estudar artes na Escola Ant&amp;oacute;nio
Arroio.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;O produtor cultural Paulo Correia, o fil&amp;oacute;sofo e investigador
Jo&amp;atilde;o Maur&amp;iacute;cio Br&amp;aacute;s e Ana Rocha, autora de uma tese de mestrado
recentemente defendida sobre o livro &lt;em&gt;O
Anjo Mudo&lt;/em&gt; e poetisa que assina como Ana Salom&amp;eacute;, tamb&amp;eacute;m integram a mesa. &lt;em&gt;O
Medo&lt;/em&gt;, antologia do seu trabalho po&amp;eacute;tico, estar&amp;aacute; a circular no Botequim,
para ser lido em voz alta pelo p&amp;uacute;blico.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;Al Berto era o pseud&amp;oacute;nimo utilizado por Alberto Raposo
Pidwell Tavares (n. Coimbra, 1948), que come&amp;ccedil;ou por trabalhar em pintura e
partiu depois para a prosa e a poesia. Tem uma pe&amp;ccedil;a de teatro publicada e um
livro de desenho. Morreu de linfoma, a 13 de Junho de 1997. A sua obra
encontra-se no cat&amp;aacute;logo da Ass&amp;iacute;rio &amp;amp; Alvim.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a rel="nofollow" target="_blank" href='http://www.rascunho.net/artigo.php?id=3301'&gt;Artigo publicado em www.rascunho.net&lt;/a&gt;
&lt;p&gt;&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/fG4RLczbr5rkWsukv29nw0T7E2g/0/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/fG4RLczbr5rkWsukv29nw0T7E2g/0/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;br/&gt;
&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/fG4RLczbr5rkWsukv29nw0T7E2g/1/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/fG4RLczbr5rkWsukv29nw0T7E2g/1/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;</description>
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         <pubDate>Tue, 11 Jan 2011 12:16:05 +0000</pubDate>
      </item>
      <item>
         <title>Crítica: O Seminarista, de Rubem Fonseca (2010)</title>
         <link>http://www.rascunho.net/critica.php?id=1792</link>
         <description>&lt;img src='http://www.rascunho.net/img/rubem_fonseca-o_seminarista-sextante.jpg'&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;N&amp;atilde;o recebe aplausos nem louvores &amp;ndash; antes pelo contr&amp;aacute;rio. A
cr&amp;iacute;tica brasileira foi implac&amp;aacute;vel com a obra mais recente daquele que &amp;eacute; um dos
grandes nomes da literatura lus&amp;oacute;fona. O octogen&amp;aacute;rio Rubem Fonseca voltou, em
2009, &amp;agrave; publica&amp;ccedil;&amp;atilde;o de originais com &lt;em&gt;O
Seminarista&lt;/em&gt;, livro que apareceu recentemente no mercado livreiro portugu&amp;ecirc;s.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;O Pr&amp;eacute;mio Cam&amp;otilde;es 2003 n&amp;atilde;o foi poupado nas compara&amp;ccedil;&amp;otilde;es feitas
entre este seu 11.&amp;ordm; romance e os livros de contos que o inscreveram, de modo
incontest&amp;aacute;vel, no mundo das letras brasileiras. A &lt;em&gt;Gazeta&lt;/em&gt;, por exemplo, assegura que o autor &amp;laquo;n&amp;atilde;o exibe a sua melhor
forma&amp;raquo;, mas tece elogios ao facto de este homem, &amp;agrave; data da publica&amp;ccedil;&amp;atilde;o com 84
anos completos, n&amp;atilde;o viver preso ao passado e refutar ideias feitas do g&amp;eacute;nero &amp;laquo;no
meu tempo&amp;raquo;. A &lt;em&gt;Folha de S&amp;atilde;o Paulo&lt;/em&gt; &amp;eacute;
mais feroz: &amp;laquo;Artif&amp;iacute;cios de estilo n&amp;atilde;o conseguem salvar trama de Fonseca&amp;raquo;. A &lt;em&gt;Veja&lt;/em&gt; alinha no mesmo sentido, mas com
algumas ressalvas, ao escrever que &amp;laquo;embora o enredo de seu novo romance seja
capenga, Rubem Fonseca se mant&amp;eacute;m como o cronista mais perspicaz de uma cidade
onde bandidagem e civiliza&amp;ccedil;&amp;atilde;o convivem promiscuamente&amp;raquo;.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;Eacute; certo que &lt;em&gt;O
Seminarista&lt;/em&gt; est&amp;aacute; longe de obras-primas como &lt;em&gt;L&amp;uacute;cia McCartney&lt;/em&gt; (1967) e &lt;em&gt;Feliz
Ano Novo&lt;/em&gt; (1975). Ex&amp;iacute;mio na t&amp;eacute;cnica do conto, Fonseca tem vindo a
aventurar-se com sucesso no romance, g&amp;eacute;nero para o qual transporta uma
inesgot&amp;aacute;vel habilidade de surpreender o leitor &amp;ndash; &lt;em&gt;Di&amp;aacute;rio de um Fescenino&lt;/em&gt; (2003) era a prova mais recente da
capacidade de renova&amp;ccedil;&amp;atilde;o liter&amp;aacute;ria do escritor. Neste contexto e com o passado
que Fonseca carrega, &amp;eacute; natural que &lt;em&gt;O
Seminarista&lt;/em&gt; desiluda, que se esteja &amp;agrave; espera de mais.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;A obra que a Sextante lan&amp;ccedil;ou em Portugal apenas no &amp;uacute;ltimo
trimestre de 2010 tem como personagem principal o Especialista, homem que mata
por encomenda. N&amp;atilde;o conhece as v&amp;iacute;timas, n&amp;atilde;o l&amp;ecirc; jornais para n&amp;atilde;o ficar a saber
quem eram, prefere cinema e poesia, fala latim. Estudou num semin&amp;aacute;rio.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;Como grande parte das figuras que Fonseca constr&amp;oacute;i, o
Especialista, que se chama Jos&amp;eacute;, gosta de mulheres mais do que quase tudo, numa
l&amp;oacute;gica de um Brasil que n&amp;atilde;o esconde o sexo. &amp;laquo;Ela pode ser loura, morena,
mulata, preta, japonesa, desde que tenha as caracter&amp;iacute;sticas que mencionei:
magra, peito pequeno, intelig&amp;ecirc;ncia e bondade&amp;raquo; (p. 31).&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;Contado na primeira pessoa do singular, &lt;em&gt;O Seminarista&lt;/em&gt; dedica os primeiros cap&amp;iacute;tulos &amp;agrave; contextualiza&amp;ccedil;&amp;atilde;o da
personagem &amp;ndash; &amp;laquo;Os homens que matei? Foram muitos, por encomenda.&amp;raquo; (p. 25) &amp;ndash;
evoluindo depois para o que ser&amp;aacute; ac&amp;ccedil;&amp;atilde;o deste livro &lt;em&gt;&amp;agrave; Tarantino&lt;/em&gt;, analogia que a &lt;em&gt;Gazeta&lt;/em&gt; encontrou para situar o romance.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;O Especialista comunica ao Despachante que n&amp;atilde;o pretende
continuar a matar por encomenda. Quase em simult&amp;acirc;neo, apaixona-se e torna-se
homem de uma s&amp;oacute; mulher, uma alem&amp;atilde; de rosto bonito e &amp;laquo;dentadura perfeita&amp;raquo; que
tamb&amp;eacute;m gosta de poesia. &amp;laquo;&lt;em&gt;Oculi sunt i
namore duces&lt;/em&gt;, os olhos s&amp;atilde;o guias no mar, como disse Prop&amp;eacute;rcio&amp;raquo; (p. 33) &amp;eacute; a
deixa que serve de ponto de partida para uma hist&amp;oacute;ria de amor onde o crime,
inevit&amp;aacute;vel em quase todas as obras de Rubem Fonseca, troca os planos &amp;agrave;s
personagens.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;Licenciado em Direito, com um profundo conhecimento do que &amp;eacute;
o crime no Brasil, Fonseca tem a arte de falar da morte como quem fala da vida
&amp;ndash; e esta ser&amp;aacute;, porventura, a caracter&amp;iacute;stica mais forte de &lt;em&gt;O Seminarista&lt;/em&gt;, a assinatura de Fonseca. Sem moralismos, com uma
abordagem realista que raia a frieza, o escritor (que inventou um novo g&amp;eacute;nero
policial para a literatura lus&amp;oacute;fona) mistura poesia, fic&amp;ccedil;&amp;atilde;o e realidade, Cam&amp;otilde;es,
Pessoa, Drummond e Gullar como se de um s&amp;oacute; corpo se tratasse. Vida e morte.
Morte e vida.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;Talvez &lt;em&gt;O Seminarista&lt;/em&gt; n&amp;atilde;o deva ser lido como um romance, mas como um conto alargado. A obra com que o
escritor inaugura a passagem para uma nova editora (deixou, ao final de mais de
duas d&amp;eacute;cadas, a conceituada Companhia das Letras) fica aqu&amp;eacute;m do esperado, mas
merece uma leitura, porque n&amp;atilde;o deixa de ter a qualidade cinematogr&amp;aacute;fica a que o
escritor nos habituou &amp;ndash; se bem que com mais &lt;em&gt;pulp&lt;/em&gt; e Tarantino do que com Fonseca puro e duro.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;a rel="nofollow" target="_blank" href="http://www.oseminaristaolivro.com.br/"&gt;S&amp;iacute;tio Oficial&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/0_YI-KoXwLB53x4ctBRy4Nc3-PU/0/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/0_YI-KoXwLB53x4ctBRy4Nc3-PU/0/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;br/&gt;
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         <author>Isabel Correia de Castro</author>
         <guid isPermaLink="false" />
         <pubDate>Sun, 09 Jan 2011 15:33:54 +0000</pubDate>
      </item>
      <item>
         <title>Crítica: The Meme Machine, de Susan Blackmore (1999)</title>
         <link>http://www.rascunho.net/critica.php?id=1791</link>
         <description>&lt;img src='http://www.rascunho.net/img/susan_blackmore-the_meme_machine.jpg'&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Em 1973, o bi&amp;oacute;logo Richard Dawkins deu um contributo
fundamental para a compreens&amp;atilde;o do comportamento comportamento. O livro &lt;em&gt;The Selfish Gene&lt;/em&gt; ficou conhecido pelo
brilhantismo e clareza que colocou na exposi&amp;ccedil;&amp;atilde;o das bases biol&amp;oacute;gicas das nossas
ac&amp;ccedil;&amp;otilde;es &amp;ndash; e deixava em aberto a possibilidade de os mesmos princ&amp;iacute;pios que se
aplicam aos genes serem alargados &amp;agrave; cultura.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:14pt;line-height:115%;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;Susan Blackmore aceitou o desafio e, em &lt;em&gt;The Meme Machine&lt;/em&gt; (Penguin Books), tenta completar a teoria de
Dawkins, fornecendo um quadro completo para explicar o comportamento humano. O
veredicto final &amp;eacute; positivo, mas contido: num dom&amp;iacute;nio em que a fronteira que
separa o arrojo do disparate &amp;eacute; ainda muito t&amp;eacute;nue, Blackmore produziu um livro
interessante, intelectualmente estimulante e inovador. Mas ao qual falta alguma
solidez para transitar da divis&amp;atilde;o dos livros cativantes para a liga das obras
geniais.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;O que &amp;eacute; um &amp;laquo;meme&amp;raquo;? Basicamente, um meme &amp;eacute; uma ideia que est&amp;aacute;
sujeita ao mesmo tipo de press&amp;otilde;es selectivas que actuam sobre os genes. Os
genes s&amp;atilde;o pequenos trechos de c&amp;oacute;digo gen&amp;eacute;tico que codificam caracter&amp;iacute;sticas
f&amp;iacute;sicas ou mentais e cuja sobreviv&amp;ecirc;ncia est&amp;aacute; dependente do facto de
contribuirem para a&lt;span&gt;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;sobreviv&amp;ecirc;ncia do
respectivo &amp;laquo;hospedeiro&amp;raquo;. Genes que aumentem a possibilidade de o &amp;laquo;hospedeiro&amp;raquo;
sobreviver e deixar descend&amp;ecirc;ncia ser&amp;atilde;o automaticamente replicados; por outro
lado, genes que actuem no sentido contr&amp;aacute;rio tender&amp;atilde;o a desaparecer. A &amp;laquo;mem&amp;eacute;tica&amp;raquo;
parte do princ&amp;iacute;pio de que o mesmo acontecer&amp;aacute; aos memes.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;A ideia pode ser mais bem entendida com o recurso ao exemplo
cl&amp;aacute;ssico da religi&amp;atilde;o. Segundo a mem&amp;eacute;tica, as religi&amp;otilde;es podem ser vistas como
poderosos complexos mem&amp;eacute;ticos &amp;ndash; conjuntos de memes que tendem a agregar-se a
perpetuar-se ao longo do tempo. Podia haver religi&amp;otilde;es sem tabus, a incitarem &amp;agrave;
d&amp;uacute;vida e &amp;agrave; desconfian&amp;ccedil;a, abertas &amp;agrave; cr&amp;iacute;tica, sem hierarquias ou san&amp;ccedil;&amp;otilde;es. Mas n&amp;atilde;o
h&amp;aacute;. Isto n&amp;atilde;o devia ser surpreendente. Os &amp;laquo;memes&amp;raquo; que promovem a toler&amp;acirc;ncia e a
compreens&amp;atilde;o perderam na competi&amp;ccedil;&amp;atilde;o com os que estimulam a convers&amp;atilde;o for&amp;ccedil;ada dos
infi&amp;eacute;is e a f&amp;eacute; cega a um Deus pessoal. As religi&amp;otilde;es s&amp;atilde;o mais que institui&amp;ccedil;&amp;otilde;es.
S&amp;atilde;o v&amp;iacute;rus da mente.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;A mem&amp;eacute;tica aplica esta an&amp;aacute;lise a todas as ideias
potencialmente propag&amp;aacute;veis e sujeitas a press&amp;otilde;es selectivas. Sup&amp;otilde;e-se que,
analisando todas as ideias em termos do respectivo &amp;laquo;sucesso reprodutivo&amp;raquo;, ela possa
tornar-se uma verdadeira &amp;laquo;Teoria da Cultura&amp;raquo;, explicando constru&amp;ccedil;&amp;otilde;es culturais
t&amp;atilde;o diferentes como a literatura, a arquitectura, piadas pessoais ou elementos
de publicidade. Num mundo cheio de memes, apenas os mais resistentes
sobrevivem. E cabe &amp;agrave; mem&amp;eacute;tica perceber quais os elementos que determinam esta
resist&amp;ecirc;ncia.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;Susan Blackmore d&amp;aacute; um importante contributo para este
prop&amp;oacute;sito. O seu livro &amp;eacute;, sem d&amp;uacute;vida, a melhor tentativa de criar uma
verdadeira ci&amp;ecirc;ncia dos memes, ao tornar expl&amp;iacute;citos os seus pressupostos e ao
separar a selec&amp;ccedil;&amp;atilde;o gen&amp;eacute;tica da selec&amp;ccedil;&amp;atilde;o mem&amp;eacute;tica &amp;ndash; uma quest&amp;atilde;o que, para os observadores
mais atentos, nunca tinha sido esclarecida de forma satisfat&amp;oacute;ria. Mas o leitor
de &lt;em&gt;The Meme Machine &lt;/em&gt;chegar&amp;aacute;
provavelmente &amp;agrave; conclus&amp;atilde;o de que os alicerces sobre os quais a &amp;laquo;ci&amp;ecirc;ncia&amp;raquo; da
mem&amp;eacute;tica assenta s&amp;atilde;o, mesmo depois do livro de Susan Blackmore, demasiado
t&amp;iacute;bios para justificarem algo mais do que alguma curiosidade intelectual. O
sentimento de deslumbramento que a leitura de &lt;em&gt;The Selfish Gene&lt;/em&gt; proporciona pode, por vezes, ser substitu&amp;iacute;do pela
sensa&amp;ccedil;&amp;atilde;o desconfort&amp;aacute;vel de se poder estar &amp;agrave; frente de uma charlatanice.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;O problema teria sido atenuado se a autora tivesse colocado
a fasquia um pouco mais baixa. Ao propor-se delinear uma verdadeira &amp;laquo;Teoria da
Cultura&amp;raquo;, Blackmore esbarra num obst&amp;aacute;culo inultrapass&amp;aacute;vel: apesar de todo o
cuidado e min&amp;uacute;cia que coloca na constru&amp;ccedil;&amp;atilde;o da sua teoria, as suas previs&amp;otilde;es e
implica&amp;ccedil;&amp;otilde;es acabam por ser apenas banalidades triviais ou, pelo contr&amp;aacute;rio,
especula&amp;ccedil;&amp;otilde;es infundadas. A sua &amp;laquo;explica&amp;ccedil;&amp;atilde;o mem&amp;eacute;tica&amp;raquo; para o tabu da masturba&amp;ccedil;&amp;atilde;o
masculina cai na segunda categoria: segundo Blackmore, este tabu &amp;ndash; um meme,
claro &amp;ndash; propagou-se porque, ao aumentar as tens&amp;otilde;es sexuais dos jovens do sexo
masculino, aumentava a probabilidade de que estes tivessem rela&amp;ccedil;&amp;otilde;es sexuais, o
que difundiria n&amp;atilde;o apenas os seus seus genes mas tamb&amp;eacute;m os seus memes &amp;ndash;
incluindo, claro, o meme para o tabu sobre a masturba&amp;ccedil;&amp;atilde;o.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;Ok, tudo bem; &amp;eacute; interessante e provocador. Mas era mesmo
preciso chamar a isto ci&amp;ecirc;ncia?&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;O livro &amp;eacute; obrigat&amp;oacute;rio para quem gostou de &lt;em&gt;The Selfish Gene&lt;/em&gt;, segue com aten&amp;ccedil;&amp;atilde;o os
escritos de Richard Dawkins, Matt Ridley e Daniel Dennett ou simplesmente tem
interesse em abordagens alternativas do comportamento humano. E pode ser um bom
divertimento mesmo para quem est&amp;aacute; fora deste grupo. Neste caso, recomenda-se
apenas que o livro seja lido como uma obra de fic&amp;ccedil;&amp;atilde;o cient&amp;iacute;fica: espectacular e
genial mas, infelizmente, pura fantasia.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/SOwPkIVMIvdoxi3rCPICtGeArDg/0/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/SOwPkIVMIvdoxi3rCPICtGeArDg/0/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;br/&gt;
&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/SOwPkIVMIvdoxi3rCPICtGeArDg/1/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/SOwPkIVMIvdoxi3rCPICtGeArDg/1/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;</description>
         <author>Pedro Romano</author>
         <guid isPermaLink="false" />
         <pubDate>Wed, 05 Jan 2011 17:54:03 +0000</pubDate>
      </item>
      <item>
         <title>Crítica: About Love, de Plastiscines (2009)</title>
         <link>http://www.rascunho.net/critica.php?id=1790</link>
         <description>&lt;img src='http://www.rascunho.net/img/plasticines-about_love.jpg'&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Para
quem pensava que a nova m&amp;uacute;sica francesa era s&amp;oacute; feita de Hip-Hop, que se
desengane; as Plastiscines fazem parte de uma nova vaga de Pop-Rock vindo das
terras que um dia deram &amp;agrave; luz nomes como France Gall, Chats Sauvages e Sylvie
Vartan. E parecem apostadas em voltar a colocar a Fran&amp;ccedil;a no mapa musical,
mainstream ou n&amp;atilde;o.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Depois
de um medianamente bem-sucedido primeiro registo em 2007 que dava pelo nome de&lt;em&gt; LP1&lt;/em&gt; (e que, curiosamente, n&amp;atilde;o teve
edi&amp;ccedil;&amp;atilde;o em vinil), as meninas deixaram um pouco de lado a l&amp;iacute;ngua-m&amp;atilde;e para se
atirarem com unhas e dentes ao mercado angl&amp;oacute;fono. E fizeram-no logo em grande &amp;ndash;
&lt;em&gt;About Love&lt;/em&gt; foi gravado e produzido em
Los Angeles, ilustrando a vontade por elas nutrida de n&amp;atilde;o se cingirem apenas ao
velho continente.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A
visibilidade internacional chegou ainda antes do lan&amp;ccedil;amento oficial do &amp;aacute;lbum &amp;ndash;
que teve lugar em Novembro de 2009 na Fnac dos Champs Elys&amp;eacute;es, onde as quatro &lt;em&gt;b&amp;eacute;b&amp;eacute;-rockeurs&lt;/em&gt; mostraram n&amp;atilde;o se tratarem
de um mero produto de est&amp;uacute;dio e das maravilhas do auto-tune &amp;ndash;, com a faixa &lt;em&gt;Bitch&lt;/em&gt; a integrar uma promo da s&amp;eacute;rie &lt;em&gt;Gossip Girl&lt;/em&gt;, onde elas pr&amp;oacute;prias fizeram
uma apari&amp;ccedil;&amp;atilde;o especial. Juntamente com o &amp;aacute;lbum foi tamb&amp;eacute;m lan&amp;ccedil;ada a m&amp;uacute;sica
Barcelona em formato maxi-single e v&amp;aacute;rias remixes da faixa come&amp;ccedil;aram a surgir
como cogumelos um pouco por toda a Europa.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mas
nem s&amp;oacute; de rock vivem os &lt;em&gt;B&amp;eacute;b&amp;eacute;-Rockeurs&lt;/em&gt; &amp;ndash; termo utilizado para designar as bandas da nova vaga da m&amp;uacute;sica francesa, como
B.B. Brunes e Plastiscines, devido &amp;agrave; sua tenra idade e proveni&amp;ecirc;ncia dos &lt;em&gt;quartiers Bo-Bo&lt;/em&gt; (burgueses) de Paris &amp;ndash;,
e se tal j&amp;aacute; tinha ficado claro com registos como &lt;em&gt;Zazie fait de la bicyclette&lt;/em&gt;, no primeiro &amp;aacute;lbum, &lt;em&gt;I am down&lt;/em&gt; e &lt;em&gt;Coney Island&lt;/em&gt; v&amp;ecirc;m demonstrar que a balada indie-pop tem a capacidade
de colorir &lt;em&gt;About Love&lt;/em&gt; com o
progressivo amadurecimento musical de Katty, Louise, Marine e Ana&amp;iuml;s. As meninas
tamb&amp;eacute;m n&amp;atilde;o arriscaram virar as costas por completo &amp;agrave; l&amp;iacute;ngua francesa: &lt;em&gt;Camera&lt;/em&gt; e &lt;em&gt;Pas avec toi &lt;/em&gt;alinham sem medo entre &lt;em&gt;I could rob you&lt;/em&gt; e&lt;em&gt; From
friends to lovers&lt;/em&gt;, mostrando que o Rock&amp;rsquo;n&amp;rsquo;Roll n&amp;atilde;o tem idioma privilegiado
e que h&amp;aacute; vida no Sena ap&amp;oacute;s Johnny Hallyday.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;em&gt;About Love&lt;/em&gt; n&amp;atilde;o &amp;eacute; candidato a disco
europeu de 2009 nem nada que se assemelhe, mas, muito sinceramente, as
Plastiscines tamb&amp;eacute;m n&amp;atilde;o parecem estar muito preocupadas com isso. A solidez
deste segundo registo mostra um empenho fora do comum por parte das quatro &lt;em&gt;mademoiselles&lt;/em&gt; em fazer parte da cena pop
europeia sem que isso se torne numa obsess&amp;atilde;o &amp;ndash; ali&amp;aacute;s, basta ver Louise a saltar
em palco para nos apercebermos que o que elas realmente procuram &amp;eacute; divertir-se,
sem tentar firmar uma posi&amp;ccedil;&amp;atilde;o ou escrever sobre temas demasiado transcendentes.
Despretensioso &amp;eacute; a palavra que ecoa &amp;ndash; e ecoa muito bem &amp;ndash; ao longo do disco,
lembrando-nos que muitos ainda andam nisto &lt;em&gt;just for kicks&lt;/em&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/r4ddI_YuLZ22bE1zoYmhZFiz7p4/0/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/r4ddI_YuLZ22bE1zoYmhZFiz7p4/0/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;br/&gt;
&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/r4ddI_YuLZ22bE1zoYmhZFiz7p4/1/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/r4ddI_YuLZ22bE1zoYmhZFiz7p4/1/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;</description>
         <author>Ana Leorne</author>
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         <pubDate>Tue, 04 Jan 2011 17:03:59 +0000</pubDate>
      </item>
      <item>
         <title>Crítica: Intelectuais, de Paul Johnson (2009)</title>
         <link>http://www.rascunho.net/critica.php?id=1789</link>
         <description>&lt;img src='http://www.rascunho.net/img/paul_johnson-intelectuais.jpg'&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;O que t&amp;ecirc;m Rousseau, Sartre, Karl Marx, Samuel Beckett, Bertrand Russell em
comum? Al&amp;eacute;m do facto &amp;oacute;bvio de serem nomes reconhecidos da Esquerda, eles s&amp;atilde;o,
segundo Paul Johnson, intelectuais t&amp;iacute;picos: arrogantes, desonestos, mesquinhos
e cobardes. Narcisistas inveterados que, apesar de se terem popularizado pelo
fervor com que defenderam convic&amp;ccedil;&amp;otilde;es morais e &amp;eacute;ticas muito r&amp;iacute;gidas, foram, nas
suas vidas privadas, exemplos de como &lt;em&gt;n&amp;atilde;o&lt;/em&gt; ser um bom ser humano.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&amp;Eacute; dif&amp;iacute;cil olhar para &lt;em&gt;Intelectuais&lt;/em&gt; (ed. Guerra e Paz) de outro prisma. A proposta assumida de Johnson &amp;eacute; mostrar
como muitos dos grandes nomes do pensamento ocidental, que inspiraram
movimentos filos&amp;oacute;ficos ou pol&amp;iacute;ticos assinal&amp;aacute;veis, nunca seguiram eles mesmos os
preceitos que recomendaram aos outros. Para isso, passa em revista a vida de
doze intelectuais e pergunta: &amp;laquo;por que dever&amp;aacute; o indiv&amp;iacute;duo ser menos avaliado do
que as ideias que apresenta?&amp;raquo;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Infelizmente, o livro nunca chega sequer a aproximar-se do registo
biogr&amp;aacute;fico. Quem quer conhecer a vida de Tolstoi, Russel ou Normal Mailer n&amp;atilde;o
ficar&amp;aacute; esclarecido com &lt;em&gt;Intelectuais&lt;/em&gt;:
o livro &amp;eacute; um conjunto de recortes dos epis&amp;oacute;dios menos dignos de doze
intelectuais, muitas vezes retirados do contexto, desenquadrados e
propositadamente insuflados. Russell, um dos mais brilhantes e polivalentes
intelectuais de sempre, matem&amp;aacute;tico genial, fil&amp;oacute;sofo de primeira &amp;aacute;gua e vencedor
do Nobel da Literatura, &amp;eacute; tratado como um doido inconsequente com uma queda
para a infidelidade conjugal. Numa palavra: lament&amp;aacute;vel.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;N&amp;atilde;o deixa de ser curioso que o grupo de intelectuais escolhido pare&amp;ccedil;a estar
ideologicamente bastante circunscrito: homens (e mulheres) de Esquerda, muitas
vezes com liga&amp;ccedil;&amp;otilde;es ao mundo da Cultura e pouco tementes a Deus. Talvez a
Direita religiosa n&amp;atilde;o tenha, ao contr&amp;aacute;rio do que se pensa, mentes de vulto para
serem inclu&amp;iacute;das numa obra acerca de intelectuais desonestos. Ou talvez o facto
de Paul Johnson ser um conhecido conservador crist&amp;atilde;o tenha alguma coisa que ver
com esta selec&amp;ccedil;&amp;atilde;o t&amp;atilde;o particular. A haver algum registo biogr&amp;aacute;fico na obra, ele
ser&amp;aacute; certamente autobiogr&amp;aacute;fico. &lt;span&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;N&amp;atilde;o &amp;eacute; que o livro seja completamente de deitar fora. &amp;Eacute; interessante saber
que Marx, que pregou o &amp;laquo;pre&amp;ccedil;o justo&amp;raquo;, nunca pagou &amp;agrave; sua empregada dom&amp;eacute;stica, ou
que nunca se preocupou com a sa&amp;uacute;de dos filhos. Mas o livro de Johnson est&amp;aacute; t&amp;atilde;o
impregnado de &amp;oacute;dio que &amp;eacute; dif&amp;iacute;cil perceber onde acaba o historiador e onde
come&amp;ccedil;a o ide&amp;oacute;logo. N&amp;atilde;o h&amp;aacute; qualquer distanciamento da parte do autor: quem l&amp;ecirc; &lt;em&gt;Intelectuais&lt;/em&gt; n&amp;atilde;o consegue descortinar
uma &amp;uacute;nica virtude em doze das mais importantes personalidades da vida
intelectual ocidental dos &amp;uacute;ltimos tr&amp;ecirc;s s&amp;eacute;culos. Por outro lado, encontra a
explora&amp;ccedil;&amp;atilde;o mesquinha de quaisquer aspectos que possam potencialmente ser vistos
como critic&amp;aacute;veis.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O maior pecado do livro &amp;eacute; precisamente o facto de revelar muito mais acerca
do autor do que sobre os personagens que supostamente caracteriza. Mais do que
uma obra biogr&amp;aacute;fica, &lt;em&gt;Intelectuais&lt;/em&gt; parece ser um gigantesco exerc&amp;iacute;cio de projec&amp;ccedil;&amp;atilde;o freudiana. N&amp;atilde;o havia
necessidade.&lt;a rel="nofollow" name="_GoBack"&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/k4PsuM7Z5kbTUne-nHtXyJx5Ff8/0/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/k4PsuM7Z5kbTUne-nHtXyJx5Ff8/0/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;br/&gt;
&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/k4PsuM7Z5kbTUne-nHtXyJx5Ff8/1/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/k4PsuM7Z5kbTUne-nHtXyJx5Ff8/1/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;</description>
         <author>Pedro Romano</author>
         <guid isPermaLink="false" />
         <pubDate>Mon, 03 Jan 2011 09:41:30 +0000</pubDate>
      </item>
      <item>
         <title>Crítica: Job, de Joseph Roth (2010)</title>
         <link>http://www.rascunho.net/critica.php?id=1788</link>
         <description>&lt;img src='http://www.rascunho.net/img/joseph_roth-jo.jpg'&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;A narrativa b&amp;iacute;blica n&amp;atilde;o &amp;eacute;, em &lt;em&gt;Job&lt;/em&gt;, de Joseph Roth, origem
&amp;oacute;bvia, nem serve de base para a cita&amp;ccedil;&amp;atilde;o, sequer para a par&amp;oacute;dia. &amp;Eacute; como um
tracejado leve, preenchido com motivos que superam, sem perder de vista, o que
pode ainda ser um ponto de partida. Mendel Singer n&amp;atilde;o &amp;eacute; um novo Job: &amp;eacute;,
contrariado, a sua releitura. O pr&amp;oacute;prio o dir&amp;aacute;, num trecho fort&amp;iacute;ssimo &amp;ndash; &amp;laquo;E que
pretendes tu com o exemplo de Job? Ter&amp;atilde;o por acaso j&amp;aacute; visto milagres
verdadeiros com os vossos pr&amp;oacute;prios olhos?&amp;raquo; (p.166)&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;Mendel far&amp;aacute; o seu caminho de outra forma, e pretende, a
certa altura, recusar o paralelo que a narrativa de Roth t&amp;atilde;o subtilmente
instaura como alternativa moderna aos padecimentos da figura b&amp;iacute;blica. Mendel
come&amp;ccedil;a j&amp;aacute; pobre: j&amp;aacute; est&amp;aacute; nu, ao contr&amp;aacute;rio de Job. O modesto mestre-escola &amp;ndash; &amp;laquo;Os
filhos de Mendel Singer n&amp;atilde;o t&amp;ecirc;m sorte. S&amp;atilde;o filhos de um professor!&amp;raquo; (p.97) &amp;ndash; j&amp;aacute;
tem o seu pec&amp;uacute;lio em nada, ou quase, antes de uma invis&amp;iacute;vel rede de
acontecimentos se abater sobre a sua j&amp;aacute; periclitante vida dom&amp;eacute;stica. Como na
Escritura, tamb&amp;eacute;m &amp;laquo;a sua seguran&amp;ccedil;a &amp;eacute; uma teia de aranha&amp;raquo;, e o seu apoio &amp;eacute; uma &amp;laquo;casa
que se desmorona&amp;raquo;. Doen&amp;ccedil;a mental do filho mais novo, dissolu&amp;ccedil;&amp;atilde;o da filha (e,
por fim, descida ao inferno da loucura), incorpora&amp;ccedil;&amp;atilde;o da restante prole, e sua
morte &amp;ndash; todos golpes que Mendel sofrer&amp;aacute; com aparente resigna&amp;ccedil;&amp;atilde;o &amp;ndash; &amp;laquo;Fomos
levados pelo vento como dois gr&amp;atilde;ozinhos de p&amp;oacute;. Apag&amp;aacute;mo-nos como duas pequenas
centelhas. Gerei filhos, o teu colo pariu-os, a morte levou-os. A tua vida foi
cheia de afli&amp;ccedil;&amp;atilde;o e sem sentido.&amp;raquo; (p.154) &amp;ndash;, mas com uma aceita&amp;ccedil;&amp;atilde;o que parece
mais simplicidade do que piedade, novo ponto de diverg&amp;ecirc;ncia com o Job b&amp;iacute;blico. A
lepra que o atingir&amp;aacute; ser&amp;aacute; outra, que se n&amp;atilde;o poder&amp;aacute; raspar e cobrir de cinza,
como a de Job &amp;ndash; ter&amp;aacute; de procurar, judeu errante, ant&amp;iacute;doto na Am&amp;eacute;rica, essa
incerta Nova Jerusal&amp;eacute;m que o derrubar&amp;aacute; &amp;agrave; chegada, mas trar&amp;aacute; o invi&amp;aacute;vel
refrig&amp;eacute;rio. Tamb&amp;eacute;m ele querer&amp;aacute; esquecer Iav&amp;eacute; &amp;ndash; &amp;laquo;&amp;ldquo;Quero queimar Deus.&amp;rdquo;&amp;raquo; (p.164)
&amp;ndash;, mas, num golpe impiedoso da narrativa de Roth, enreda-se n&amp;rsquo;Ele como num
novelo, como um limite que se n&amp;atilde;o pode dobrar &amp;ndash; &amp;laquo;do&amp;iacute;a-lhe n&amp;atilde;o rezar&amp;raquo; (p.173).&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;At&amp;eacute; que se cumpra a profecia do rabino &amp;ndash; &amp;laquo;&amp;ldquo;Menuchim, o filho
de Mendel, vai curar-se. Como ele haver&amp;aacute; poucos em Israel. A dor torn&amp;aacute;-lo-&amp;aacute;
s&amp;aacute;bio&amp;raquo; (p.20), andar&amp;aacute; andrajoso, perder&amp;aacute; a dignidade d&amp;uacute;bia do &amp;laquo;Mister&amp;raquo;, ser&amp;aacute;
apenas o Mendel da desconsidera&amp;ccedil;&amp;atilde;o alheia. O filho que, na sua &amp;laquo;tranquilidade
obtusa&amp;raquo; (p.105), fora arrastado, desprezado, &amp;laquo;como uma desgra&amp;ccedil;a&amp;raquo; (p.25),
tratado &amp;laquo;com terno e consciente desprezo&amp;raquo; (p.68), ser&amp;aacute; um compositor afamado, o
garante de uma velhice finalmente sossegada para Mendel, de quem, como Job, por
fim, poderia vir a dizer-se &amp;laquo;morreu velho e satisfeito com os dias vividos&amp;raquo; &amp;ndash; &amp;laquo;Ele
pr&amp;oacute;prio, Mendel Singer, ap&amp;oacute;s uma longa velhice, iria ao encontro de uma boa
morte, rodeado por muitos netos e &lt;em&gt;farto de dias&lt;/em&gt;, como est&amp;aacute; escrito no
livro de J&amp;oacute;.&amp;raquo; (p.213) Reconciliado, enfim, com o seu antecessor b&amp;iacute;blico,
&amp;laquo;Mendel adormeceu. E descansou do peso da felicidade e da grandeza dos
milagres&amp;raquo; (p.215).&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O
romance de Joseph Roth, recaptura o poderio estil&amp;iacute;stico e a virtualidade
po&amp;eacute;tica do texto b&amp;iacute;blico, reformulando-o, com not&amp;aacute;vel arte, em termos
romanescos &amp;ndash; do ponto de vista da constru&amp;ccedil;&amp;atilde;o e da composi&amp;ccedil;&amp;atilde;o das personagens &amp;ndash;
gerando, ao mesmo tempo, um not&amp;aacute;vel documento humano e hist&amp;oacute;rico.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/i3_0FvEp8HyDgTQ4ec8_SAFEUyo/0/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/i3_0FvEp8HyDgTQ4ec8_SAFEUyo/0/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;br/&gt;
&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/i3_0FvEp8HyDgTQ4ec8_SAFEUyo/1/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/i3_0FvEp8HyDgTQ4ec8_SAFEUyo/1/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;</description>
         <author>Hugo Pinto Santos</author>
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         <pubDate>Thu, 30 Dec 2010 18:50:23 +0000</pubDate>
      </item>
      <item>
         <title>Crítica: Carta a D. Luís sobre as Vantagens de Ser Assassinado, de Fialho de Almeida (2010)</title>
         <link>http://www.rascunho.net/critica.php?id=1786</link>
         <description>&lt;img src='http://www.rascunho.net/img/fialho-carta_a_d_luis_sobre_as_vantagens_de_ser_assassinado.jpg'&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&amp;laquo;Fialho&amp;raquo;,
dizia Costa Pimp&amp;atilde;o (que detidamente o estudou), &amp;eacute;, &amp;laquo;na ess&amp;ecirc;ncia, um espectador&amp;raquo;.
Mas o que em Ramalho era com&amp;eacute;dia, segundo o ensa&amp;iacute;sta, era farsa em Fialho que,
na sua obra, lutou por escalpelizar a &amp;laquo;deliquesc&amp;ecirc;ncia da vida p&amp;uacute;blica
portuguesa, deduzida, cientificamente, da decad&amp;ecirc;ncia da ra&amp;ccedil;a&amp;raquo;. N&amp;rsquo; &lt;em&gt;Os Gatos&lt;/em&gt; &amp;ndash; e j&amp;aacute; em &lt;em&gt;Pontos nos II&lt;/em&gt; e &lt;em&gt;Ant&amp;oacute;nio Maria&lt;/em&gt;, de Bordalo Pinheiro, com
o pseud&amp;oacute;nimo de Irkan &amp;ndash;, a escrita de Fialho mostra-se em todo o seu esplendor
de inventiva plasticidade, perpassada de uma acutil&amp;acirc;ncia amarga que n&amp;atilde;o raro
embotou a obra deste homem de letras torrencial como poucos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Foi
precisamente de &lt;em&gt;Os Gatos&lt;/em&gt; &amp;ndash; primeiro e terceiro cadernos, datados de
meados e fins de 1889 &amp;ndash; que se retirou a diatribe ep&amp;oacute;nima, a que se junta &amp;laquo;O
Seu Enterro&amp;raquo;. O republicanismo de Fialho (ainda mais pertinente em ano de
centen&amp;aacute;rio) foi aspecto marcante na sua produ&amp;ccedil;&amp;atilde;o escrita, em cujas p&amp;aacute;ginas a
realeza sofreu violentas cutiladas: D. Fernando II (esse &amp;laquo;gentil-homem teut&amp;atilde;o&amp;raquo;),
ou D. Carlos (&amp;laquo;muito mais d&amp;rsquo;Orle&amp;atilde;es que de Bragan&amp;ccedil;a&amp;raquo;), para nada dizer de D.
Lu&amp;iacute;s, de tal forma aqui varado de impreca&amp;ccedil;&amp;otilde;es &amp;ndash; &amp;laquo;E isto me pesa, senhor, que
possuindo V. Merc&amp;ecirc; todos os atributos de uma grande e ilustre rei, s&amp;oacute; de
bravura esteja mal servido&amp;raquo; (p.27).&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;No
primeiro destes dois folhetos, repletos da sua sulfurosa verrina, Fialho, em
not&amp;aacute;vel giro narrativo, evoca a tentativa de assassinato de D. Pedro II (tio de
D. Lu&amp;iacute;s), para avan&amp;ccedil;ar a ins&amp;oacute;lita sugest&amp;atilde;o de regic&amp;iacute;dio consentido. Gerado o
quadro, entre burlesco e sedicioso, Fialho chega mesmo a voluntariar-se como
abnegado perpetrador. Na segunda, a pena de Fialho comp&amp;otilde;e um quadro not&amp;aacute;vel, de
rigor e poder de evoca&amp;ccedil;&amp;atilde;o, do pr&amp;eacute;stito f&amp;uacute;nebre do monarca &amp;ndash; &amp;laquo;A chegada aos
Jer&amp;oacute;nimos &amp;eacute; l&amp;uacute;gubre. O rio resmunga: h&amp;aacute; nevoeiros que fecham o horizonte, e
envolvem numa gaze alvacenta, os lampi&amp;otilde;es; e cada vez mais o c&amp;eacute;u rebate sobre
os tectos, &lt;em&gt;ventre &amp;agrave; terre&lt;/em&gt;, o seu chuvisco fino e enregelado.&amp;raquo; (p.61). O
sat&amp;iacute;rico de Vilar de Frades, herdeiro pr&amp;oacute;digo de um naturalismo que via nas
patologias e desvios uma f&amp;oacute;rmula explicativa e a raiz de males presentes, leva
aqui a cabo uma aut&amp;oacute;psia impiedosa &amp;agrave; casa de Bragan&amp;ccedil;a (curiosamente, ou n&amp;atilde;o, Fialho
licenciara-se na Escola M&amp;eacute;dico-Cir&amp;uacute;rgica) &amp;ndash; &amp;laquo;dinastia de frustes que vai de D.
Jo&amp;atilde;o IV a D. Jo&amp;atilde;o VI&amp;raquo; (p.29).&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/kdZ-OsVqdkk7D3FSKJDXvGQ7OoI/0/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/kdZ-OsVqdkk7D3FSKJDXvGQ7OoI/0/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;br/&gt;
&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/kdZ-OsVqdkk7D3FSKJDXvGQ7OoI/1/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/kdZ-OsVqdkk7D3FSKJDXvGQ7OoI/1/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;</description>
         <author>Hugo Pinto Santos</author>
         <guid isPermaLink="false" />
         <pubDate>Wed, 29 Dec 2010 17:20:19 +0000</pubDate>
      </item>
      <item>
         <title>Marco Ferreri e Kôji Wakamatsu editados em caixas de DVD</title>
         <link>http://www.rascunho.net/artigo.php?id=3300</link>
         <description>&lt;img src='http://www.rascunho.net/img/marco_ferreri-dez10.jpg'&gt;&lt;br /&gt;A Clap Filmes prepara-se para levar vários títulos para o mercado a partir de Janeiro. Além de duas antologias, o catálogo será alargado com &lt;i&gt;Cópia Certificada&lt;/i&gt;, &lt;i&gt;Cela 211&lt;/i&gt;, &lt;i&gt;I'm Still Here&lt;/i&gt; e &lt;i&gt;Mistérios de Lisboa&lt;/i&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;O novo ano vai arrancar com mais t&amp;iacute;tulos nas prateleiras dos DVD. A Clap Filmes vai alargar o cat&amp;aacute;logo ao longo do primeiro trimestre com obras que estiveram recentementemente, ou que ainda est&amp;atilde;o, em cartaz, mas tamb&amp;eacute;m com duas antologias: uma do italiano Marco Ferreri; a outra do japon&amp;ecirc;s K&amp;ocirc;ji Wakamatsu. Cada caixa ter&amp;aacute; cinco filmes.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Na de Ferreri, v&amp;atilde;o poder encontrar-se &lt;em&gt;Dillinger Morreu&lt;/em&gt; (1969), &lt;em&gt;A Semente do Homem&lt;/em&gt; (1969), &lt;em&gt;N&amp;atilde;o Toques na Mulher Branca&lt;/em&gt; (1974), &lt;em&gt;O Ref&amp;uacute;gio das Crian&amp;ccedil;as&lt;/em&gt; (1979) e &lt;em&gt;Contos da Loucura Normal&lt;/em&gt; (1981). O realizador, desaparecido em 1997 a dois dias de fazer 69 anos, deixou vasta obra, de onde se destaca &lt;em&gt;A Grande Farra&lt;/em&gt; (1973).&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A caixa de K&amp;ocirc;ji Wakamatsu, &amp;laquo;o mestre do cinema er&amp;oacute;tico subversivo&amp;raquo;, inclui &lt;em&gt;Os Segredos Atr&amp;aacute;s das Paredes&lt;/em&gt; (1965), &lt;em&gt;O Embri&amp;atilde;o Ca&amp;ccedil;a em Segredo&lt;/em&gt; (1966), &lt;em&gt;Vai, Vai Virgem Pela Segunda Vez&lt;/em&gt; (1969), &lt;em&gt;Sex Jack &amp;ndash; Sistema Violado&lt;/em&gt; (1971) e &lt;em&gt;O &amp;Ecirc;xtase dos Anjos&lt;/em&gt; (1972). S&amp;atilde;o t&amp;iacute;tulos da muito produtiva primeira d&amp;eacute;cada de trabalho do japon&amp;ecirc;s (n. 1936), que se mant&amp;eacute;m no activo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;As edi&amp;ccedil;&amp;otilde;es estar&amp;atilde;o dispon&amp;iacute;veis j&amp;aacute; em Janeiro, tal como &lt;em&gt;C&amp;oacute;pia Certificada&lt;/em&gt;. O filme de Abbas Kiarostami, que esteve em competi&amp;ccedil;&amp;atilde;o em Cannes, ainda pode ser visto em sala. Seguem-se as edi&amp;ccedil;&amp;otilde;es, em Fevereiro, de mais dois t&amp;iacute;tulos que se encontram em cartaz: &lt;em&gt;Cela 211&lt;/em&gt;, de Daniel Monz&amp;oacute;n, que arrecadou oito pr&amp;eacute;mios Goya; e &lt;em&gt;I'm Still Here&lt;/em&gt;, de Casey Affleck.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;No mesmo m&amp;ecirc;s estar&amp;aacute; dispon&amp;iacute;vel &lt;em&gt;Tulpan&lt;/em&gt;, de Sergei Dvortsevoy, galardoado com o pr&amp;eacute;mio Un Certain Regard em Cannes. Em Mar&amp;ccedil;o, &amp;eacute; a vez do longo &lt;a rel="nofollow"&gt;&lt;em&gt;Mist&amp;eacute;rios de Lisboa&lt;/em&gt;&lt;/a&gt;, de Ra&amp;uacute;l Ruiz, j&amp;aacute; distinguido em San Sebasti&amp;aacute;n e S&amp;atilde;o Paulo, e de &lt;em&gt;Cosa Voglio di Pi&amp;uacute;&lt;/em&gt;. Este &amp;uacute;ltimo, de Silvio Soldini, esteve presente na gala especial da 60&amp;ordf; Berlinale.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;a rel="nofollow" target="_blank" href="http://www.clapfilmes.pt/"&gt;S&amp;iacute;tio Oficial&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a rel="nofollow" target="_blank" href='http://www.rascunho.net/artigo.php?id=3300'&gt;Artigo publicado em www.rascunho.net&lt;/a&gt;
&lt;p&gt;&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/EHyU4xbM_-3eJmLPIt_fyCclg-4/0/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/EHyU4xbM_-3eJmLPIt_fyCclg-4/0/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;br/&gt;
&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/EHyU4xbM_-3eJmLPIt_fyCclg-4/1/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/EHyU4xbM_-3eJmLPIt_fyCclg-4/1/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;</description>
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         <pubDate>Wed, 29 Dec 2010 15:11:29 +0000</pubDate>
      </item>
      <item>
         <title>Maria João dá frutos no Inverno</title>
         <link>http://www.rascunho.net/artigo.php?id=3299</link>
         <description>&lt;img src='http://www.rascunho.net/img/maria_joao-dez10.jpg'&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;Amoras e Framboesas&lt;/i&gt; chega ao público em Fevereiro. Maria João volta a apresentar-se sem Mário Laginha, depois de mais uma colaboração com o pianista ainda este ano. O lugar é ocupado pela Orquestra Jazz de Matosinhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Fevereiro &amp;eacute; o m&amp;ecirc;s escolhido para o lan&amp;ccedil;amento de mais um &amp;aacute;lbum a solo de Maria Jo&amp;atilde;o. &lt;em&gt;Amoras e Framboesas&lt;/em&gt; surge cerca de quatro anos ap&amp;oacute;s &lt;em&gt;Jo&amp;atilde;o&lt;/em&gt;. De fora fica o compagnon de route M&amp;aacute;rio Laginha, com quem a cantora costuma assinar os discos e com quem gravou, al&amp;eacute;m de com David Linx e Diederik Wissels, ainda em 2010, &lt;em&gt;Follow The Songlines&lt;/em&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A Orquestra Jazz de Matosinhos acompanha Maria Jo&amp;atilde;o neste registo, que foi gravado na sua maior parte nos Est&amp;uacute;dio Vale de Lobos por M&amp;aacute;rio Barreiros, com direc&amp;ccedil;&amp;atilde;o de Pedro Guedes. antes de chegar ao mercado, &lt;em&gt;Amoras e Framboesas&lt;/em&gt; viajou ainda at&amp;eacute; Nova Iorque, onde foi masterizado, no Sterling Sound Studio.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;em&gt;Fl&amp;ocirc;r&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;Torrente&lt;/em&gt; e &lt;em&gt;Beatriz&lt;/em&gt; s&amp;atilde;o alguns dos temas de refer&amp;ecirc;ncia de Maria Jo&amp;atilde;o que a cantora decidiu incluir no alinhamento. &lt;em&gt;Canto de Ossanha&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;Sklylark&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;L&amp;iacute;gia&lt;/em&gt; tamb&amp;eacute;m se encontram nesta &amp;laquo;ambiciosa mistura de sons e sabores&amp;raquo;, como se l&amp;ecirc; no comunicado da Universal, que edita o disco. Andr&amp;eacute; Fernandes, Jo&amp;atilde;o Farinha e Andr&amp;eacute; Nascimento s&amp;atilde;o m&amp;uacute;sicos convidados.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;a rel="nofollow" target="_blank" href="http://www.mariajoao.org/"&gt;S&amp;iacute;tio Oficial&lt;/a&gt; | &lt;a rel="nofollow" target="_blank" href="http://myspace.com/mariajoaograncha"&gt;MySpace&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a rel="nofollow" target="_blank" href='http://www.rascunho.net/artigo.php?id=3299'&gt;Artigo publicado em www.rascunho.net&lt;/a&gt;
&lt;p&gt;&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/IjLxb145VEH6xbNseWPENsmuFsQ/0/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/IjLxb145VEH6xbNseWPENsmuFsQ/0/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;br/&gt;
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         <pubDate>Tue, 28 Dec 2010 13:31:04 +0000</pubDate>
      </item>
      <item>
         <title>Crítica: A Primavera Há-de Chegar, Bandini, de John Fante (2010)</title>
         <link>http://www.rascunho.net/critica.php?id=1785</link>
         <description>&lt;img src='http://www.rascunho.net/img/john_fante-a_primavera_ha-de_chegar.jpg'&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Perdoem-me os erros, que nada representam ao p&amp;eacute; daquilo por que temos passado nos &amp;uacute;ltimos tempos. Terminei agora mesmo a leitura de A Primavera h&amp;aacute;-de chegar, Bandini. Dos livros de John Fante que li at&amp;eacute; hoje, este foi aquele que menos me cativou. O facto de a ac&amp;ccedil;&amp;atilde;o se passar em plena &amp;eacute;poca natal&amp;iacute;cia n&amp;atilde;o ajuda. Tenho com o Natal uma rela&amp;ccedil;&amp;atilde;o semelhante &amp;agrave; que cultivo com a pol&amp;iacute;tica, abstenho-me antes que d&amp;ecirc; em doido. Seja como for, trata-se de um Fante. H&amp;aacute; que dar o benef&amp;iacute;cio da d&amp;uacute;vida. Quem n&amp;atilde;o estiver familiarizado com o universo do autor norte-americano (nasceu em Denver no ano da gra&amp;ccedil;a de 1909), saiba que h&amp;aacute; nele um sentido de humor que se revela ainda muito incipiente neste primeiro tomo da saga conhecida como The Bandini Quartet: &lt;em&gt;Wait Until Spring, Bandini&lt;/em&gt; (1938), &lt;em&gt;The Road to Los Angeles&lt;/em&gt; (apenas publicado em 1985, apesar de ter sido o primeiro a ser escrito), &lt;em&gt;Ask the Dust&lt;/em&gt; (1939) e &lt;em&gt;Dreams from Bunker Hill&lt;/em&gt; (1982). Tamb&amp;eacute;m com tradu&amp;ccedil;&amp;atilde;o de Rui Pires Cabral, a Ahab tinha editado entre n&amp;oacute;s &lt;em&gt;Ask the Dust&lt;/em&gt; (&lt;a rel="nofollow"&gt;&lt;em&gt;Pergunta ao P&amp;oacute;&lt;/em&gt;&lt;/a&gt;, 2009). Reincide agora na hist&amp;oacute;ria de Arturo, alter-ego de John Fante, com &lt;em&gt;A Primavera H&amp;aacute;-de Chegar, Bandini&lt;/em&gt; (Setembro de 2010).&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;No centro das aten&amp;ccedil;&amp;otilde;es est&amp;aacute; uma fam&amp;iacute;lia, entre a qual se destaca o jovem Arturo, aqui com 14 anos. Os restantes s&amp;atilde;o o pai Svevo, a m&amp;atilde;e Maria e os dois irm&amp;atilde;os August e Federico. Com as ra&amp;iacute;zes na It&amp;aacute;lia, vivem em Rocklin, Colorado, as dificuldades da integra&amp;ccedil;&amp;atilde;o. S&amp;atilde;o pobres, deslocados, mas orgulhosos. O narrador n&amp;atilde;o poupa nas imagens que evidenciam essa pobreza. Ao primeiro par&amp;aacute;grafo fala-nos dos &amp;laquo;buracos nas solas das botas&amp;raquo; do pai de fam&amp;iacute;lia, um assentador de tijolos que gosta de beber o seu copo enquanto joga uma partida de p&amp;oacute;quer com os amigos italianos: &amp;laquo;Estava enregelado e tinha buracos nas solas das botas. Nessa mesma manh&amp;atilde; forrara as botas com peda&amp;ccedil;os de cart&amp;atilde;o de uma caixa de macarr&amp;atilde;o. O macarr&amp;atilde;o ainda n&amp;atilde;o fora pago. Ao forrar as botas, n&amp;atilde;o deixara de pensar nisso&amp;raquo; (p. 13). Os pormenores s&amp;atilde;o reveladores da prosa fria que nos espera. N&amp;atilde;o chega a John Fante dizer que as botas estavam rotas, &amp;eacute; preciso refor&amp;ccedil;ar a imagem da pobreza com uma caixa de macarr&amp;atilde;o que ainda n&amp;atilde;o tinha sido pago.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;J&amp;aacute; a religiosidade de Maria Bandini, uma dona de casa remo&amp;iacute;da pelo ci&amp;uacute;me, ocupada na educa&amp;ccedil;&amp;atilde;o dos tr&amp;ecirc;s filhos, &amp;eacute;-nos assim descrita: &amp;laquo;Maria n&amp;atilde;o precisava de livros nem revistas. Tinha o seu pr&amp;oacute;prio meio de evas&amp;atilde;o, o seu caminho privado para a satisfa&amp;ccedil;&amp;atilde;o: o ros&amp;aacute;rio&amp;raquo; (p. 65). Na voz do narrador ecoam os sentimentos do mais rebelde dos tr&amp;ecirc;s filhos: Arturo. Os complexos de integra&amp;ccedil;&amp;atilde;o perseguem-no. Preferia chamar-se John a Arturo, Jones a Bandini, preferia ser americano de gema, viver em Denver, preferia frequentar um liceu p&amp;uacute;blico a andar numa escola cat&amp;oacute;lica. Fala do pai tanto com admira&amp;ccedil;&amp;atilde;o como com desprezo, fala da m&amp;atilde;e com ternura e uma esp&amp;eacute;cie de repugn&amp;acirc;ncia amorda&amp;ccedil;ada. H&amp;aacute; ainda Donna Toscana, a m&amp;atilde;e de Maria, sogra de Svevo, com quem este n&amp;atilde;o pode nem &amp;agrave; dist&amp;acirc;ncia. Uma inesperada visita da av&amp;oacute; Donna, mulher de &amp;laquo;l&amp;iacute;ngua venenosa como uma v&amp;iacute;bora&amp;raquo;, espoletar&amp;aacute; o conflito familiar sobre o qual se ergue a narrativa. No entanto, o pilar &amp;eacute; fr&amp;aacute;gil.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Muito mais interessante que as desaven&amp;ccedil;as entre Svevo e Maria &amp;eacute; a forma como Arturo vai crescendo interiormente na rela&amp;ccedil;&amp;atilde;o frustrada que mant&amp;eacute;m com o que o rodeia. Os melhores momentos do romance saltam da consci&amp;ecirc;ncia de Arturo para a p&amp;aacute;gina. Desde logo a sua rela&amp;ccedil;&amp;atilde;o paradoxal com a religi&amp;atilde;o. Veia herdada da m&amp;atilde;e, a religi&amp;atilde;o &amp;eacute; no jovem Arturo uma amea&amp;ccedil;a incompreens&amp;iacute;vel, fonte de inquietas reflex&amp;otilde;es e temores disparatados. O Cap&amp;iacute;tulo Cinco &amp;eacute; todo um tratado sobre as d&amp;uacute;vidas religiosas que podem assolar um jovem da estirpe de Arturo Bandini: &amp;laquo;Arturo Bandini estava bastante certo de que n&amp;atilde;o iria para o Inferno depois de morrer. O Inferno era o destino daqueles que cometiam pecados mortais. Arturo sabia que tinha cometido muitos, mas a confiss&amp;atilde;o salvava-o. Acreditava que chegaria sempre a tempo &amp;agrave; confiss&amp;atilde;o &amp;#9472; ou seja, antes de morrer. E batia em madeira sempre que o assunto lhe acudia ao esp&amp;iacute;rito &amp;#9472; para garantir que chegaria sempre a tempo &amp;agrave; confiss&amp;atilde;o. Assim, Arturo estava bastante certo de que n&amp;atilde;o iria para o Inferno depois de morrer. Por duas raz&amp;otilde;es. Em primeiro lugar, a confiss&amp;atilde;o; em segundo lugar, o facto de ser bastante veloz&amp;raquo; (p. 93).&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Infelizmente, par&amp;aacute;grafos como o supracitado n&amp;atilde;o abundam neste romance. Ao crescimento de Arturo, Fante prefere explorar paralelamente a rela&amp;ccedil;&amp;atilde;o conflituosa entre Svevo e Maria. O Natal conflituoso, cheio de prova&amp;ccedil;&amp;otilde;es e aus&amp;ecirc;ncias, resvala ami&amp;uacute;de num sentimentalismo de que o pr&amp;oacute;prio narrador parece estar consciente. &amp;Eacute; como se n&amp;atilde;o houvesse alternativa. O que aqui est&amp;aacute; em causa &amp;eacute; a &amp;laquo;linguagem da vida&amp;raquo; (p. 176). A presen&amp;ccedil;a permanente da neve debaixo de solas rotas tinge o cen&amp;aacute;rio e adensa o elemento essencial da obra: a esperan&amp;ccedil;a. No fundo, &amp;eacute; disso que se trata quando falamos na Primavera por chegar. A esperan&amp;ccedil;a de que a fam&amp;iacute;lia retome o seu curso, o pai volte a ter trabalho, a m&amp;atilde;e volte a ser bonita, a amada ressuscite num qualquer recanto da mem&amp;oacute;ria, agora j&amp;aacute; n&amp;atilde;o sumida no gelo, mas erguida no meio de vastos campos verdejantes, em flor. A Primavera por que Arturo anseia &amp;eacute; um eco que ressoa sobre si pr&amp;oacute;prio a vanidade da exist&amp;ecirc;ncia. Para se manter vivo, &amp;eacute; preciso acreditar que a qualquer momento o Sol se ergue sob o gelo e transforma a neve em &amp;aacute;gua: elemento da vida. E a pergunta final s&amp;oacute; pode ser: que tipo de pecado &amp;eacute; a esperan&amp;ccedil;a?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/q4FN6st0Tc0OsU5Sz-g-VJLz3XQ/0/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/q4FN6st0Tc0OsU5Sz-g-VJLz3XQ/0/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;br/&gt;
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         <author>Henrique Fialho</author>
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         <pubDate>Mon, 27 Dec 2010 18:05:55 +0000</pubDate>
      </item>
      <item>
         <title>Disco Voador devolve Clã aos palcos</title>
         <link>http://www.rascunho.net/artigo.php?id=3298</link>
         <description>&lt;img src='http://www.rascunho.net/img/cla-disco_voador.jpg'&gt;&lt;br /&gt;O Estaleiro, projecto de formação cultural da mesma equipa que produz o Curtas Vila do Conde, arranca em Janeiro com um espectáculo inédito dos Clã. As novas canções foram escritas para crianças, mas são para todos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Os Cl&amp;atilde; voltam a pisar um palco a 14 de Janeiro, no Teatro
Municipal de Vila do Conde. V&amp;atilde;o apresentar &lt;em&gt;Disco
Voador&lt;/em&gt;, espect&amp;aacute;culo in&amp;eacute;dito composto para crian&amp;ccedil;as que repete no dia
seguinte, 15, no mesmo espa&amp;ccedil;o. A m&amp;uacute;sica de H&amp;eacute;lder Gon&amp;ccedil;alves &amp;eacute; acompanhada, de
novo, pelas letras de Regina Guimar&amp;atilde;es (a maioria) e de Carlos T&amp;ecirc; (duas).&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;laquo;A partir de um desafio &amp;ndash; construir um espect&amp;aacute;culo para
espectadores supernovos &amp;ndash; os Cl&amp;atilde; entenderam s&amp;oacute; fazia sentido serem ainda mais decididamente
fi&amp;eacute;is &amp;agrave; sua rota. Assim, a leitura que fizeram do desafio que lhes foi lan&amp;ccedil;ado
foi encararem esse espect&amp;aacute;culo como um laborat&amp;oacute;rio de cria&amp;ccedil;&amp;atilde;o&amp;raquo;, avan&amp;ccedil;a a
pr&amp;oacute;pria Regina Guimar&amp;atilde;es, em comunicado.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;A letrista explica que o que se pretendeu com este concerto
foi que &amp;laquo;as emo&amp;ccedil;&amp;otilde;es, os sentimentos, os pontos de vista, etc. dos supernovos
fossem matriz de can&amp;ccedil;&amp;otilde;es muito variadas em termos de tom e de respira&amp;ccedil;&amp;atilde;o&amp;raquo;. &amp;laquo;Seguros
de que nenhum humano mata totalmente a crian&amp;ccedil;a e o adolescente que mora dentro
de si, os Cl&amp;atilde; sabem que este &lt;em&gt;Disco Voador&lt;/em&gt; se destina descaradamente a todos os p&amp;uacute;blicos&amp;raquo;, sublinha.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;O espect&amp;aacute;culo &amp;eacute; um desafio do &lt;a rel="nofollow" target="_blank" href="http://estaleiro.curtas.pt/"&gt;Estaleiro&lt;/a&gt;, o projecto de
forma&amp;ccedil;&amp;atilde;o e programa&amp;ccedil;&amp;atilde;o cultural da mesma equipa que faz o Curtas Vila do Conde,
que arranca com 2011. O objectivo passa por, ao longo de 20 meses, promover 20
concertos e 20 ateliers, e produzir ainda duas dezenas de filmes. Os Cl&amp;atilde;, cujo &amp;uacute;ltimo
disco, &lt;em&gt;Cintura&lt;/em&gt;, &amp;eacute; de 2007, s&amp;atilde;o os
primeiros.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;a rel="nofollow" target="_blank" href="http://www.cla.pt/"&gt;S&amp;iacute;tio Oficial&lt;/a&gt; | &lt;a rel="nofollow" target="_blank" href="http://www.myspace.com/clamusic"&gt;MySpace&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a rel="nofollow" target="_blank" href='http://www.rascunho.net/artigo.php?id=3298'&gt;Artigo publicado em www.rascunho.net&lt;/a&gt;
&lt;p&gt;&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/2Ci76EvJuKyGv1mkz3cuNqoaPy8/0/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/2Ci76EvJuKyGv1mkz3cuNqoaPy8/0/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;br/&gt;
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         <pubDate>Thu, 23 Dec 2010 15:27:31 +0000</pubDate>
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