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	<title>Cracatoa Simplesmente Sumiu</title>
	
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	<description>Crônicas, contos e outras coisas de Alessandro Martins</description>
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		<title>Como desentupir o vaso com as mãos limpas</title>
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		<pubDate>Tue, 31 Jan 2012 08:34:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Alessandro Martins</dc:creator>
				<category><![CDATA[Textos]]></category>

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		<description><![CDATA[(Esta é uma obra de ficção. O site Cracatoa Simplesmente Sumiu, seus editores, webmasters ou outras pessoas a ele ligadas não se responsabilizam por nenhuma consequência advinda dos conselhos aqui publicados, seja no texto ou nos comentários. Sempre que tiver um problema hidráulico prefira a ajuda de um profissional) Bem. Deixemos a literatura um pouco [...]<p><br/><br/><a href="http://www.cracatoa.com.br/como-desentupir-o-vaso-com-as-maos-limpas/">Como desentupir o vaso com as mãos limpas</a></p>
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			<content:encoded><![CDATA[<div id=HOTWordsTxt name=HOTWordsTxt><p>(Esta é uma obra de ficção. O site Cracatoa Simplesmente Sumiu, seus editores, webmasters ou outras pessoas a ele ligadas não se responsabilizam por nenhuma consequência advinda dos conselhos aqui publicados, seja no texto ou nos comentários. Sempre que tiver um problema hidráulico prefira a ajuda de um profissional)</p>
<p>Bem. Deixemos a literatura um pouco de lado e vamos à utilidade pública. Vou abrir parênteses e revelar uma técnica secreta para desentupimento de privadas sem o uso daquele negócio de borracha de que, agora, não lembro o nome.</p>
<p>1 &#8211; Constate o <a href="http://comodesentupirvaso.com">entupimento</a>. Comumente ele é comprovado quando a água da descarga não desce e se acumula muito próxima às bordas do <a href="http://comodesentupirvaso.com">vaso sanitário</a>. Em casos mais graves, o conteúdo derrama. Nessas ocasiões assustadoras, fuja sem olhar para trás.</p>
<p>2 &#8211; Espere a água descer. Seja paciente. Se não descer, não recomendo o uso desta técnica. Chame um especialista.</p>
<p>3 &#8211; Puxe a descarga novamente e espere a água descer de novo. Repita o processo até que a água fique completamente limpa. Se a água não descer de jeito nenhum trata-se de um caso grave e é melhor chamar um encanador. Não se arrisque. Lembre-se: segurança e limpeza em primeiro lugar.</p>
<p>4 &#8211; Depois que a água esteja tão limpa quanto possível para um vaso sanitário e em um nível normal, isto é, pouco acima da, como chamam os especialistas, &#8220;garganta&#8221; da privada, dê sequência aos próximos passos.</p>
<p>5 &#8211; Levante a tampa e o assento. Atenção: para fazer isso você não precisa de um especialista. Muito embora muitos maridos levem suas mulheres a crer que sim.</p>
<p>6 &#8211; Sente-se sobre a louça de maneira que seus quadris se encaixem no &#8220;bocal&#8221; da privada, com as pernas bem fechadas. Os especialistas chamam esse momento de &#8220;fechar bem as pernas&#8221;. Faça suas orações.</p>
<p>7 &#8211; Escorregue um pouco para dentro do receptáculo, de forma a provocar um vácuo. Possivelmente você escute um som caracterÃ­stico. Nesse momento, pessoas pequenas devem evitar cair dentro do vaso sanitário. Se isso acontecer, elas precisarão chamar alguém com quadris mais generosos para tirá-las do troninho e para, em seguida, executar a operação eficientemente.</p>
<p>8 &#8211; Se os quadris do novo elemento também não forem largos o suficiente, ele deve apenas tirar o primeiro do enrosco pois, se tentar executar a manobra, certamente cairá também. Se os dois, de alguma forma, caírem simultaneamente na privada chame o especialista. Se o telefone estiver ao alcance, é claro. Chame um psiquiatra e um terapeuta ocupacional também. Eventualmente, os três novos elementos envolvidos podem ter bundas maiores e, nesse caso, ajudar.</p>
<p>9 &#8211; Devidamente encaixado na privada, sentindo o vácuo quase a lhe sugar as nádegas para o sorvedouro feito de fria louça, se prepare. Com o auxílio das mãos e das pernas levante-se abruptamente, provocando uma pressão negativa entre você e a água. Isso vai fazer com que qualquer objeto que esteja a obstruir o encanamento se desloque e, provavelmente, siga seu curso normal, ralo abaixo. Se quiser, observe orgulhoso e com sensação de alívio e dever cumprido a maneira como a água flui enquanto por diversas vezes você puxa a cordinha. Sim, cordinha.</p>
<p>10 &#8211; Aposente aquela ventosa de borracha horrível que enfeita seu banheiro.</p>
<p>Observação &#8211; É possível que, nessa manobra, algumas gotas de água lhe salpiquem a tez &#8211; aquela que nunca toma sol. Mas não faz mal. Afinal, é impossível que, com essa idade, esse tipo de acidente já não tenha acontecido com você.</p>
<p>Observação 2 &#8211; Não me pergunte se isso funciona. É claro que nunca executei tal técnica. E, caso eu venha a precisar, pretendo chamar um especialista.</p>
<p>Observação 3 &#8211; Negue sempre.</p>
<ul>
<li>
Mais técnicas para desentupimento de privada? <a href="http://comodesentupirvaso.com">Visite Como Desentupir Vaso</a>
</li>
</ul>
</div><p><br/><br/><a href="http://www.cracatoa.com.br/como-desentupir-o-vaso-com-as-maos-limpas/">Como desentupir o vaso com as mãos limpas</a></p>
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		<title>Meus dois centavos sobre sites de descontos</title>
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		<pubDate>Thu, 29 Sep 2011 15:05:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Alessandro Martins</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Um amigo montou um bar, certa vez, que acabou se tornando um estabelecimento de certo sucesso em Curitiba. No meio dessa trajetória, o lugar já estava mais ajeitado e não era mais apenas um balcão para se servir cerveja e um pote de amendoins para os conhecidos. Estava com uma boa decoração, boas mesas, boas [...]<p><br/><br/><a href="http://www.cracatoa.com.br/meus-dois-centavos-sobre-sites-de-descontos/">Meus dois centavos sobre sites de descontos</a></p>
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			<content:encoded><![CDATA[<div id=HOTWordsTxt name=HOTWordsTxt><p>Um amigo montou um bar, certa vez, que acabou se tornando um estabelecimento de certo sucesso em Curitiba.</p>
<p>No meio dessa trajetória, o lugar já estava mais ajeitado e não era mais apenas um balcão para se servir cerveja e um pote de amendoins para os conhecidos.</p>
<p>Estava com uma boa decoração, boas mesas, boas cadeiras, bom atendimento. Bom ambiente.</p>
<p>Uma tarde, num momento de pouco movimento, entrou um mendigo, que a essa altura já destoava do lugar. Trôpego, olhou para tudo, e com calma dirigiu-se ao balcão.</p>
<p>Pediu uma dose de cachaça. Meu amigo respondeu: é tanto.</p>
<p>- É caro, hein? &#8211; disse o mendigo, olhando para a cachaça, da mesma marca que ele pediria em um boteco qualquer provavelmente pela metade do preço.</p>
<p>Pensou um pouco.</p>
<p>- Mas vale o lugar.</p>
<p>Tirou as notas amassadas e moedas do bolso, que ele tinha juntado até aquele momento do dia, pagou, bebeu de um gole só e saiu.</p>
<p>Até um mendigo sabe que, se algo é caro ou se algo é barato, há motivos por trás disso.</p>
<p>Meus dois centavos sobre sites de descontos.</p>
</div><p><br/><br/><a href="http://www.cracatoa.com.br/meus-dois-centavos-sobre-sites-de-descontos/">Meus dois centavos sobre sites de descontos</a></p>
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		<title>Cracatoa destaca de 20.7.2011 a 13.9.2011</title>
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		<pubDate>Tue, 13 Sep 2011 22:00:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Alessandro Martins</dc:creator>
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		<description><![CDATA[A cara-de-pau &#233; a alma do neg&#243;cio &#8211; Dicas r&#225;pidas para fazer uma propaganda de sucesso (baseadas em exemplos coletados em r&#225;dios, TVs, jornais e revistas) RANDOM.ORG te manda para aquele lugar /via @psychopenguin &#8211; Servi&#231;o do Random.org que manda aleatoriamente para algum lugar do globo Defenda a liberdade na internet! /via @marcocarvalho &#8211; Na [...]<p><br/><br/><a href="http://www.cracatoa.com.br/cracatoa-destaca-de-20-7-2011-a-13-9-2011/">Cracatoa destaca de 20.7.2011 a 13.9.2011</a></p>
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			<content:encoded><![CDATA[<div id=HOTWordsTxt name=HOTWordsTxt><ul>
<li><a href="http://blogdosakamoto.uol.com.br/2011/09/13/a-cara-de-pau-e-a-alma-do-negocio/">A cara-de-pau &eacute; a alma do neg&oacute;cio</a> &#8211; Dicas r&aacute;pidas para fazer uma propaganda de sucesso (baseadas em exemplos coletados em r&aacute;dios, TVs, jornais e revistas)</li>
<li><a href="http://www.random.org/geographic-coordinates/">RANDOM.ORG te manda para aquele lugar /via @psychopenguin</a> &#8211; Servi&ccedil;o do Random.org que manda aleatoriamente para algum lugar do globo</li>
<li><a href="http://www.avaaz.org/po/save_brazils_internet/?twi">Defenda a liberdade na internet! /via @marcocarvalho</a> &#8211; Na semana que vem, o Congresso poder&aacute; votar um projeto de lei que restringiria radicalmente a liberdade da internet no Brasil, criminalizando atividades on-line cotidianas tais como compartilhar m&uacute;sicas e restringir pr&aacute;ticas essenciais para blogs. Temos apenas seis dias para barrar a vota&ccedil;&atilde;o.</li>
<li><a href="http://awurl.com/Hm4lsgsYd#first_awesome_highlight">E Curitiba continua sua voca&ccedil;&atilde;o para prov&iacute;ncia e col&ocirc;nia</a> &#8211; Depois de Batel Soho, n&atilde;o percam Juvev&ecirc; Village. Parece piada, mas &eacute; verdade</li>
<li><a href="http://sivers.org/horses">A minha f&aacute;bula favorita | Derek Sivers</a> &#8211; A f&aacute;bula favorita de Derek Sivers</li>
</ul>
</div><p><br/><br/><a href="http://www.cracatoa.com.br/cracatoa-destaca-de-20-7-2011-a-13-9-2011/">Cracatoa destaca de 20.7.2011 a 13.9.2011</a></p>
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		<title>Putas no Twitter</title>
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		<pubDate>Thu, 01 Sep 2011 22:56:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Alessandro Martins</dc:creator>
				<category><![CDATA[Textos]]></category>

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		<description><![CDATA[Fui convidado a participar de um post sobre garotas de programa no Twitter no site do YouPix. Minha resposta ficou muito longa e, por via das dúvidas, fiz uma versão menor para garantir. A versão menor foi a escolhida pela editora do artigo, mas eis aqui minha versão original: A internet e tudo o que [...]<p><br/><br/><a href="http://www.cracatoa.com.br/putas-no-twitter/">Putas no Twitter</a></p>
]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id=HOTWordsTxt name=HOTWordsTxt><p>Fui convidado a participar de <a href="http://youpix.com.br/comportamento/garotas-de-programa-no-twitter/">um post sobre garotas de programa no Twitter no site do YouPix</a>. Minha resposta ficou muito longa e, por via das dúvidas, fiz uma versão menor para garantir. A versão menor foi a escolhida pela editora do artigo, mas eis aqui minha versão original:</p>
<blockquote><p>A internet e tudo o que nela há é uma reprodução do mundo. E, se não do mundo, ao menos dos desejos do mundo. Talvez com a diferença de esse ambiente ainda ser, talvez, mais libertário, mais autogerido que nossas calçadas de concreto: embora as leis do mundo se apliquem a ele, creio que, na internet, ainda agimos dentro e fora delas mais por consciência que por medo de punição, respeitando-as ou violando-as de acordo com nosso julgamento ético (ou falta dele).</p>
<p>Assim, se desejo evitar encontrar uma pessoa, não é preciso abolir, por mágica, sua existência ou restringir sua liberdade. Basta que eu mesmo, livrevemente, mude o trajeto que faço de casa para o trabalho. Ou, no caso da internet, não a siga no Twitter.</p>
<p>Putas sempre existiram e, aparentemente, apesar de todos os esforços positivos daqueles que, com razão, veem nisso a exploração do sexo feminino, sempre existirão.</p>
<p>Por acaso, puta é palavra que se usa para aquelas pessoas que decidem vender seus favores sexuais por preços que, independentemente dos valores, sempre serão baixos. Porém, não inventaram uma palavra específica ou genérica para aqueles que decidem vender seu tempo, por um valor mais baixo ainda, para atividades com as quais não concordam totalmente ou que julgam erradas ou que, simplesmente, não tem um significado especial para sua vida. Diariamente, pessoas saem de suas garagens ou tomam o transporte coletivo para isso. De segunda a sexta.</p>
<p>Porém, se há a oferta de um produto e de um serviço é porque há a procura por ele de um lado e, em troca, a necessidade de um valor do outro, seja o dinheiro que as carteiras proporcionam, seja a atenção que o Twitter ou outra ferramenta dá: mas nem sempre a comida padronizada que se compra no mercado é o feijão com arroz, tão cheio de individualidade, que se prepara em casa.</p>
<p>O comércio mais selvagem sempre acaba sendo um truque de substituição: enlatados nunca serão alimento de verdade, mas servem para aplacar fomes urgentes. A publicidade sabe disso mais do que as putas, por exemplo, e tem mestria em convencer-nos de fomes, desejos, necessidades, ânsias que nem sabíamos que tínhamos.</p>
<p>As putas, no entanto, sempre foram tema e musas de algumas das mais belas obras artísticas, na literatura, na música, na pintura, teatro e cinema. No ambiente das putas, já se fez Cultura e História. E, ao mesmo tempo, algumas das melhores e mais nobres pessoas deste e de outros tempos já foram chamadas de putas ou de filhos delas. Sem sê-lo. O que, ao meu ver, só enobrece a palavra e a atividade.</p></blockquote>
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		<title>Desejo</title>
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		<pubDate>Tue, 23 Aug 2011 10:25:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Alessandro Martins</dc:creator>
				<category><![CDATA[Textos]]></category>

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		<description><![CDATA[Para Dea O desejo, diferente do que se pensa, não queima. Na verdade, inunda o ser, que enfim se afoga em bálsamo. Uma onda de lassidão toma o corpo e, seletiva contrai alguns músculos e descontrai outros. Acorda, assim, quem antes dormia e agora esfrega a pele nos lençóis. Embora a sensação seja ígnea, o [...]<p><br/><br/><a href="http://www.cracatoa.com.br/desejo2/">Desejo</a></p>
]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id=HOTWordsTxt name=HOTWordsTxt><p><em>Para Dea</em></p>
<p>O desejo, diferente do que se pensa, não queima. Na verdade, inunda o ser, que enfim se afoga em bálsamo. Uma onda de lassidão toma o corpo e, seletiva contrai alguns músculos e descontrai outros. Acorda, assim, quem antes dormia e agora esfrega a pele nos lençóis. Embora a sensação seja ígnea, o desejo é úmido, cálido e se apega à carne viva como um tempero que provoca espasmos. Desejo é sede de boca mordendo e de língua lambendo. Quem aumenta voluntariamente seu desejo alimenta-se de fome.</p>
<p>Mais evidente que a verdade, pois não há como negá-lo nem como, através de subterfúgios da lógica, encobri-lo. Urgente como uma dor &#8211; que não dói, mas suplica -, não há como ignorá-lo. Não há como evitá-lo e, para arrefecê-lo preciso é satisfazê-lo. E assim, com ele satisfeito, pode-se observá-lo &#8211; com o olhar do espanto e da volúpia &#8211; novamente a crescer ainda maior, ainda mais forte e avassalador.</p>
<p>Não é flor. É semente. E por vezes cai no solo em região desconhecida, em momento ignorado. Espera o melhor momento, seja o dia de chuva, a noite de sereno, a manhã de sol. Nem sempre o desejo é pra já. E sem que se perceba germina. E sem que se perceba dá tronco, folhas, cria raízes. E, então, é uma planta enorme que, ao tomar conta de tudo, grita por dentro e, por si mesma alimentada em sua própria ânsia, se expande. Menos satisfeita, mais cresce. Derruba paredes, levanta o telhado da casa e lá dentro, na cama, na sala, na cozinha, onde for, alguma pessoa finalmente se mostra nua, sem paredes, sem telhado. Desejar é saber-se sem roupa em meio a uma humanidade vestida.</p>
<p>Ter desejo dá vontade de partir para voltar em seguida pra que ele jamais se esgote. Mas ele nunca se esgota. Dá vontade de, ainda que ele esteja dentro da lama, enfiar-se nela até o pescoço e até mesmo mergulhar e, assim, achar a lama, aconchegante, morna. Camufla-se nessa lama, assume-se um personagem vagamente antropomórfico, disfarçado. Pernas, braços, tronco, cabeça são mera sugestão de corpos que viajam sem forma. E, neles, que se encontram juntos um do outro, só se vê o branco dos olhos. O branco dos olhos é o desejo que faísca no escuro.</p>
<p>O ser que deseja é identificável por uma certa agitação e um certo foco. Ao mesmo tempo em que ele age, algo lhe chama a atenção e o distrai. É o desejo, que o quer todo para si e carrega sua consciência, nos momentos mais inesperados, para onde ele quer. O desejo chupa os pensamentos de canudinho. Deixa só a carne e é o suficiente.</p>
<p>Mas muitas vezes, na maioria, o desejo, independentemente de pensamentos ou de carne, ele se basta.</p>
<p>Por isso, não quero saber de onde você vem, que língua fala, o som de sua voz, o que carrega em sua mala, qual o seu nome, sua comida preferida, que livros leu, que discos ouve ou que roupa usará. Não quero nada disso.</p>
<p>Venha trajada de seu desejo e eu a reconhecerei na multidão.</p>
</div><p><br/><br/><a href="http://www.cracatoa.com.br/desejo2/">Desejo</a></p>
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		<title>Como piratearam meu pau</title>
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		<comments>http://www.cracatoa.com.br/como-piratearam-meu-pau/#comments</comments>
		<pubDate>Fri, 19 Aug 2011 10:37:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Alessandro Martins</dc:creator>
				<category><![CDATA[Textos]]></category>

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		<description><![CDATA[Para meu grande amigo Thiago, que sempre quis ser personagem de um de meus textos Ele demora para atender, como sempre. - Thiago, preciso fazer uma escultura. - Claro&#8230; posso fazer pra você. Tenho amigos mui solícitos. O momento da dúvida, o favor prometido antes mesmo de sabido: - Er&#8230; que escultura? &#8211; pergunta ele. [...]<p><br/><br/><a href="http://www.cracatoa.com.br/como-piratearam-meu-pau/">Como piratearam meu pau</a></p>
]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id=HOTWordsTxt name=HOTWordsTxt><p align="right"><em>Para meu<br />
grande amigo Thiago,<br />
que sempre quis<br />
ser personagem<br />
de um de meus textos </em></p>
<p>Ele demora para atender, como sempre.</p>
<p>- Thiago, preciso fazer uma escultura.</p>
<p>- Claro&#8230; posso fazer pra você.</p>
<p>Tenho amigos mui solícitos.</p>
<p>O momento da dúvida, o favor prometido antes mesmo de sabido:</p>
<p>- Er&#8230; que escultura? &#8211; pergunta ele.</p>
<p>- É algo como uma escultura, não é bem isso&#8230; é&#8230; é de uma parte do meu corpo.</p>
<p>- Sei. Que parte?</p>
<p>- Eu digo quando chegar aí, ok?</p>
<p>- Péra. Diz agora!</p>
<p>- Tá. Ok&#8230; preciso de uma escultura do meu pau.</p>
<p>Silêncio do outro lado da linha.</p>
<p>- Do quê? Acho que não entendi direito&#8230;</p>
<p>- Do meu pau, Thiago&#8230; cara você é o único que conheço que entende dessas coisas. Só você pode me ajudar&#8230; e é o único de confiança que não vai espalhar essa história.</p>
<p>Era quase possível ouvir as engrenagens do cérebro de meu amigo engenhando todas as implicações daquela tarefa.</p>
<p>- Certo. Você está louco.</p>
<p>Não, eu não estava. Acho.</p>
<p>- Meu você sabe que eu vou ter que fazer um molde desse negócio.</p>
<p>Eu não lembrava desse detalhe.</p>
<p>Ele continuou a explicar. Basicamente ele teria que cobrir meu pau com um tipo de borracha &#8211; na verdade é um negócio chamado alginato, mas, ok vamos chamar de borracha -, que solidificaria em temperatura ambiente. Depois de seca, ela seria usada como negativo a fim de produzir uma ou mais cópias iguais ao original que tenho entre as duas pernas.</p>
<p>Porém, para fazer isso, primeiro eu teria que ficar de pau duro. E ele teria que, comigo nesse estado, passar a tal borracha líquida que, em temperatura ambiente, ficaria também dura.</p>
<p>A perspectiva de ter um homem passando um negócio no meu pinto &#8211; com uma espátula que fosse &#8211; não me animou.</p>
<p>- Não tem como fazer isso comigo anestesiado?</p>
<p>- Cara. Eu sou artista plástico. Não cirurgião. E, depois, se fosse possível quem preferiria ser anestesiado seria eu.</p>
<p>Tentei ser prático:</p>
<p>- Não tem como fazer como aqueles escultores antigos&#8230; Michelângelo? Eu fico ali na sua frente e você esculpe a coisa no mármore, com cinzel e martelo.</p>
<p>- Não vai ficar igual.</p>
<p>Os artistas modernos têm muitas dificuldades técnicas, pensei comigo. Mas não falei, para não magoá-lo nesse momento tão delicado.</p>
<p>Precisei explicar para ele. Dali a dois dias eu teria que fazer uma viagem de uma semana. Acontece que um mês antes eu comecei a sair com uma garota. Uma gostosa. Dessas de sair lágrimas dos olhos quando se olha pra ela. Emoção mesmo. Levei um tempo para levá-la para cama. Finalmente, tive sucesso. E sucesso não é apenas uma expressão. Ela ficou louca. Trepamos todo dia, pelo menos duas vezes.</p>
<p>Quando falei da viagem, distraidamente &#8211; enquanto observava o suor escorrer das paredes e os vidros embaçados da janela -, ela entrou em crise.</p>
<p>Disse que não iria aguentar. Que teria crises de abstinência. Que iria perder o emprego. Que teria que se aposentar por incapacidade. E que, muito pior, teria que dar para o primeiro que aparecesse na sua frente para me substituir.</p>
<p>Eu tentava acalmá-la, enquanto procurava eu mesmo me rearranjar daquela inesperada reação, quando a idéia surgiu. Eu deixaria uma cópia exata do meu pau para ela. Assim, eu poderia ligar-lhe toda noite e ela, com a cópia, meteria, digo, mataria a saudade.</p>
<p>E assim estava eu precisando da confidência de meu amigo escultor para tentar resolver o problema.</p>
<p>- Talvez não seja necessária a escultura &#8211; disse ele. &#8211; Se você quiser eu posso cuidar dela enquanto você viaja.</p>
<p>Claro que eu sabia o que isso poderia significar.</p>
<p>- Não, Thiago. Prefiro fazer um molde em chumbo derretido se for preciso.</p>
<p>Não era preciso.</p>
<p>- Está bem. Vou precisar que você compre o material.</p>
<p>Eu precisaria de 10 quilos da tal borracha &#8211; que lembrava aquele negócio que os dentistas usam para tirar o molde dos dentes -, obtida misturando uns produtos químicos.</p>
<p>- Dez quilos? Cara, tudo bem que eu fui um tanto privilegiado pela natureza, mas não é um pouquinho demais?</p>
<p>- Não. Eu tenho um plano para evitar qualquer contato físico com o modelo.</p>
<p>O ora modelo era meu pau.</p>
<p>Como ele não queria correr o risco de ser apanhado pela namorada nesse tipo de atividade, não fizemos o negócio na casa dele. Iríamos, naquele fim de semana à faculdade de artes, onde ele tinha acesso a um atelier que, naquele dia, estaria &#8211; supostamente &#8211; vazio. Além disso, muito do material que ele precisaria estaria ali.</p>
<p>Fui buscá-lo em casa.</p>
<p>Ele me estendeu duas pílulas.</p>
<p>- O que é isso?</p>
<p>- Viagra.</p>
<p>- Tá louco? Nunca precisei disso!</p>
<p>- Pois agora precisa. O negócio, na quantidade que vamos usar, demora para secar. Se você não ficar com esse pau duro por tempo o suficiente vamos perder o trabalho e o material todo.</p>
<p>- Mas duas?</p>
<p>- É pra garantir.</p>
<p>Tomei as duas pílulas.</p>
<p>No atelier ele montou todo o esquema. Colocou sobre dois cavaletes duas tábuas. Separadas, elas deixavam um vão entre elas. Pegou um balde, misturou os ingredientes nele e fez a mistura e colocou entre as duas tábuas.</p>
<p>- Agora preste atenção. Você tem pouco tempo, pois o material vai começar a se solidificar. Você vai fazer o seguinte. Quando ficar de pau duro, deite sobre as duas tábuas e coloque o seu pau no vão e enfie o pau no balde. A partir daí não se mexa e nem pense em ficar com o pau mole.</p>
<p>Comecei a baixar as calças.</p>
<p>- Espere aí &#8211; ele disse &#8211; não pense que eu vou ficar para ver isso. Já não basta que vou ter que ajudar você a tirar o balde para não perder o molde.</p>
<p>Ele saiu. Disse que ficaria vigiando a porta para evitar surpresas. Por mais que modelos nus fossem comuns na faculdade de artes, um sujeito com o pinto enfiado em um balde era um pouco demais para um sábado de sol.</p>
<p>Elevei meus pensamentos e com poucas balançadas, mesmo na situação pouco amistosa, consegui uma respeitável ereção graças aos dois comprimidos. Parecia mármore.</p>
<p>Deitei-me e acomodei o pinto na substância, que cedeu e o envolveu completamente.</p>
<p>Era geladinho.</p>
<p>Aliás era geladinho até demais.</p>
<p>Era menta. Eu devo ter comprado o tipo de negócio usado para dentistas.</p>
<p>Um adolescente, quando descobre a punheta, começa a inventar. Se você é do tipo aventureiro, deve saber a sensação de se passar pasta de dente no pau. Lavar é pior, pois a refrescância duradoura só aumenta. E o sorriso não é dos melhores.</p>
<p>Era aquilo que eu comecei a sentir.</p>
<p>Gritei de lá de dentro:</p>
<p>- Cara&#8230; demora?!</p>
<p>Ele colocou a cabeça para dentro, pela fresta da porta.</p>
<p>- Shhhh! Quer que alguém escute? &#8211; fez uma pausa &#8211; Putz. Eu esqueci a câmera fotográfica&#8230; &#8211; completou com um sorrisinho.</p>
<p>Certamente queria registrar o momento para a posteridade.</p>
<p>Explicou-me que iria demorar uma meia hora ainda, pela quantidade de produto usada. Apagou a luz da sala &#8211; para eu relaxar melhor &#8211; e voltou para seu posto de vigilância.</p>
<p>Continuei a elevar meu pensamento a fim de manter a ereção e evitar imaginar que meu pau era uma pastilha de halls preto gigante.</p>
<p>Estava até obtendo sucesso. Comecei a relaxar mesmo e a curtir aquilo, sentindo-me já quase em casa.</p>
<p>Foi quando, de olhos fechados, percebi que o Thiago entrou e acendeu a luz.</p>
<p>Eu comentei:</p>
<p>- Sabe cara, nunca pensei que um dia eu estaria numa faculdade de artes com o pau enfiado em um balde cheio de borracha sabor menta.</p>
<p>Silêncio. Estranho. Depois de um comentário desses meu amigo deveria falar alguma coisa ainda pior, como de costume.</p>
<p>Olhe para o lado e vi uma garota. Pelo que lembro, usava óculos. Tinha deixado cair uns papéis no chão e estava de boca aberta. Parecia em estado de choque. Buscava algum trabalho que havia esquecido ali na sexta-feira.</p>
<p>Atrás dela, apareceu o meu amigo. Tinha ido procurar uma câmera. Segurou o ombro da garota, com calma, e disse-lhe próximo ao ouvido em um tom um tanto desalentado.</p>
<p>- Nem pergunte.</p>
<p>Torci para que ela sofresse algum tipo de amnésia traumática para seu próprio bem.</p>
<p>Thiago entrou e fechou a porta atrás de si.</p>
<p>- Acho que está bom.</p>
<p>- Ufa. Não agüentava mais.</p>
<p>- Bem, vamos tirar esse negócio. Eu vou segurar o balde. Você agora precisa se levantar o mais próximo do&#8230; er&#8230; &#8220;ângulo de entrada&#8221; possível. E, devagar. Para não estragar o molde.</p>
<p>Fiz como instruído. Quando saiu, ouvimos um som oco, tipo &#8220;flop&#8221;, provocado pelo vácuo.</p>
<p>Vesti a calça e olhamos para o nosso trabalho. Aquele buraco era o meu pau no universo paralelo, a versão negativa dele, uma das partes mais importantes de mim como ela seria no mundo bizarro. Tinha cheiro de menta.</p>
<p>A partir disso ele poderia fazer diversas cópias do meu pau. Em gesso, em látex e disse, que se eu quisesse, com um pouco mais de trabalho, poderia fazer uma até mesmo em bronze. Eu respondi que deixaríamos o bronze apenas para os badalos dos sinos.</p>
<p>No fim, a coisa deu certo. Eu pude deixar uma cópia de meu pau com a gostosa e, pelo que vi, ela ficou bem feliz com o resultado. Meses depois, porém, terminamos. Mas isso não vem ao caso.</p>
<p>A surpresa mesmo veio depois de um ano.</p>
<p>Assistindo um filme pornô uma coisa chamou minha atenção. Uma das atrizes brincava com um pau de borracha que me pareceu muito familiar.</p>
<p>Se tem uma coisa que eu conheço é o MEU pau.</p>
<p>Aliás, conheço meu pau como a palma de minha mão. E os dois, palma e pau, se conhecem mutuamente, claro.</p>
<p>E era isso. A atriz estava com uma cópia do meu pau. Olhei na capa do DVD e a produção era tailandesa. Não me pergunte como eu fui alugar um filme pornô tailandês. Pergunte-me antes como foi que uma cópia de meu pau foi parar na Tailândia.</p>
<p>Dei uma pausa em um momento em que se podia ver a coisa de perto. Coloquei o pinto do lado da tela. Eram irmão gêmeos, de fato, inclusive as veias. Só que o outro era rosa-choque.</p>
<p>Liguei para o Thiago. Ele contou-me que depois de ter feito as cópias, esqueceu algumas por lá. Esqueceu o molde também. Óbvio que tudo sumiu.</p>
<p>Mais tarde descobrimos que a tal garota de óculos que nos flagrou havia começado recentemente a fazer um bico como balconista sex shop ali perto.</p>
<p>Foi fácil ligar os pontos. Mas de comum acordo preferimos nem reclamar nem tirar satisfações.</p>
<p>Nem imagino que intrincada cadeia de ações e reações levou a isso, mas de qualquer maneira, para a coisa ter chegado à Tailândia, hoje cópias de meu pau devem estar espalhadas por aí, pelo mundo inteiro.</p>
<p>Talvez sua namorada já tenha brincado com uma delas.</p>
</div><p><br/><br/><a href="http://www.cracatoa.com.br/como-piratearam-meu-pau/">Como piratearam meu pau</a></p>
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		<title>O dia em que encontrei o barbeiro de meu pai</title>
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		<comments>http://www.cracatoa.com.br/o-dia-em-que-encontrei-o-barbeiro-de-meu-pai/#comments</comments>
		<pubDate>Wed, 10 Aug 2011 20:06:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Alessandro Martins</dc:creator>
				<category><![CDATA[Textos]]></category>

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		<description><![CDATA[Poderia ser o médico, o contador, o dentista. Mas não. Era o barbeiro. - Opa! Só passeando, hein? Não reconheci na hora. O rosto era familiar. Pensei que era um jornalista. Alguém com quem tivesse trabalhado. - Opa! Tudo bem?! &#8211; eu disse, surpreso. Apertei firme a mão e sorri olhando nos olhos, tentando decifrar [...]<p><br/><br/><a href="http://www.cracatoa.com.br/o-dia-em-que-encontrei-o-barbeiro-de-meu-pai/">O dia em que encontrei o barbeiro de meu pai</a></p>
]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id=HOTWordsTxt name=HOTWordsTxt><p>Poderia ser o médico, o contador, o dentista.</p>
<p>Mas não. Era o barbeiro.</p>
<p>- Opa! Só passeando, hein?</p>
<p>Não reconheci na hora. O rosto era familiar. Pensei que era um jornalista. Alguém com quem tivesse trabalhado.</p>
<p>- Opa! Tudo bem?! &#8211; eu disse, surpreso.</p>
<p>Apertei firme a mão e sorri olhando nos olhos, tentando decifrar aquele enigma proposto por minha memória falha.</p>
<p>- Você não lembra de mim, né?</p>
<p>- Claro que lembro &#8211; agora eu estava certo disso -, você trabalhou comigo no jornal x.</p>
<p>- Não, não &#8211; ele riu &#8211; eu cortava o cabelo de seu pai.</p>
<p>Claro! Como eu pegava o ônibus perto da barbearia, associei a imagem dele a trabalho.</p>
<p>- Seu pai falava muito de você. Sempre acabávamos falando de você. Ele tinha o maior orgulho.</p>
<p>- Estou indo numa peça aqui perto. Tenho dois convites sobrando, aceite.</p>
<p>Ele pegou os convites, mas permaneceu no tema.</p>
<p>- Também perdi meu pai. Em 2003. Era ele, antes, quem cortava o cabelo do seu. Mas nunca vi um pai para ter orgulho do filho como ele. Precisava ver.</p>
<p>Poderia ser o médico, o contador, o dentista. Mas era o barbeiro. Algo tão cotidiano e de tal maneira inusitado, naquele momento e local, me fez pensar que era quase como uma mensagem vinda de não sei onde deixada por meu pai.</p>
<p>As pessoas vivas são bloquinhos de recado daquelas que partiram.</p>
<p>Obrigado por ter deixado esse, João Francisco. Também te amo.</p>
</div><p><br/><br/><a href="http://www.cracatoa.com.br/o-dia-em-que-encontrei-o-barbeiro-de-meu-pai/">O dia em que encontrei o barbeiro de meu pai</a></p>
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		<title>Swing: troca de casais</title>
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		<pubDate>Thu, 04 Aug 2011 10:23:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Alessandro Martins</dc:creator>
				<category><![CDATA[Textos]]></category>

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		<description><![CDATA[O homem dos óculos e do bigode O homem que senta ao meu lado tem óculos e bigode, como aquele do Poema de Sete Faces, de Carlos Drummond de Andrade. E, realmente, como no poema, é o tipo de pessoa que se encontra nos bondes, nos ônibus ou no supermercado, que vai trabalhar e que, [...]<p><br/><br/><a href="http://www.cracatoa.com.br/swing-troca-de-casais/">Swing: troca de casais</a></p>
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			<content:encoded><![CDATA[<div id=HOTWordsTxt name=HOTWordsTxt><p><strong>O homem dos óculos e do bigode</strong><br />
O homem que senta ao meu lado tem óculos e bigode, como aquele do Poema de Sete Faces, de Carlos Drummond de Andrade. E, realmente, como no poema, é o tipo de pessoa que se encontra nos bondes, nos ônibus ou no supermercado, que vai trabalhar e que, diariamente, volta cansado do seu trabalho, às vezes, com um pacote de compras.</p>
<p>A diferença é que a sua esposa, ao seu lado, nesse momento tateia os músculos de um outro homem. De um streaper. Enquanto ele, nosso amigo dos óculos e do bigode, olha fixo para um ponto à frente. Talvez porque tenha algum pudor de olhar para sua mulher &#8211; que, a essa altura, beija um musculoso abdômen e agarra, sem arrancar, a sunga do outro. Talvez porque, ajeitando um pouco os óculos, prefira observar o nu frontal de uma mulher que delira enquanto é afagada por outro streaper musculoso, deitada em um tapete colocado sobre o chão do salão em que cerca de 25 casais se reúnem. Uma mulher com quem esbarrou no ônibus ou no supermercado e nem deu por si. Mas a quem, agora, deseja.</p>
<p>O homem dos óculos e do bigode, que tinha poucos, raros amigos, no momento tem muitos. E com desejos similares aos seus. Estamos em um clube de swing. Um dos muitos que há em Curitiba, onde casais se encontram para trocar de par.<br />
<br />
<strong>As dificuldades iniciais</strong><br />
Na internet é fácil encontrar essas casas. Só no Paraná, através de sistemas de busca da rede mundial de computadores, sem dificuldade encontram-se pelo menos três ou quatro delas. Aparentemente, são fundadas por casais que, depois de muitas tentativas, percebem a dificuldade de encontrar pessoas com as mesmas preferências e, ao mesmo tempo, que façam sexo seguro, que não usem drogas e que sejam praticantes, acima de tudo, da polidez. Pelo menos, é isso o que pede a maioria dos anúncios em páginas especializadas da net.</p>
<p>Adonis e Léia &#8211; vamos chamar assim os donos dessa casa que fica em uma rua secundária do Portão, bairro residencial de Curitiba &#8211; aparentemente passaram por essa dificuldade quando eram iniciantes na prática do swing. Talvez por reconhecê-la tenham criado no clube que administram um serviço de acompanhamento para os neófitos. É como se eles estivessem em observação. Sentam em uma mesa especial, que permite ampla visão do salão, e as coisas acontecem de forma a não assustar, nem intimidá-los. Sem, no entanto, exclui-los. Na verdade, esse acompanhamento acontece desde a primeira ligação para o clube.</p>
<p><strong>Primeiros contatos</strong><br />
O endereço não é divulgado na home-page que o clube mantém na internet. Apenas o telefone. Do outro lado da linha, uma voz tranqüila de mulher &#8211; é Léia &#8211; me pergunta se eu já conheço ou se já freqüentei alguma casa com esse tipo de especialidade. É que, em geral, por casa de swing se entende um lugar onde, obrigatoriamente, acontecem as trocas de casais. Ela me explica que sua casa é um pouco diferente.</p>
<p>O casal não precisa seguir a fórmula, extraída talvez da teoria dos conjuntos, em que um elemento de um grupo corresponde exatamente a um elemento do outro grupo. Isto é &#8211; traduzindo para uma gramática menos matemática porém mais carnal &#8211; não é necessário que a mulher e o homem de um casal façam sexo com o homem e a mulher, respectivamente, de um outro casal. Na verdade, não precisam fazer necessariamente nada, como me explica simpaticamente Léia. &#8220;Às vezes, vir aqui e conversar com outras pessoas é o suficiente para deixar os dois satisfeitos&#8221;, diz. Como esse processo de satisfação virá &#8211; e sobre o caráter sexual ou não dele -, só cabe ao casal decidir. E a última palavra, segundo as regras da casa, é da mulher. Ponto positivo. Outras casas de swing chegam a passar uma imagem de que o homem usa sua esposa como moeda de troca.</p>
<p>Ela me explica outros detalhes do funcionamento do lugar e me avisa que devo fazer uma reserva se quiser conhecer a casa neste fim de semana. Antes de desligar, porém, sem que eu pergunte, ela faz questão de afirmar que o público do local é classe A e que não devo me preocupar com nada. Subitamente tive receios quanto ao traje que deveria usar e se minha voz ao telefone, até então, tinha sido um tanto adolescente. Engrosso um pouco a voz e digo que vou consultar minha namorada antes de fazer as reservas. O que faço no dia seguinte.</p>
<p><strong>Classe A</strong><br />
Novamente, esqueci de perguntar quanto ao traje. Talvez devesse usar terno. O que seria um erro. Eu pareceria um marciano. Hollywood e uma imaginação fértil tendem a fazer com que pensemos em lugares assim com um aura de glamour decorativo, um local cheio de brilhos e lustres de cristais. Quem assistiu De Olhos Bem Fechados, de Kubrick, entenderá.</p>
<p>O glamour consiste, na verdade, em se ter um local para satisfazer desejos que, de outra forma, seriam irrealizáveis. Isso é o luxo. Compreendi também, mais tarde, o que Léia quis dizer com classe A. O termo &#8211; tão desgastado e que costuma soar preconceituoso &#8211; não se refere nesse caso a posses monetárias ou a formação intelectual necessariamente. Trata-se um grupo de pessoas que se respeitam mutuamente. Um grupo que, apesar de isso não ser compreendido pela maior parte da sociedade, tem uma séria moral interna. Na verdade, um grupo que não tem necessidade de se vestir com brilhos para ser classe A.</p>
<p><strong>Os ambientes</strong><br />
O acesso é fácil apesar do local ser em uma rua secundária. A idéia é manter a discrição. O muro alto praticamente esconde a casa. O portão se abre e, a seguir, um manobrista leva o carro para um estacionamento com 150 vagas. Na portaria está Léia, belíssima e que talvez mentes menos imaginativas queiram descrever como um tipo mignon, muito longe de lhe fazer justiça. Ela recebe a mim e a minha namorada. Mostra-nos todos os aposentos. Ainda é cedo e há poucas pessoas.</p>
<p>Primeiro as suítes, para os casais que querem mais privacidade. Elas são as únicas instalações a que se é cobrado à parte. Custam R$ 30 a noite. A seguir, Léia apresenta-nos o salão. Nele, 70 casais podem dançar e a sua volta estão as mesas de onde podem ser vistos streap-teases masculinos e femininos e eventuais shows de sexo explícito.</p>
<p>Mais adiante estão os ambientes que são, nos termos usados na divulgação do clube, destinados à troca de carícias. A partir daquela porta é comum que as pessoas andem nuas sem o menor temor, mas não necessariamente. Léia explica que em algumas noites de maior movimento é comum que, mesmo na pista de dança, as pessoas fiquem nuas. &#8220;Não há como prever ou como controlar isso quando as coisas esquentam&#8221;, diz.</p>
<p>A mesa de sinuca que vemos à frente não é usada em jogos. Tampouco a sala com lareira, ao lado, se destina apenas a aquecer os pares nas noites mais frias. Logo mais, uma piscina e banheiras de hidromassagem, todas em reforma e que devem voltar à atividade durante o verão. Depois de um lance de escadas, encontramos algumas das maiores atrações da casa.</p>
<p>Uma cama com 25 metros quadrados. Léia garante que, no fim das noites mais agitadas, acontece ali tudo o que se puder imaginar. Em outro ambiente, uma espécie de aquário, aqueles casais que gostam de ser vistos podem ser observados sem o menor constrangimento por aqueles casais que gostam de ver. Para os que preferem aguçar a audição e o tato, uma sala escura &#8211; Léia a chama de dark room &#8211; proporciona uma sinfonia de gemidos, suspiros e uma infinidade de toques misteriosos.</p>
<p><strong>O preço</strong><br />
Tudo isso por R$ 40 para entrar e R$ 10 de consumação por casal. Uma noitada ali sai mais barato que um inocente passeio a uma dessas danceterias muito freqüentadas pelos filhos da nata curitibana, que eventualmente bebem um pouco além da conta e batem o Logus do pai. Nesses lugares, os jovens costumam pagar até R$ 10 de entrada além de R$ 15 de consumação, cada um para se acotovelarem mutuamente. Por baixo, uma noite das mais modestas acaba saindo por R$ 70, se considerarmos o casal e os preços astronômicos. Eu e minha namorada gastamos R$ 53. Nesse clube, na verdade, nem os preços das bebidas chegam a ser exorbitantes, porém não vi ninguém embriagado.</p>
<p><strong>O que pode, o que não pode</strong><br />
Ainda na penumbra do andar de cima do edifício, pergunto sobre o que se pode e o e o que não se pode fazer. &#8220;Em hipótese nenhuma, ao circular pelas áreas comuns, é permitido interromper a transa de alguém&#8221;, diz Léia. Fazer gracejos ou rir fora de propósito naquele setor também não é de bom tom. A idéia é o respeito pelo o que ali acontece.</p>
<p>No mais, basta usar o bom senso e a educação. Talvez &#8211; isso é uma conclusão minha &#8211; a intenção seja realmente afastar qualquer um que tivesse alguma tendência a não aceitar corpos que não sejam absolutamente perfeitos. Refiro-me a ratos e ratas de academia ou, se o leitor prefere, escravos da ditadura do corpo. Nessa casa, temos gordos, magros, jovens e velhos. Pessoas tão cotidianas quanto o homem de óculos e de bigode. E todos são aceitos sem exceção, tenham músculos definidos ou flácidos, tenham seios siliconados ou não.</p>
<p>Ela diz que o bissexualismo feminino é bem aceito. &#8220;Mas o masculino, se houver, deve acontecer nas suítes privativas&#8221;, diz Léia. &#8220;Há um certo preconceito, eu sei. Mas os clientes preferem assim.&#8221;</p>
<p>Léia nos leva para nossa mesa. É desnecessário descrever detalhadamente o salão. Basta dizer que é simples. Toca um Frank Sinatra. Depois Nat King Cole. Cachito, Cachito, Cachito mio&#8230; Alguns casais se animam a dançar quando entra um xote qualquer. Dançam até pudicamente comparando-se com os forrós, que ficaram tão populares na cidade, em que é comum os pares entrelaçarem suas coxas. Aos poucos, o salão fica mais cheio, apesar da chuva que caía do lado de fora.</p>
<p><strong>O garçom</strong><br />
Pedimos uma bebida ao garçom. Ele tem uns 25 anos. Talvez diga para sua mãe que trabalha em um bar qualquer. Essa senhora de cabelos brancos desconhece que, entre outras funções, esse rapaz é o encarregado de desenrolar dois tapetes, um de cada lado do salão, nos momentos que antecedem os streap-teases ou shows de sexo explícito. Depois de tudo, com uma dignidade de príncipe egípcio ele os recolhe.</p>
<p>O momento em que Adonis toma o microfone para dar alguns avisos aos presentes reforça uma certa impressão de que, não estivesse eu onde estava, tratava-se de uma festa de casamento, com tios, tias, primos e primas, ou de um clube familiar onde todos se conheciam, mas com pessoas que há muito eu não via e, por isso, não tinha muita intimidade.</p>
<p><strong>Brincadeiras</strong><br />
Uma das estratégias para aproximar os casais e entrosar os novatos com os outros são as brincadeiras. Ninguém é obrigado a participar, embora nenhuma delas tenha caráter sexual, explicitamente. Mas, em todas, a idéia é a troca de par. Como a dança com o chapéu. Os pares dançam enquanto um homem e uma mulher, ambos sem par, colocam o chapéu na cabeça de alguém. Imediatamente, assumem o seu par e a pessoa que recebeu o chapéu deve procurar uma outra vítima. Quem fica com o chapéu na mão quando o som acaba sai da brincadeira e assim por diante até que só reste um homem e uma mulher.</p>
<p>Outra é a tradicional dança das cadeiras que tanto vimos no matutino Show da Xuxa. A diferença é que o homem fica previamente sentado na cadeira, de maneira que as mulheres, ao cessar a música, sentem em seus colos. A que fica de pé sai da brincadeira, bem como seu acompanhante. A animação fica por conta de um mestre de cerimônia que também faz as vezes de juiz.</p>
<p><strong>Os shows</strong><br />
A estrutura dos acontecimentos é sempre a mesma. Depois de uma brincadeira, vem um show. Obedecendo as regras da casa, em que as mulheres têm suas vontades respeitadas com antecedência, primeiro veio o show para elas. Três sujeitos fortes dançam e tiram a roupa.</p>
<p>Mais tarde, é a vez dos homens, quando duas dançarinas fazem suas evoluções no centro da sala. Em ambos os casos, os streapers assediam o público. Se a pessoa não deseja esse tipo de contato físico, basta fazer um simples gesto com a mão e sua vontade será respeitada. Talvez por estarmos ali pela primeira vez, nem eu nem minha namorada fomos assediados. Sequer foi feita a menção disso.</p>
<p>De outra forma, os que preferem podem tocar e ser tocados. É comum que algumas pessoas do público, mais expansivas, sejam levadas ao meio do salão e permitam ser despidas para simular carinhos mais ousados sob a vigilância de seus pares. A essa altura, na verdade, enquanto assistimos aos shows, tudo pode estar acontecendo nas outras salas do ambiente. Minhas palavras poderiam soar vulgares e essa não é a intenção. Deixo a cargo da imaginação de cada um, portanto.</p>
<p><strong>A surpresa</strong><br />
Em certo momento, tudo pára. Alguém chama uma das mulheres presentes ao centro daquele espaço. É o aniversário dela. Todos cantam parabéns a amiga. E há uma surpresa. O seu marido providenciou para que cinco daqueles dançarinos ficassem a sua disposição. Eles se aproximam e a enlaçam. Nesse momento a luz se apaga. E isso dura cerca de um minuto. A luz acende e os dançarinos se afastam. Ela está visivelmente emocionada. Mas não é pelo contato com aqueles cinco faunos. É porque, nesse momento, ela descobriu que ele realmente a ama.</p>
<p>E não há como negar. Trata-se de um homem que fez com que outros cinco abraçassem sua esposa diante de si e de todos. Este homem voltou ao momento exato em que a espécie humana passou a confundir sexo e amor &#8211; conjunção possível, mas não necessária &#8211; e superou o que, em seu entendimento, poderia ser considerado um equívoco, aquilo que gera tantos relacionamentos baseados não em afeto, mas em posse. No momento em que ela está com aqueles cinco, há prazer, há até carinho, mas não há o amor de seu homem. A mulher, certa do que aconteceu, sente-se incapaz de traí-lo, pois não seria possível imaginar o que seria traição depois de tal presente. Pode-se dizer por seus olhos que não saiu daquele abraço como uma libertina, mas como um ser mais puro.<br />
Tanto ele como ela entenderam nesse momento que só poderiam trair a si mesmos ao deixar de se amarem sem, entretanto, admitir tal fato.<br />
<br />
<strong><em>(este texto foi publicado originalmente publicado no Jornal do Estado, em Curitiba, por volta de 2003)</em></strong></p>
</div><p><br/><br/><a href="http://www.cracatoa.com.br/swing-troca-de-casais/">Swing: troca de casais</a></p>
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		<title>Um resumo (bem livre) de Hamlet</title>
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		<pubDate>Tue, 02 Aug 2011 10:38:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Alessandro Martins</dc:creator>
				<category><![CDATA[Textos]]></category>
		<category><![CDATA[resumo hamlet]]></category>

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		<description><![CDATA[Fantasma &#8211; Toca horror, filho, que eles secaram minha quirera. Hamlet &#8211; Ih, pai! Acho que o senhor tá morto. Diacho, que fede mais que a Dinamarca inteira. Fantasma &#8211; De fato. Vingue-me. Hamlet &#8211; Xi, pirei! Não, não pirei! Pirei ou não pirei? Eis a questão. Tio de Hamlet &#8211; Pirou sobrinho? O que [...]<p><br/><br/><a href="http://www.cracatoa.com.br/um-resumo-bem-livre-de-hamlet/">Um resumo (bem livre) de Hamlet</a></p>
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			<content:encoded><![CDATA[<div id=HOTWordsTxt name=HOTWordsTxt><p><strong>Fantasma</strong> &#8211; Toca horror, filho, que eles secaram minha quirera.</p>
<p><strong>Hamlet</strong> &#8211; Ih, pai! Acho que o senhor tá morto. Diacho, que fede mais que a Dinamarca inteira.</p>
<p><strong>Fantasma</strong> &#8211; De fato. Vingue-me.</p>
<p><strong>Hamlet</strong> &#8211; Xi, pirei! Não, não pirei! Pirei ou não pirei? Eis a questão.</p>
<p><strong>Tio de Hamlet</strong> &#8211; Pirou sobrinho? O que estás a ler?</p>
<p><strong>Hamlet</strong> &#8211; Umas paradas aí, umas paradas aí, umas paradas aí.</p>
<p><strong>Tio de Hamlet </strong>- Olha, vamos mandá-lo para um passeio onde serás decapitado.</p>
<p><strong>Hamlet </strong>- Manda aqueles dois. No fim das contas enganarei a todos de qualquer forma. Poupemos o trabalho, portanto.</p>
<p><strong>Tio de Hamlet</strong> &#8211; Tens razão&#8230; tua mãe é uma gostosa mesmo, hein?</p>
<p><strong>Hamlet</strong> &#8211; De fato. Vou ter com ela.</p>
<p><em>(No quarto) </em><br />
<strong>Mãe de Hamlet</strong> &#8211; Oh!</p>
<p><strong>Hamlet</strong> &#8211; Vem cá, que és uma gostosa! Ei o que é isso atrás desta tapeçaria?! Toma lá! <em>(golpeando)</em> Ei, parece-me que matei um sujeito. Seria o Rei Ricardo?</p>
<p><em>(Nisso, Ofélia atravessa o quarto, pula pela janela e morre afogada no riacho lá embaixo) </em></p>
<p><strong>Hamlet</strong> &#8211; Quem é esse que passou? <em>(tirando um crânio do bolso)</em> Parecia Yoric, o bobo da corte, conheci-o muito bem&#8230;</p>
<p><strong>Tio de Hamlet</strong> &#8211; O filho do morto, irmão da morta, quer vingança. Toma esta espada.</p>
<p><strong>Hamlet </strong>- (Sacando uma serra elétrica) Que nada, vou decepar todo mundo. Inclusive você, tio! Pensa que eu não vi como ficaste chocado no capítulo de ontem quando descobriram quem matou Odete Roitmann?</p>
<p><strong>Mãe de Hamlet</strong> &#8211; Nem precisa matar ninguém, estamos todos envenenados. A maionese estava contaminada com salmonela.</p>
<p><strong>Tio do Hamlet</strong> &#8211; Bem notei que defecavas em excesso milady&#8230;.</p>
<p><strong>Hamlet</strong> &#8211; Há algo de podre no reino da Dinamarca.</p>
<p>(Morrem todos. Chega Fortimbrás montado em um cavalo de pau para conquistar a Dinamarca. Cobre o rosto com um lenço)</p>
<p><strong>Fortimbrás</strong> &#8211; Parece que perdi toda a ação&#8230;</p>
<p><strong>Horácio</strong> &#8211; <em>(Único a não comer a maionese, por não gostar de batatas. Também com um lenço a proteger o rosto)</em> E o resto é silêncio.</p>
<p><em>(Cai o pano ao som de um pum, daqueles fininhos e longos).</em></p>
</div><p><br/><br/><a href="http://www.cracatoa.com.br/um-resumo-bem-livre-de-hamlet/">Um resumo (bem livre) de Hamlet</a></p>
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		<title>Pôr-de-sol na estrada</title>
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		<pubDate>Tue, 02 Aug 2011 10:32:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Alessandro Martins</dc:creator>
				<category><![CDATA[Textos]]></category>

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		<description><![CDATA[Para Alicia, Marjorie, Karla, Ricardo, Júlio e todos os outros que em uma sexta-feira dessas estiveram comigo, no fim da tarde, voltados para o Oeste. Jamais esquecerei desses dias de bháva. Existem poucas coisas tão belas quanto um pôr-de-sol na estrada. Nessas horas, abra as janelas, a do motorista, a do passageiro, tantas quantas houver [...]<p><br/><br/><a href="http://www.cracatoa.com.br/por-de-sol-na-estrada/">Pôr-de-sol na estrada</a></p>
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			<content:encoded><![CDATA[<div id=HOTWordsTxt name=HOTWordsTxt><p><em>Para Alicia, Marjorie, Karla, Ricardo, Júlio e todos os outros que em uma sexta-feira dessas estiveram comigo, no fim da tarde, voltados para o Oeste. Jamais esquecerei desses dias de bháva.</em></p>
<p>Existem poucas coisas tão belas quanto um pôr-de-sol na estrada.</p>
<p>Nessas horas, abra as janelas, a do motorista, a do passageiro, tantas quantas houver no carro. Abra todas. Deixe que o vento entre e traga, como que da distante bola de fogo, o hálito da tarde.</p>
<p>Se eu fosse meu bisavô Eduardo, que diziam ser muito sábio, nessas horas &#8211; com o olhar voltado não para o sol, mas para as belíssimas nuvens rosadas &#8211; eu diria sussurrante que a brisa morna é um remédio, que cura o passado e nos alivia do peso do futuro, levando tudo para trás.</p>
<p>Com o olhar voltado para as nuvens: pois o sol é belo, mas o será ainda por milhões de anos. Muito mais tempo que a efêmera vida humana. A nuvem não. E ela lembra que, apesar de fugaz, nossa estada &#8211; se comparada à vida das estrelas, meros segundos &#8211; deve ser, também, bela.</p>
<p>Nesse momento, segure a mão da pessoa que estiver ao seu lado. Sinta que na pulsação dessa palma e dedos está ainda a primeira manifestação de quando sol, nuvem, árvores e tudo o mais que se vê em torno eram uma coisa só. Talvez ainda sejam.</p>
<p>Se for a mulher ou o homem amado, sinta ainda mais. Pois o primeiro beijo é fácil de lembrar, mas o último nunca se sabe quando será. As coisas mudam sempre e sempre mudam mais rápido do que estamos preparados para aceitar. Ainda assim, aceite. E entenda que essa mão, dessa mulher ou desse homem, esse vento e essa paisagem são as únicas coisas que possui nesse momento. Portanto, você nada possui. Nada, além desse instante. E ele já passou. Passou de novo.</p>
<p>Daqui a cem anos, quantos de nós estarão ainda vivos. Três? Dois? Nenhum? Diante disso, o maior dos problemas humanos se reduz a nada. A conta de telefone atrasada e a fome na Somália, a roupa nova e a salvação de muitos. Quanta pretensão, quanta mágoa e, até mesmo, quanta alegria e quanta sabedoria humanas, quantos desejos satisfeitos e insatisfeitos, desmantelados sob uma mísera dezena de décadas. Muitos de nós sequer serão lembrados depois disso.</p>
<p>No entanto, não pare o carro nem desista da vida, nunca. Continue, se necessário, apenas pelo prazer de saber onde tudo isso vai dar. Acredite, isso é mais do que suficiente para acelerar um pouco. Mas também serve de motivação para, talvez, reduzir a velocidade e aproveitar melhor a paisagem.</p>
<p>E, sim, pague a conta de telefone, logo que possível.</p>
<p>O vento que entra pelas janelas do carro, mesmo que você não perceba, ou não escute, ou não entenda, conta uma história a uma parte de seus ouvidos que nem você sabe qual é. E é a história de outros homens e mulheres que em outros tempos e em outros lugares dedicaram um instante de suas vidas para escutar a sutil movimentação do ar. Nessa hora, você é igual a todos eles. Nunca foi diferente. Essa narrativa invisível é mais redentora que qualquer sacrifício e tem a doçura da cantiga de ninar um dia ouvida no colo materno.</p>
<p>Quando o sol já tiver se posto, feche as janelas. Convém cuidar da saúde, diria meu bisavô Eduardo, mexendo em suas ervas.</p>
<p>Não esqueça de acender os faróis, diria também. E ele nem sabia dirigir.</p>
<p>(publicado originalmente em 27 de setembro de 2007)</p>
</div><p><br/><br/><a href="http://www.cracatoa.com.br/por-de-sol-na-estrada/">Pôr-de-sol na estrada</a></p>
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		<title>Aboliram a mulher pelada</title>
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		<pubDate>Tue, 26 Jul 2011 20:51:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Alessandro Martins</dc:creator>
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		<description><![CDATA[A mulher pelada, a partir de hoje, está abolida. Não que seja necessário abolir. Não sei se você reparou, mas faz tempo que não se vê mulher pelada por aí. Estou convencido de que mulher pelada é bicho em extinção. Todo mês, corremos, nós homens, às bancas atrás da última revista especializada. Na esperança de [...]<p><br/><br/><a href="http://www.cracatoa.com.br/aboliram-a-mulher-pelada/">Aboliram a mulher pelada</a></p>
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			<content:encoded><![CDATA[<div id=HOTWordsTxt name=HOTWordsTxt><div>
<div id="HOTWordsTxt">
<p>A <strong>mulher</strong> <strong>pelada</strong>, a partir de hoje, está abolida.</p>
<p>Não que seja necessário abolir. Não sei se você reparou, mas faz tempo que não se vê <strong>mulher</strong> <strong>pelada</strong> por aí.</p>
<p>Estou convencido de que <strong>mulher</strong> <strong>pelada</strong> é bicho em extinção. Todo mês, corremos, nós homens, às bancas atrás da última revista especializada.<img title="Mais..." src="http://www.ideafixa.com/wp-includes/js/tinymce/plugins/wordpress/img/trans.gif" alt="trans Aboliram a mulher pelada fotografia" /></p>
<p>Na esperança de que surja a <strong>mulher</strong> <strong>pelada</strong>.</p>
<p>A decepção é tão grande que nem sabemos com convicção suficiente que ficamos decepcionados. E fingimo-nos contentes.</p>
<p>É uma decepção muito íntima. Como a bolinha de gude favorita perdida no último campeonato antes das férias de verão. Nunca mais vista.</p>
<p>A <strong>mulher</strong> <strong>pelada</strong> também está perdida.</p>
<p>Todos nós sentimos isso ao folhear a revista, mas não conseguimos admitir.</p>
<p>A previsão é que, muito em breve, a página central não traga uma <strong>mulher</strong>, mas uma análise técnica da versão mais recente do mais turbinado software de manipulação de imagens.</p>
<p>A verdade é que as mulheres – e até os homens, até os homens – que se vê nas capas e nas páginas das revistas são irreais. Eles são, efetivamente, as análises técnicas do mais turbinado software de manipulação de imagens.</p>
<p>Metalinguagem, senhoras e senhores.</p>
<p>E corremos baixar as imagens da última suposta <strong>mulher</strong> <strong>pelada</strong>.</p>
<p>Ela não foi parida através da genitália de uma mãe. Foi trazida ao mundo pela cesariana da pós-produção fotográfica a alimentar nossas expectativas e a fermentar nossas decepções.</p>
<p>A publicidade pede mulheres de 20 para interpretar mulheres de 30. Basta ir para a tela e qualquer <strong>mulher</strong> envelhece 10 anos. Automagicamente.</p>
<p>Olhe para os anúncios de dia das mães com os olhos da realidade: sinceramente, você conhece tantas mães <strong>tão jovens</strong> com filhos <strong>tão crescidos e tão bem nutridos</strong>?</p>
<p>O bom é que fomenta a indústria de cosméticos. A indústria de regimes. A indústria da plástica e de cânulas para lipoaspiração.</p>
<p>E a indústria de softwares de manipulação de imagens.</p>
<p>A nudez é pura. A nudez verdadeira, digo, é pura. O que se vende hoje está além do alcance da pureza (diga-se de passagem: a pureza pode ser sacana).</p>
<p>Não se quer a nudez pura e simples. Quer-se a nudez, enfim, de alguém célebre por nada. A celebridade é brindada por seu vazio expondo um corpo que não é seu. Que não é de ninguém. Que não existe.</p>
<p>Ao ver, você pode julgar que seu olhar é puro e sacana. Mas é apenas um olhar enganado.</p>
<p>(por favor, não há nada absurdo nas celulites daquela atriz, garota propaganda de cerveja, então reveladas em um furo de reportagem; você sabia muito bem que as celulites estavam lá e, no fundo, desejava que elas aparecessem)</p>
<p>Senhores editores: parem de esconder as mulheres peladas.</p>
<p>Nós sabemos que elas estão aí em algum lugar.</p>
<p>Nós queremos mulheres peladas de verdade.</p>
<p>Mulheres em que as mulheres com quem vivemos – nas ruas, nas camas – se vejam como em um espelho. Para que sejam mais felizes.</p>
<p>Para que haja mais sexo de luzes acesas. Quem sabe até para que, no futuro, haja mais sexo à luz do dia, a céu aberto.</p>
<p>Para que eu me veja, como homem, mais confiante: posso estar com uma <strong>mulher</strong> assim. Não é um ET. Ou um produto da ficção. Ou mitologia.</p>
<p>É <em>apenas </em>uma <strong>mulher</strong> <strong>pelada</strong>. Uma <strong>mulher</strong> <strong>pelada</strong> de verdade.</p>
<p>Uma <strong>mulher</strong> <strong>pelada</strong>. É tão difícil isso?</p>
<p>As mulheres peladas dos pintores são mais reais, infinitamente mais reais, que as mulheres peladas das revistas.</p>
<p>Não são apenas frutos da imaginação, em suas cores e suas formas. Suas cores e formas singulares até podem corresponder a expectativas singulares.</p>
<p>Mas são expectativas atingíveis por homens e mulheres reais.</p>
<p>Outro dia escutei, no ônibus, um homem cutucando o vizinho, oferecendo lápis e papel e dizendo:</p>
<p>- Ei. Desenha pra mim uma <strong>mulher</strong> <strong>pelada</strong>?</p>
<p>E o outro, com uma franqueza melancólica:</p>
<p>- Não posso. Não sei.</p>
<p>Disse, por fim, que não lembrava como era uma.</p>
</div>
</div>
</div><p><br/><br/><a href="http://www.cracatoa.com.br/aboliram-a-mulher-pelada/">Aboliram a mulher pelada</a></p>
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		<title>Piadas manuscritas</title>
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		<pubDate>Sat, 23 Jul 2011 20:59:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Alessandro Martins</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Encontrei esta fotografia de Curitiba, do início da década de 70, em um antigo livro escolar, enquanto tomava meu café da tarde na Bibliopote (http://bibliopote.com). O destaque da imagem é o Hospital de Clínicas. Esse hospital é uma referência em transplantes de medula óssea, de fígado, além de ter um importante banco de ossos. Já [...]<p><br/><br/><a href="http://www.cracatoa.com.br/piadas-manuscritas/">Piadas manuscritas</a></p>
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			<content:encoded><![CDATA[<div id=HOTWordsTxt name=HOTWordsTxt><p><a href="http://www.cracatoa.com.br/wp-content/uploads/2011/07/FxCam_1310584304250.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-2399" title="FxCam_1310584304250" src="http://www.cracatoa.com.br/wp-content/uploads/2011/07/FxCam_1310584304250.jpg" alt="" width="288" height="288" /></a></p>
<p>Encontrei esta fotografia de Curitiba, do início da década de 70, em um antigo livro escolar, enquanto tomava meu café da tarde na Bibliopote (<a href="http://bibliopote.com/">http://bibliopote.com</a>). O destaque da imagem é o Hospital de Clínicas. Esse hospital é uma referência em transplantes de medula óssea, de fígado, além de ter um importante banco de ossos. Já trabalhei por três meses como voluntário nele, levando exames, bolsas de sangue e pacientes para lá e para cá em seus corredores infinitos. É uma verdadeira cidade onde centenas de milhasres de pessoas buscam esperança e cura todos os meses, todas as semanas e todos os dias. É comum que famílias doentes (quando uma pessoa adoece gravemente, a família inteira fica doente) venham morar nos apartamentos do prédio onde moro. Nesses dez anos em que estou aqui, acompanhei batalhas que se ganharam, batalhas que se perderam e batalhas ainda a lutar. A história mais triste que conheço é a do avô e da neta que viviam na porta da frente à minha. Certa vez a menina copiou algumas piadas (nem todas de salão) em diversos papéis sulfite, à mão, e saiu a vender, apertando as campainhas dos outros apartamentos. Não que precisasse de dinheiro, mas para passar o tempo. Havia semanas que ela ficava com o rosto todo inchado, sensibilizada pelo pesado tratamento do câncer. A pele descascando. Um dia, encontrei aquele senhor subindo a rua, cabisbaixo, e ao depará-lo ele apenas balançou a cabeça. Abracei-o e cheirava forte a suor antigo como se ele mesmo naquela noite tivesse lutado contra a morte. Ainda guardo o papel sulfite com as piadas que a menina me vendeu. Trata-se desses objetos mágicos que devemos guardar para lembrar que a vida não é tão longa quanto gostamos de imaginar.</p>
</div><p><br/><br/><a href="http://www.cracatoa.com.br/piadas-manuscritas/">Piadas manuscritas</a></p>
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		<title>Sedutor e seduzido, sagradas vocações</title>
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		<pubDate>Tue, 19 Jul 2011 20:53:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Alessandro Martins</dc:creator>
				<category><![CDATA[Textos]]></category>

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		<description><![CDATA[Tem esse papo de que antigamente o primeiro homem semi-nu que uma mulher via era Jesus Cristo pregado na cruz. Mesmo hoje, o nazareno morto no aparelho de tortura romano é uma das visões mais estimulantes que uma adolescente em iniciação erótica pode ter, na mistura que há nele de heroísmo, liderança e força, com [...]<p><br/><br/><a href="http://www.cracatoa.com.br/sedutor-e-seduzido-sagradas-vocacoes/">Sedutor e seduzido, sagradas vocações</a></p>
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			<content:encoded><![CDATA[<div id=HOTWordsTxt name=HOTWordsTxt><p>Tem esse papo de que antigamente o primeiro homem semi-nu que uma mulher via era Jesus Cristo pregado na cruz. Mesmo hoje, o nazareno morto no aparelho de tortura romano é uma das visões mais estimulantes que uma adolescente em iniciação erótica pode ter, na mistura que há nele de heroísmo, liderança e força, com desamparo, fragilidade e beleza viril. Não é preciso ser mulher para perceber que Jesus é muito, muito mais interessante, inteligente e carismático que qualquer galã de novela. É, assim, uma espécie de falo, dilatado nas paredes dos fundos das naves católicas. E é impossível competir assim de braços abertos. Uma mulher que escolhe desposá-lo dificilmente é dissuadida de seu intento. Talvez por isso exista tanta fantasia a respeito das freiras e noviças em geral.</p>
<p>Claro que eu também já tive uma freira em minha vida. Nós nos conhecemos na época em que ainda crianças vivíamos em Irati. Ela, na época, não queria ser freira nem eu queria saber dela para outra coisa que não fosse brincar de coisas inocentes.</p>
<p>Reencontrei-a mais tarde,  muito mais tarde, quando já nem lembrava de seu nome ou que ela tinha aqueles olhinhos azuis como brilhantes. Ela reconheceu-me na hora, no entanto. Eu tinha acabado de me mudar para um bairro mais central de Curitiba para um pequeno apartamento há algumas semanas. Convidei-a para tomar um café na minha casa depois que soube que trabalhava na igreja ali perto.</p>
<p>O que eu não soube naquele dia, mas soube meses mais tarde quando a reencontrei, foi que ela tinha essa deliciosa, saborosa, morna, apertada e lubrificada vocação eclesiástica.</p>
<p>E foi assim. Ficamos meses sem nos vermos depois desse rápido reencontro, mesmo eu ali vivendo e ela ali trabalhando, a poucas quadras um do outro. Quando a vi de volta na rua, trocamos emails. Ela achava graça quando eu falava mal dos padres e os chamava de nazistas. Sempre é engraçado chamar um padre de nazista, principalmente depois daquela história da igreja fazer olhos grossos durante a Segunda Guerra Mundial. Pois continua a fazer olhos grossos para muitas coisas hoje. Mas foi nessa época que ela me contou que pensava seriamente em tornar-se freira.</p>
<p>E a nossa correspondência continuou na exata seqüência que há da retomada da amizade até um convite para um almoço, do convite para um almoço para um passeio à noite. Um filme, depois um jantar, o que fosse.</p>
<p>Vigiada de perto pela mãe, cuidadosa a ponto de descuidar, precisava voltar cedo.</p>
<p>Fomos direto para sua casa. No portão, dentro do carro, um beijo recusadíssimo. Depois ela perguntou:</p>
<p>- Estou com cara de safada?</p>
<p>Eu disse que não. Que podia ir para dentro sem medo de ser descoberta por sua vida desregrada. Mas menti. Ela estava com cara de safada sim. Os olhinhos azuis brilhantes falavam pelo que a boca ocultava. Talvez só fosse coisa da minha cabeça.</p>
<p>Deixei-a. Ficamos mais um tempo sem nos vermos. Talvez ela pensasse que se ficasse um período sem me ver eu desistisse ou então me deixasse mais louco. Independentemente do que ela achasse, segui minha vida normal.</p>
<p>Na Páscoa, inesperadamente deu-me um ovo de chocolate dos grandes. A Páscoa: na Sexta-Feira da Paixão os fiéis vão beijar os pés da imagem do Cristo morto, deitado em uma mesa como Che Guevara.</p>
<p>Mais tarde, depois do período de tempo que distancia o vento que levanta o pó e a gravidade que o arrasta de volta para os móveis, voltamos com nossas correspondências. Um dia veio com uma história de andava tensa. Ofereci massagem. Com fins terapêuticos, fique claro, garanti que estava sem segundas intenções como garantem todos aqueles que as têm. Ficou claro que ela confiava em mim, pois ela aceitou na hora como aceitam aquelas que sabem dos que têm segundas intenções fingindo não tê-las e elas não sabê-las. De tal forma que ambos acreditávamos como seres puros que se tratava realmente de uma massagem, nada mais que isso.</p>
<p>Tudo acertado ou não, claro ou não, eu a pegaria então numa noite em que mataria aula do cursinho. Comprei um aquecedor pois fazia frio na época.</p>
<p>Ela comprou um óleo do Boticário. Visto que não se passa óleo sobre camisas, camisetas e coisas do gênero, ficou claro para mim que a massagem seria, por assim dizer, mais profissional. Pobre de mim que nunca fiz cursos dessas coisas.</p>
<p>Ao chegarmos ao apartamento trocamos algumas palavras e, sem demora, coloquei-a sobre o tapete. Pudica, tirou a camiseta de costas para mim e deitou-se. Eu, também pudico, ajoelhei-me do lado dela, derramei o óleo nas mãos e comecei a massagem. Fiz com gosto. Sei que a maior parte das coisas que se faz a outra pessoa com prazer é, em geral, recebida com prazer. E percebi que, por isso, ela descontraía.</p>
<p>Ela não tinha desafivelado o sutiã. Resolvi testar as fronteiras e eu mesmo o fiz. Ela não reagiu. Nem que sim nem que não. O que era bom. Não demorou eu estava montado sobre seus quadris para, naturalmente, fazer um esforço mais uniforme sobre a musculatura de suas costas. Funcionava. Sua descontração fazia ela soltar pequenos gemidos.</p>
<p>Coloquei mais óleo. As mãos começavam do cóccix e iam até o alto com os antebraços sempre tocando as costas. Ao final disso, afastava os braços, como se quisesse repartir os dois lados do seu dorso.</p>
<p>De surpresa, ela enfiou a mão por baixo dos quadris e abriu o botão da calça para que, assim, eu tivesse acesso mais amplo e começasse aquele movimento ainda mais de baixo. Eu, naquela altura, queria ver qual era o limite de meus avanços e, mesmo assim devagar, fui em frente.</p>
<p>Eu poderia ir além. Porém, para fingir que aquilo não me comovia, voltei a massagear como no começo, com as mãos deslizando do cóccix para os ombros. Desta vez porém, cada vez que ia para frente aproximava o rosto das costas e deixava que minha respiração tocasse seu pescoço e sua nuca.</p>
<p>Só então, na medida em que ela não resistia de jeito nenhum, tornei-me mais ousado. Passei a aproximar também mais o tronco e os quadris, reclinando-me sobre ela.</p>
<p>O próximo passo era maior. Eu mesmo teria que tirar a camisa. E era assim porque mesmo agora, ainda nada havia sido dito além de que aquilo seria uma simples massagem. E, a partir do momento que quem aplica a massagem começa a também tirar a roupa - não  há como negar - a coisa ganha um outro significado.</p>
<p>No entanto, joguei as cartas na mesa e fiquei eu também com o tronco nu. Agora, os pêlos de meu peito tocavam as suas costas cada vez que eu jogava meus braços à frente a lhe acariciar toda a pele. Meus lábios quase roçavam seu pescoço e era possível lhes sentir o calor e o hálito morno que escapava de propósito por entre os dentes.</p>
<p>Esta parte da história acaba aí. Não pretendo contar mais.</p>
<p>Estou certo de que às vezes é mais satisfatório deixar a imaginação em funcionamento que dissipá-la com as arestas da realidade. Que também é boa. Mas um texto, por sua vez, jamais a substitui.</p>
<p>De resto, direi que simplesmente a deixei em casa. Depois soltarmos o cinto de segurança, o que sempre significa um tempo a mais antes da despedida &#8211; desta vez sem beijo -, conversamos sobre muitas intimidades. A fiz confessar sobre sua vontade de ser comida por dois caras ao mesmo tempo. E disse-me isso com sincera volúpia e com essas palavras.</p>
<p>Também prometi que ainda faríamos isso e ela concordou sacanamente. Depois, ao fechar a porta, com o corpo debruçado e com a cabeça passando pela janela abaixada, perguntou:</p>
<p>- Estou com cara de safada?</p>
<p>Estava.</p>
<p>- Não, não está.</p>
<p>Hoje, quando a encontro na rua, com seu hábito de freira, olho para aqueles olhinhos azuis de profunda inocência e me deleito.</p>
<p>Para o verdadeiro sedutor, desnecessária é a concretização do ato, qual seja ele. Basta a concordância do seduzido.</p>
</div><p><br/><br/><a href="http://www.cracatoa.com.br/sedutor-e-seduzido-sagradas-vocacoes/">Sedutor e seduzido, sagradas vocações</a></p>
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		<title>Cracatoa destaca de 14.6.2011 a 18.7.2011</title>
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		<pubDate>Mon, 18 Jul 2011 23:01:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Alessandro Martins</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Post da MonkeyBusiness sobre o TEDxCuritiba &#8211; Uma das avalia&#231;&#245;es sobre o evento Gil Giardelli &#124; Um olhar sobre a humanidade 5.0 &#8211; Blog do Gil Giardelli, um cara que vale a pena acompanhar Moda e humor: Todo Dia Um Look &#8211; O Todo Dia Um Look &#233; um blog de moda atualizado quase todo [...]<p><br/><br/><a href="http://www.cracatoa.com.br/cracatoa-destaca-de-14-6-2011-a-18-7-2011/">Cracatoa destaca de 14.6.2011 a 18.7.2011</a></p>
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			<content:encoded><![CDATA[<div id=HOTWordsTxt name=HOTWordsTxt><ul>
<li><a href="http://www.monkeybusiness.com.br/blog/index.php/2011/07/18/monkeybusiness-no-tedxcuritiba/">Post da MonkeyBusiness sobre o TEDxCuritiba</a> &#8211; Uma das avalia&ccedil;&otilde;es sobre o evento</li>
<li><a href="http://www.gilgiardelli.com.br/blog/">Gil Giardelli | Um olhar sobre a humanidade 5.0</a> &#8211; Blog do Gil Giardelli, um cara que vale a pena acompanhar</li>
<li><a href="http://tododiaumlook.com/">Moda e humor: Todo Dia Um Look</a> &#8211; O Todo Dia Um Look &eacute; um blog de moda atualizado quase todo dia com looks, dicas e muito estilo (e humor)</li>
<li><a href="http://www.designboom.com/weblog/read.php?CATEGORY_PK=&amp;TOPIC_PK=2897">Um espelho de madeira</a> &#8211; Com ajuda de c&acirc;meras, pixels de madeira se ajustam para refletir tudo aquilo que fica &agrave; frente deles</li>
<li><a href="http://campanhabandalarga.org.br/?p=173">Sinais preocupantes: o PNBL em momento cr&iacute;tico Campanha Banda Larga</a> &#8211; Em suma, estamos diante de uma situa&ccedil;&atilde;o duplamente ruim: um pacote de bondades para as empresas de telecomunica&ccedil;&otilde;es combinada com a falta de um projeto estrat&eacute;gico de longo prazo por parte do governo. Neste contexto, a ideia de na&ccedil;&atilde;o conectada parece cada vez mais distante. Ela poderia se concretizar com recursos do or&ccedil;amento p&uacute;blico e do excedente dessas empresas, que operam mais de 5% do PIB brasileiro e t&ecirc;m lucros bilion&aacute;rios. Mas para isso n&atilde;o adiantam gambiarras e negocia&ccedil;&otilde;es no varejo</li>
</ul>
</div><p><br/><br/><a href="http://www.cracatoa.com.br/cracatoa-destaca-de-14-6-2011-a-18-7-2011/">Cracatoa destaca de 14.6.2011 a 18.7.2011</a></p>
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		<title>Minha mãe hoje sobre o Mossunguê e o Ecoville</title>
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		<pubDate>Thu, 14 Jul 2011 22:24:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Alessandro Martins</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Para você entender, basta saber que o Mossunguê é o nome original desse bairro curitibano. Há coisa de 10 anos ou mais, as imobiliárias passaram a chamá-lo de Ecoville, já que com a moda de ecologia diversos edifícios de luxo passaram a ser construídos por ali, perto das verdejantes savanas do Mossunguê, por entre os [...]<p><br/><br/><a href="http://www.cracatoa.com.br/minha-mae-hoje-sobre-o-mossungue-e-o-ecoville/">Minha mãe hoje sobre o Mossunguê e o Ecoville</a></p>
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			<content:encoded><![CDATA[<div id=HOTWordsTxt name=HOTWordsTxt><p><strong></strong>Para você entender, basta saber que o Mossunguê é o nome original desse bairro curitibano.</p>
<p>Há coisa de 10 anos ou mais, as imobiliárias passaram a chamá-lo de Ecoville, já que com a moda de ecologia diversos edifícios de luxo passaram a ser construídos por ali, perto das verdejantes savanas do Mossunguê, por entre os animais selvagens&#8230; macaquinhos, rinocerontes, araras e ursos-pandas (ATENÇÃO: ursos pandas não são ursos).</p>
<p>Na verdade, o Mossunguê sempre foi um bairro de periferia e, como tal, um bairro menos lembrado pela prefeitura e pela classe média-alta (todo curitibano é classe média-alta). Vamos evitar a palavra ESQUECIDO.</p>
<p>Acontece que as imobiliárias acharam aquele nome com pouco apelo comercial (eles não gostam do Mussum, talvez). E inventaram o nome Ecoville, que é Eco e Ville ao mesmo tempo.</p>
<p>Finalmente, disse minha mãe:</p>
<p>- Mossunguê é onde acontecem os crimes. Ecoville é onde acontecem os lançamentos imobiliários.</p>
<p>Como diria, o Kramer, aquele amigo do Seinfeld: LEVELS.</p>
</div><p><br/><br/><a href="http://www.cracatoa.com.br/minha-mae-hoje-sobre-o-mossungue-e-o-ecoville/">Minha mãe hoje sobre o Mossunguê e o Ecoville</a></p>
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		<title>Desculpe por não ter despertado a sua curiosidade com este título</title>
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		<comments>http://www.cracatoa.com.br/desculpe-por-nao-ter-despertado-sua-curiosidade-com-este-titulo/#comments</comments>
		<pubDate>Thu, 07 Jul 2011 15:10:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Alessandro Martins</dc:creator>
				<category><![CDATA[Textos]]></category>

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		<description><![CDATA[Desculpe por não ter despertado sua curiosidade e entusiasmo já nas três primeiras palavras deste texto. Explicarei porque esse pedido de desculpas é necessário. Creio que, pelo andar da carruagem (carruagem o cacete; carruagem é muito devagar)&#8230; pelo andar da carruagem se um texto não mostra a que veio nas três primeiras palavras corre o [...]<p><br/><br/><a href="http://www.cracatoa.com.br/desculpe-por-nao-ter-despertado-sua-curiosidade-com-este-titulo/">Desculpe por não ter despertado a sua curiosidade com este título</a></p>
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			<content:encoded><![CDATA[<div id=HOTWordsTxt name=HOTWordsTxt><p>Desculpe por não ter despertado sua curiosidade e entusiasmo já nas três primeiras palavras deste texto.</p>
<p>Explicarei porque esse pedido de desculpas é necessário.</p>
<p>Creio que, pelo andar da carruagem (carruagem o cacete; carruagem é muito devagar)&#8230; pelo andar da carruagem se um texto não mostra a que veio nas três primeiras palavras corre o risco de ser apedrejado.</p>
<p>Estamos na cultura do pra já, do pra ontem, do para o século passado.</p>
<p>Tudo já nasce #old.</p>
<p>Participei de um evento recentemente e pude acompanhar os tweets da plateia.</p>
<p>Em um minuto de participação, aparece um tweet: &#8220;Esse debate está muito devagar. Próooooximo!&#8221;</p>
<p>Ou algo assim.</p>
<p>Um minuto. Sessenta segundos.</p>
<p>Ao que aquela frase foi retweetada e propagada generosamente.</p>
<p>E era curioso olhar para aquelas pessoas todas civilizadamente sentadas como estátuas gregas numa espécie de vaia silenciosa ecoando antes mesmo dos cantores emitirem o primeiro compasso completo.</p>
<p>Como zumbis, a alisar seus ipads e ipods com a ponta do dedo, como quem acaricia um espelho, a refletir e a confirmar suas próprias opiniões, seu mundo fechado, seu umbigo e seu cu, esperando que um site, uma rede social, um gif animado, um vídeo viral, um hype, uma trollada, um trending topic dê significado a suas vidas.</p>
<p>Confesso que aquilo me deixou imediatamente atordoado.</p>
<p>Parece que o tédio das pessoas chegou a um ponto que, se o mundo não cuidar de entretê-las imediatamente, o seu patamar de frustração chega a um nível que elas começam a chorar como bebês. Como bebês que não estão acostumados a ouvir um não. Se eu tiver que ficar na fila de amanhã para comprar aquela bugiganga que tem lançamento mundial hoje eu choro e esperneio.</p>
<p>Negar a realidade é besteira. E se as coisas, hoje, são assim, que sejam.</p>
<p>Apenas me reservo o direito de dizer que, ainda que assim sejam as coisas hoje, elas não são nada boas. A uma infinidade de coisas na vida que pedem tempo de maturação. Relacionamentos, por exemplo. Fico imaginando que o futuro dos relacionamentos vai ser algo assim: primeiro beijo e, um minuto depois, se a coisa não engrenou&#8230; #old. Próximo.</p>
<p>Pode ser que seja assim que tudo acontece hoje, mas certamente não é assim que a maioria das coisas funciona.</p>
<p>Se atingimos um nível de civilidade aparente, uma espécie de verniz que recobre os <a href="http://queroterumblog.com/ainda-somos-homens-da-caverna/">bárbaros ou homens da caverna que ainda somos</a>, ainda falta muito para chegarmos a um ponto de desenvolvimento aceitável.</p>
<p>Talvez estejamos indo para o lado contrário.</p>
</div><p><br/><br/><a href="http://www.cracatoa.com.br/desculpe-por-nao-ter-despertado-sua-curiosidade-com-este-titulo/">Desculpe por não ter despertado a sua curiosidade com este título</a></p>
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		<title>Pornográfico</title>
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		<pubDate>Mon, 04 Jul 2011 08:19:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Alessandro Martins</dc:creator>
				<category><![CDATA[Textos]]></category>
		<category><![CDATA[filmes porno]]></category>
		<category><![CDATA[pornô]]></category>

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		<description><![CDATA[Como a fita não estava rebobinada, a primeira coisa que vi foi uma língua passeando por um tipo de pele que meus olhos nunca antes conheceram de tão perto, nem de longe, creio. Tão detalhadamente, surpreendeu-me aquela consistência macia do diálogo entre as mucosas rosadas. Sexo oral era duas plantas de carne que se movimentavam [...]<p><br/><br/><a href="http://www.cracatoa.com.br/pornografico/">Pornográfico</a></p>
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			<content:encoded><![CDATA[<div id=HOTWordsTxt name=HOTWordsTxt><p>Como a fita não estava rebobinada, a primeira coisa que vi foi uma língua passeando por um tipo de pele que meus olhos nunca antes conheceram de tão perto, nem de longe, creio. Tão detalhadamente, surpreendeu-me aquela consistência macia do diálogo entre as mucosas rosadas. Sexo oral era duas plantas de carne que se movimentavam como se estivessem sob a água. A partir dos doze anos, quando assisti ao filme, embutida na vontade de conhecer o que seria minha boca entre as pernas de uma mulher, veio a vocação inequívoca e irrealizada para ser diretor de filmes de sexo explícito.</p>
<p>Uma das coisas que aprendi desde então é que indecente é a cara. Na verdade, trata-se de uma observação atribuída a Nelson Rodrigues. Mas, de fato, a vulgaridade maquiadíssima das atrizes constitui o que de mais fino há nos filmes pornográficos. Aqueles que privilegiam closes genitais resultam ritmicamente monótonos. Evidente a possibilidade de se usar apenas closes faciais. Resultados mais lascivos seriam facilmente obtidos.</p>
<p>Soube de um fotógrafo que a partir desses filmes produzia imagens de mulheres santas. Nos segundos do orgasmo, fingido ou não, ele registrava o momento em sua câmara. Separava apenas a face da madalena e, através de alguns truques fotográficos, transformava a devassidão em beatitude. Documentava, assim, a existência de uma tênue linha entre o êxtase religioso e o sexual. Ainda que um se atinja ao se exacerbar a sexualidade e outro ao retraí-la, difícil olhar para as imagens nas catedrais da mesma forma.</p>
<p>Mas isso foi depois. Nos tempos da catequese, as freirinhas ainda não faziam parte de meus segredos.</p>
<p>Filmes pornográficos costumam ser facilmente repudiados. Muitos são os argumentos, dos moralistas aos sociais. Transformam o sexo feminino em objeto, banalizam a sexualidade, fazem uma caricatura de algo que em uma mente mais romântica deveria ser exclusivamente poético.</p>
<p><strong>Um sofisma</strong><br />
Vamos encarar as coisas da seguinte maneira. Nas artes cênicas existe o naturalismo, que procura, como sugere o nome, reproduzir o real com o máximo de naturalidade. Mas também existe, por exemplo, a Commedia dell&#8217;Arte, que se afasta da naturalidade para expressar o real de uma outra maneira. As duas formas de atuar têm a possibilidade de provocar reações diversas nos espectadores. Mas não quer dizer que os que preferiram a Commedia dell&#8217;Arte saiam por aí com máscaras, a imitar os salamaleques de Arlequino e Pantaleão, dois dos personagens mais recorrentes do gênero celebrizado por Goldoni. E, cá entre nós, nada mais explícito que aqueles narizes horrendos.</p>
<p><strong>Admito, não convenci</strong><br />
Mas, finalmente, o repúdio. Nada a dizer aos que já estiverem a condenar-me com o abanar da cabeça. Somente que já vi curiosidades científicas a respeito do tema convertidas em entusiasmo lúbrico logo nas primeiras cenas.</p>
<p>Olhem só. Um cidadão que lê Drummond, Fernando Sabino e, sinceramente, se emociona, e que se deleita com a poesia dos romances de José Saramago, acha a voz de Chet Baker o máximo e Noite Transfigurada a mais bela música de todos os tempos, tem direito a ver um pornozinho de vez em quando, acompanhado ou não.</p>
<p>Mas, se ainda assim quiserem me condenar, ao menos dividam meu ônus com a Xuxa, os seus xortinhos apertados, suas botinhas lascivas e suas paquitas sorridentes.</p>
<p><strong>Uma história</strong><br />
Aos 17 anos fui a um cinema pornô na Praça Rui Barbosa, destes em que sentar em qualquer das poltronas é um gesto arriscado. Como em todo cinema pornô, claro. Para os que não tiveram a pitoresca oportunidade de visitar este tipo de lugar, hoje em extinção, descrevo. As sessões eram corridas, isto é, dois filmes intercalavam-se sem intervalos a partir do meio-dia. A sala, portanto, sempre escura, era o lugar ideal para prostitutas e michês em seus encontros nada pudicos de ocasião. Lugares como esse devem ter sido a motivação para o inventor do vídeo-cassete e a posterior migração dos filmes de sexo explícito da grande tela para os quartos das casas de família.</p>
<p>Se eu pudesse hoje advertir aquele jovem de 17 anos, diria a ele para que não fosse ao banheiro. No entanto, não o fiz, pois não estava lá. Logo, ele foi ao banheiro. Onde deparou com olhares atentos de homens a observar cada uma de suas ações. E que ficaram sem rosto, encobertos pela vista incrivelmente superficial e oblíqua das vítimas de intimidamento. E, sem rosto, ganharam feições monstruosas.</p>
<p>Que nada. Apenas um exagero dramático.</p>
<p>Sentei-me ao lado de meu tio que, soube mais tarde, levara uma meia velha, da qual fez discreto uso a fim de não ficar sujo. Eu, pouco experiente nesses assuntos, não portava meia nenhuma e fiquei quieto no meu canto enquanto a fita era exibida. Realmente, nem me passou pela cabeça e seria esquisito abrir o zíper em um lugar que não fosse o banheiro. Aposento, aliás, ao qual não pretendia voltar. Ainda que tivesse que urinar nas calças não pretendia enfrentar novamente as feições monstruosas.</p>
<p>Que nada. Apenas um exagero dramático.</p>
<p>Achei estranho quando, com tantos lugares vagos, um sujeito sentou justamente ao meu lado. A mão furtiva sobre o braço da poltrona estendia o dedo mínimo em direção à minha perna, visivelmente com intenção de contagiar suas outras extensões digitais com o movimento. Infelizmente eu não portava nenhum machado. Nem uma meia velha eu havia trazido, quanto mais qualquer objeto afiado o suficiente para suprimir-lhe o dedo miúdo. Imagino como iria se virar em suas abordagens sem ele. Mudei de lugar e comentei a história com meu tio, que deu risada. Eu até então nunca tinha visto um tarado de perto.</p>
<p>Dos dois filmes, só consigo lembrar de um deles. Era a história de uma tímida japonesa que herdava de um tio radicado nos Estados Unidos o que ela imaginava ser um hotel. Ao chegar no lugar que deveria administrar, descobre tratar-se de um bordel. Uma loira lhe conta toda a história e lhe explica as coisas. Ela escuta, relutante. A loira se aproxima e beija a garota na boca que, então, fica entre indignada e assustada. Então, a outra vinha com uma conversa mole muito sedutora que, não lembro em que termos, acaba por convencer a japonesinha de que aquilo tudo pode ser interessante, lucrativo e, por que não?, prazeroso. A cena tocou em outro tema caro, a sedução e a transformação da inocência naquilo que as mentes mais moralistas chamariam de perversidade.</p>
<p>Houve um filme, do qual não recordo o nome, na minha infância, em que fadas boas enfrentavam bruxas malvadas. Uma bobagem, enfim. Mas há o o auge da coisa. O momento de tensão acontecia quando a heroína era, graças a uma mágica malévola, transformada em uma integrante do bando do mal. Continuava bela, mas de outra forma, uma forma que confesso, me atraía.</p>
<p>Em A Lenda, filme típico dos anos 80, lamentei quando a princesinha tornou-se boa novamente.</p>
<p>Mas o tema vem de mais longe. Basta ler Filosofia na Alcova, do Marquês de Sade, para entender o que eu quero dizer.</p>
<p>Isso me faz acreditar que se pode fazer um filme pornográfico sem nenhuma cena de sexo, mas apenas com as de sedução. Dirão alguns que, então, seria um filme erótico. Eu contra-argumento dizendo não haver nada mais pornográfico, no entanto, que a sedução. Por vezes as intenções que precedem qualquer ato são mais eloqüentes e explícitas que o próprio ato. Por isso, penetrações e quetais eu deixaria para os amadores e para os momentos menos profundos de minha produção cinematográfica.</p>
</div><p><br/><br/><a href="http://www.cracatoa.com.br/pornografico/">Pornográfico</a></p>
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		<title>Cracatoa destaca de 30.5.2011 a 13.6.2011</title>
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		<pubDate>Mon, 13 Jun 2011 13:02:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Alessandro Martins</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Anima&#231;&#227;o em Ascii do quarto epis&#243;dio de Star Wars &#8211; Est&#225; inteirinho. Leva algum tempo para ver tudo, mas d&#225; para acelerar Today is the Day &#8211; Hoje &#233; o dia. Uma hist&#243;ria fotogr&#225;fica MUITO L&#212;CA Guia jur&#237;dico para blogueiros &#8211; O livro Blogando Direito, de Nathalia Mota. Uma boa refer&#234;ncia para voc&#234; n&#227;o se [...]<p><br/><br/><a href="http://www.cracatoa.com.br/cracatoa-destaca-de-30-5-2011-a-13-6-2011/">Cracatoa destaca de 30.5.2011 a 13.6.2011</a></p>
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<li><a href="http://www.asciimation.co.nz/">Anima&ccedil;&atilde;o em Ascii do quarto epis&oacute;dio de Star Wars</a> &#8211; Est&aacute; inteirinho. Leva algum tempo para ver tudo, mas d&aacute; para acelerar</li>
<li><a href="http://istheday.blogspot.com/">Today is the Day</a> &#8211; Hoje &eacute; o dia. Uma hist&oacute;ria fotogr&aacute;fica MUITO L&Ocirc;CA</li>
<li><a href="http://www.guiablogandodireito.com.br/guia/book.html">Guia jur&iacute;dico para blogueiros</a> &#8211; O livro Blogando Direito, de Nathalia Mota. Uma boa refer&ecirc;ncia para voc&ecirc; n&atilde;o se meter em encrencas jur&iacute;dicas caso seja blogueiro, profissional ou n&atilde;o</li>
<li><a href="http://www.chromoscope.net/">Chromoscope &#8211; veja o universo em diferentes frequ&ecirc;ncias de onda /via @marcocarvalho</a> &#8211; Alguma vez desejou ter vis&atilde;o raio-X ou super-humana? O Chromoscope premite-lhe explorar a nossa Gal&aacute;xia (a Via L&aacute;ctea) e o Universo distante numa s&eacute;rie de comprimentos de onda desde raios-X at&eacute; &agrave;s compridas ondas de r&aacute;dio.</li>
<li><a href="http://eneaotil.wordpress.com/2011/05/26/e-quando-e-a-professora-que-comete-bullying/">E quando &eacute; a professora que comete bullying?</a> &#8211; Sobre meninos escrevendo cartas de amor e, por outro lado, como algu&eacute;m assim se torna um educador(a)?</li>
</ul>
</div><p><br/><br/><a href="http://www.cracatoa.com.br/cracatoa-destaca-de-30-5-2011-a-13-6-2011/">Cracatoa destaca de 30.5.2011 a 13.6.2011</a></p>
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		<title>Cracatoa destaca de 13.5.2011 a 29.5.2011</title>
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		<pubDate>Mon, 30 May 2011 02:00:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Alessandro Martins</dc:creator>
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			<content:encoded><![CDATA[<div id=HOTWordsTxt name=HOTWordsTxt><ul>
<li><a href="http://pcsiqueira.deviantart.com/">A conta do @pecesiqueira no deviantART &eacute; not&aacute;vel</a> &#8211; Conta do PC Siqueira no DeviantART</li>
<li><a href="http://bibliopote.com/">Biblioteca Livre Pote de Mel &#8211; biblioteca que funciona em uma panificadora</a> &#8211; Site que criei para a Biblioteca Livre Pote de Mel. A Bibliopote &eacute; uma biblioteca livre que funciona em uma panificadora de mesmo nome. Voc&ecirc; pega um livro e devolve quando quiser, sem carteirinha, cadastro e burocracia. N&atilde;o h&aacute; cobran&ccedil;a de prazo ou dinheiro ou multa por atraso pois n&atilde;o existe atraso</li>
<li><a href="http://www.youtube.com/watch?v=KM0ow_CLwac">Aberturas Literais de Novela &#8211; Vale Tudo /via @samisim</a> &#8211; A&iacute; a gente v&ecirc; que essas aberturas, &agrave;s vezes, n&atilde;o fazem o menor sentido</li>
<li><a href="http://swasthya.marcocarvalho.com/homo-amabilis-e-homo-malignus-vivem-entre-nos/">A falta de tato (toque) entre os humanos leva &agrave; viol&ecirc;ncia /via @marcocarvalho</a> &#8211; Culturas predispostas &agrave; viol&ecirc;ncia s&atilde;o constitu&iacute;das por indiv&iacute;duos que foram privados dos prazeres do corpo</li>
<li><a href="http://www.descolaai.com/">Descola ai &#8211; site de empr&eacute;stimo colaborativo &#8211; p2p</a> &#8211; A ideia &eacute; incentivar o empr&eacute;stimo de produtos pouco utilizados, como furadeiras e outras ferramentas. Olhe para todas as coisas que voc&ecirc; tem e pense em quantas poderiam ser emprestadas sem preju&iacute;zo algum. Por uma sociedade menos consumista, menos apegada e mais eficiente</li>
</ul>
</div><p><br/><br/><a href="http://www.cracatoa.com.br/cracatoa-destaca-de-13-5-2011-a-29-5-2011/">Cracatoa destaca de 13.5.2011 a 29.5.2011</a></p>
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		<title>Parta meu coração e morra ou Excessivamente dramático</title>
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		<pubDate>Fri, 20 May 2011 10:09:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Alessandro Martins</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Aquele coração que você viu pendurado na parede é o meu. Ele pende de um fio de náilon que, por sua vez, está amarrado a um prego de metal. O prego perfura a parede de cimento e tijolos. Alguns farelos da alvenaria se encontram no chão. A perfuração feita a martelo não é precisa. Por [...]<p><br/><br/><a href="http://www.cracatoa.com.br/parta-meu-coracao-e-morra-ou-excessivamente-dramatico/">Parta meu coração e morra ou Excessivamente dramático</a></p>
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			<content:encoded><![CDATA[<div id=HOTWordsTxt name=HOTWordsTxt><p>Aquele coração que você viu pendurado na parede é o meu. Ele pende de um fio de náilon que, por sua vez, está amarrado a um prego de metal. O prego perfura a parede de cimento e tijolos. Alguns farelos da alvenaria se encontram no chão. A perfuração feita a martelo não é precisa. Por isso há alguma folga no orifício. Assim todo esse conjunto &#8211; prego, fio e coração &#8211; deve logo se espatifar.</p>
<p>Estou sentado aqui há algumas horas a observar. Quero saber quanto tempo decorrerá até que a gravidade sobrepuje a inércia, o atrito entre o metal e o barro cozido. Vou assistir, sentado nessa poltrona, o momento em que esse conjunto deve se juntar às partículas da parede espalhadas no chão de madeira.</p>
<p>Puxe uma cadeira. Sente-se também. Pouco adianta ficar aí, em pé, com as mãos em concha para tentar amparar a queda. Sei que não tem coragem para tocar meu coração. Em outra oportunidade, quando ele ainda tinha espasmos dentro do meu peito, você já demonstrou isso. Não precisa fingir. Mas feche a porta porque esse evento é para poucas testemunhas. Tal e qual quando o universo foi criado e não havia ninguém para presenciar.</p>
<p>Foi assim: todas as partículas, todos os átomos ocupavam-se em se espremer. Tudo o que você possa imaginar e que esteja nesse universo infinitamente grande &#8211; esta cadeira, esta mesa, esta poltrona, este prego, este fio, este coração, você, eu -, tudo estava condensado em um único ponto. Infinitamente pequeno.</p>
<p>Aí, dizem, quando não era mais possível condensar mais nada, houve uma grande explosão. Essas partículas feitas de um material primordial, a uma temperatura altíssima, se espalharam pelo nada e, na mesma proporção em que formavam galáxias, sistemas, estrelas, planetas, cadeiras, mesas, poltronas, pregos, fios, corações, você e eu, elas se resfriavam.</p>
<p>Não consigo entender em que circunstância e em que capítulo da história astronômica você se tornou tão fria e eu permaneci tão quente.</p>
<p>O fio que nos liga é de natureza diferente daquela do fio que liga o coração ao prego. O fio que nos liga está a minha volta tão apertado que chega ao ponto da gangrena. Às vezes olho para meus braços e pernas e tenho a impressão de que estão azuis. Às vezes, não os sinto e tenho a impressão de que cairão, a sensação de que não mais me moverei pois deixei-os no caminho. O fio que nos liga paralisa-me.</p>
<p>E, ao seu redor, ele está tão frouxo que é sorte sua eu estar voltado para o abismo e não você. É da natureza das muito belas serem amadas com facilidade sem, no entanto, sentirem a necessidade do esforço de amar. Uma vez esgotada a paixão sempre haverá um trouxa pronto a se atirar no primeiro buraco por causa delas. Não se preocupe, não cairei. E, se cair, já estou acostumado.</p>
<p>Mas, olhe, o prego se sustenta por apenas alguns milímetros na parede e já desliza para baixo.</p>
<p><strong>Finais possíveis</strong><br />
<strong>Final 1</strong> &#8211; No momento em que, finalmente, o prego escorrega da parede, ela se joga com os braços estendidos. Em câmara lenta, percebe-se que as duas mãos conseguirão aparar a queda. Black out. Vê-se, a seguir, ela caída, os olhos voltados para cima. O que ela enxerga é um coração atravessado por uma flecha a poucos centîmetros de seus dedos, definitivamente preso à superfície. Ela volta o olhar em direção ao sofá e ele aponta um outro projétil para sua garganta. A flecha vôa em sua direção. Black out. Sobem os créditos.</p>
<p><strong>Final 2</strong> &#8211; Ela ouve as palavras dele mais um pouco. Vemos apenas os lábios que se mexem sob a trilha sonora. Close-ups alternados entre um e outro. Então, sem um motivo aparente para isso, ele se levanta, arranca o coração da parede, morde, mastiga e engole o naco. Joga o órgão sem vida por cima do ombro enquanto vai embora. Close na porta que se fecha. Créditos.</p>
<p><strong>Final 3</strong> &#8211; Ela fica excitada com a camisa suja de sangue que ele traja. Beija-o na boca e sua mão vai em direção ao sexo dele. Evidente que não o ama, mas os dois decidem ficar juntos assim mesmo porque adoram sexo pervertido. Diversos pontos ficam em aberto e deixam a possibilidade de uma continuação.</p>
<p><strong>Final 4</strong> &#8211; Ela tenta amparar a queda, mas não consegue. Tudo se arrebenta no chão. Na verdade, o coração foi feito com gelatina vermelha. O filme termina com os dois rindo e comendo o doce. Sobem os créditos, intercalados com cenas de erros nas gravações e uma música feliz.</p>
<p><strong>Os atores</strong><br />
É preciso que o responsável pelo elenco consiga um ator muito parecido comigo há cerca de 10 anos, capaz de cenas dramáticas e até mesmo de se apaixonar. Ela pode ser aquela garota com quem tive uma paixão mal resolvida na adolescência. Na impossibilidade de viagens no tempo, melhor deixar as filmagens para algum período em que isso seja possível. Ainda assim, os personagens deverão ter uma aparência adulta. De tal maneira que, se não for possível uma caracterização convincente, a produção deve ser definitivamente engavetada.</p>
<p><strong>A crítica feroz</strong><br />
Excessivamente dramático. A imagem de um coração pendurado por um barbante é por demais forte a ponto de ser ridícula. Mulher nenhuma iria se comover com tal coisa. No máximo, acharia que o sujeito ficou louco e chamaria os homens de branco para levá-lo ao hospício. A meu ver, nem a isso ela se daria. Comparar a situação dos dois com a criação do Universo, em uma metáfora sem imaginação, e o resfriamento das substâncias equiparado à crescente indiferença dela enquanto nele a paixão permanece, comoveria apenas o público mais piegas. A possibilidade de escolha de diversos finais possíveis  já foi explorada em filmes de baixa qualidade tais como Corra, Lola, Corra, embora de maneira diferente.</p>
<p><strong>Enfim</strong><br />
Eu não pude tirar meu coração do peito. Sem ele não vivo. Você não deparou com ele pendurado por um fio de náilon preso a um prego que perfurava a parede e que, lentamente, deslizava por um orifício frouxo. Pois você não surgiu repentinamente na porta. Não havia sofá para se sentar e observar o espetáculo, não havia cadeira em que se escorar, nem havia nada. Apenas a minha cara, a olhar para o infinito, em busca dos primeiros momentos do universo e da imediata seqüência de ações e reações que trouxeram-me até aqui e levaram você até ali. Um aqui e um ali bem distantes um do outro. Certo de que jamais entenderei.</p>
</div><p><br/><br/><a href="http://www.cracatoa.com.br/parta-meu-coracao-e-morra-ou-excessivamente-dramatico/">Parta meu coração e morra ou Excessivamente dramático</a></p>
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