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<?xml-stylesheet type="text/xsl" media="screen" href="/~d/styles/atom10full.xsl"?><?xml-stylesheet type="text/css" media="screen" href="http://feeds.feedburner.com/~d/styles/itemcontent.css"?><feed xmlns="http://www.w3.org/2005/Atom" xmlns:openSearch="http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/" xmlns:georss="http://www.georss.org/georss" xmlns:feedburner="http://rssnamespace.org/feedburner/ext/1.0"><id>tag:blogger.com,1999:blog-7293044</id><updated>2010-03-20T14:07:27.461-03:00</updated><title type="text">Comentários Abertos</title><subtitle type="html">sorvete de ego sabor tinta de caneta</subtitle><link rel="http://schemas.google.com/g/2005#feed" type="application/atom+xml" href="http://comentariosabertos.blogspot.com/feeds/posts/default" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://comentariosabertos.blogspot.com/" /><link rel="next" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default?start-index=26&amp;max-results=25" /><author><name>Flávio Voight</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01332506726484047289</uri><email>noreply@blogger.com</email></author><generator version="7.00" uri="http://www.blogger.com">Blogger</generator><openSearch:totalResults>212</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>25</openSearch:itemsPerPage><atom10:link xmlns:atom10="http://www.w3.org/2005/Atom" rel="self" type="application/atom+xml" href="http://feeds.feedburner.com/comentarios" /><feedburner:info uri="comentarios" /><atom10:link xmlns:atom10="http://www.w3.org/2005/Atom" rel="hub" href="http://pubsubhubbub.appspot.com/" /><feedburner:browserFriendly>This is an XML content feed. It is intended to be viewed in a newsreader or syndicated to another site. Esse é o blog Comentários Abertos em XML. Se quiser, adicione esse feed ao seu leitor de feeds preferido.</feedburner:browserFriendly><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7293044.post-3612516890139639940</id><published>2010-03-03T00:33:00.002-03:00</published><updated>2010-03-03T00:35:26.799-03:00</updated><title type="text">Do trabalho para casa</title><content type="html">Os pés doíam e ela reclamava da vida. Da casa para o trabalho, do trabalho para casa: era assim que descrevia seu cotidiano quando alguém lhe perguntava como andam as coisas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Casa? Acordava antes das cinco horas. A sua mãe também acordava cedo, passavam quinze minutos juntas tomando café antes que a pressa as separasse; a garota para o trabalho e a mãe de volta para a cama.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Trabalho? Atendia o telefone e anotava recados. Dia após dia. Sem maiores envolvimentos, sem maiores ambições. O emprego servia para pagar algumas poucas contas e para que ela pudesse sair de casa durante o dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Casa? Chegava tarde demais, à noite. Todos estavam dormindo. Via o pai só aos finais de semana. De vez em quando sentia saudades, de vez em quando nem sabia quem era o homem barrigudo assistindo televisão no sofá da sala. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era indo de um lugar para o outro que ela realmente existia. Com a roupa de trabalho, formal e com um lenço amarrado no pescoço, era uma entre muitos no coletivo. Se sentia como gado, sendo tocado de um lugar para o outro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O ônibus era o único lugar em que sobrava tempo para fazer planos. Planejava comprar um carro, mas aí se lembrava que não sabia dirigir e teria medo demais para tentar - sem contar o tempo que era tão pouco. Pensava em morar mais perto do trabalho. Pensava em mandar uma carta pra algum programa de TV falando como era horrível estar espremida entre tantas pessoas, com janelas fechadas e com um estranho roçando na sua bunda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No ônibus, ela era uma socióloga. No ônibus, ela era uma pensadora. No ônibus, ela era uma astronauta, ela era genial, era uma revolucionária.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas aí chegava a hora de desembarcar.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7293044-3612516890139639940?l=comentariosabertos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://comentariosabertos.blogspot.com/feeds/3612516890139639940/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="https://www.blogger.com/comment.g?blogID=7293044&amp;postID=3612516890139639940&amp;isPopup=true" title="5 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default/3612516890139639940" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default/3612516890139639940" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://feedproxy.google.com/~r/comentarios/~3/eA4_sEW3V5I/do-trabalho-para-casa.html" title="Do trabalho para casa" /><author><name>Flávio Voight</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01332506726484047289</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd="http://schemas.google.com/g/2005" name="OpenSocialUserId" value="05712358080031572323" /></author><thr:total xmlns:thr="http://purl.org/syndication/thread/1.0">5</thr:total><feedburner:origLink>http://comentariosabertos.blogspot.com/2010/03/do-trabalho-para-casa.html</feedburner:origLink></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7293044.post-1528554967505808030</id><published>2010-02-15T01:26:00.001-02:00</published><updated>2010-02-15T01:26:21.984-02:00</updated><title type="text">Rolocompressor</title><content type="html">Maria da Graça dos Anjos era uma exterminadora. Obstinação era seu nome do meio, e Graça era o que ela estava disposta a vender em troca de dinheiro. Era tão, mas tão determinada a ter o mundo nas mãos que conquistava simpatia. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sabem como é o Brasil, o frentista do posto de gasolina sempre vai achar esnobe a pessoa que chegar no carro mais caro – quem ousa querer mais ganha a reprovação de todos: “esse pensa que é melhor que os outros”. Mas Maria da Graça dos Anjos era diferente – ela acreditava tão bem que era melhor que os outros, e que era destinada a ter algo melhor do que os outros tinham que seu pensamento contaminava os que estavam a sua volta. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando criança, a atenção que Maria da Graça recebia não era a das outras meninas. A expressão “Que fofa!” jamais foi pronunciada perto dela. Uma vez no supermercado, agarrada na perna da mãe, passou pelo seu médico pediatra. O médico cumprimentou a mãe com um sorriso, dobrou os joelhos, passou a mão na cabeça de Maria da Graça e disse “Essa menina vai ser presidente do Brasil”. E era mais ou menos assim que o pequeno ego de Maria da Graça se criou. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Daí a obstinação. Era uma responsabilidade. Ela ia se tornar a pessoa brilhante que todos esperavam que ela viesse a ser. Não sentia solidão, não sentia medo, não sentia frio. Sentia necessidade de grandeza. Cresceu gostando de ouvir “Você é tão inteligente, já tão nova!”. O problema de envelhecer é esse, uma hora você não impressiona por saber escrever direito, não impressiona por ter cultura, não impressiona mais. Você já não é tão novo pra ser a pessoa mais nova a já ter feito alguma coisa. Pena de si mesma, era isso que Maria da Graça sentia de vez em quando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não iria se deixar abalar. Estudou como se o mundo acabasse amanhã. Ficou conhecida, para as turmas seguintes do cursinho, como “Rolocompressor”. Primeiro lugar em quase todos os vestibulares que prestou. Não reprovou em nenhum – e nem tentou tantos, só os mais concorridos, pra não perder tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chegara a hora de sair daquela cidade pequena onde nasceu e ir em conquista do mundo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era uma missão. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Maria da Graça dos Anjos já estava chegando longe. Se formou com honras, foi a oradora da turma mesmo sem ter muitos amigos – os mais próximos eram os que queriam, de alguma forma, se beneficiar da companhia de uma pessoa tão promissora. Promissora, aliás, era a palavra que mais assombrava os sonhos de Maria da Graça. Quando ela ia deixar de ser promissora para chegar, enfim, ao lugar de seu destino? Onde ficava o topo, e como ela chegaria lá?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acabada a faculdade, acabadas as amizades da faculdade. Não resistiram ao mundo real de desemprego e concorrência – e mesmo assim, não adiantava concorrer com a Graça dos Anjos, o primeiro lugar era garantido para ela. As pessoas iam ficando para trás, e o alvo ia ficando mais próximo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrou para a política, se destacou em seus projetos, se corrompeu o suficiente para subir rápido mas era esperta o suficiente para não ser descoberta. Ia ser a primeira pessoa de sua cidade a ser eleita para o Senado. O rolocompressor estava conquistando o país. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eram pessoas cuidando de seus discursos, policiando sua imagem, planejando suas ações. Maria das Graças era o novo grande rosto da política brasileira. Era uma das poucas pessoas que ainda recebiam fé dos eleitores. Era uma grande promessa. Era o resultado da obstinação doentia que surgia. Enfim, o pagamento. Estava no seu momento de transição, de Pequeno Príncipe para Rei Leão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pouco antes da sua eleição, uma enchente tomou conta da sua cidade de nascimento. Nunca se vira uma catástrofe tão grande em terras brasilis. Maria da Graça tomou um avião para uma cidade próxima, para avaliar os danos, mas os danos eram inavaliáveis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seus colegas de escola, sua família, seus vizinhos – não sobrou ninguém. Quem não morreu em desabamentos morreu de alguma doença trazida pela água. Morreu a infância de Maria da Graça. Morreram as expectativas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ninguém mais torcia por Maria da Graça, pelo menos ninguém que importasse. Onde estava o pediatra que lhe carimbara o passaporte para o mundo dos importantes? Onde estava sua mãe, que morria de saudades mas fingia que não para que a filha não sofresse na capital? Onde estavam as pessoas a quem Maria da Graça prometeu ser uma gigante?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O dilúvio, por devastador que tenha sido, devolveu a graça para Maria da Graça. Para quem provar que era melhor do que todos? Sentiu-se ao mesmo tempo velha e recém-nascida. Uma página em branco, mas sem tempo a perder com rascunhos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mandou o partido para a puta que pariu. Jogou os bottons de sua campanha para o Senado no vaso sanitário e puxou a descarga. O vaso entupiu e o banheiro se alagou quase como a cidade natal de Maria da Graça, mas o que valia era a intenção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jogou os livros na água que já estava chegando à cozinha. Era seu dilúvio pessoal. O diploma também já estava boiando perto do banheiro. Largou o apartamento aberto, jogou as chaves na rua e se mandou para o interior. Buscava um lugar onde ninguém a conhecesse. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estava tão determinada a desconstruir sua vida como tinha estado para construí-la. Na nova cidade, prestou um concurso público. Errou algumas questões de propósito, para que não desconfiassem. Mesmo assim, tirou primeiro lugar. Percebeu que estava de volta ao ambiente em que crescera, em que era melhor que todo mundo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas isso não ia atrapalhar. Foi chamada para o cargo. Era a nova operadora de maquinas pesadas da prefeitura. De tão pequena que era a cidade, teve gente reclamando do cargo ser ocupado por uma mulher. Dificuldade pequena, foi fácil para Maria da Graça passar por cima disso. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Primeiro dia de trabalho. Foi designada a trabalhar no asfaltamento de uma rua. Uma sensação de realização tomou conta de Maria da Graça, a felicidade corria por seu corpo todo. Do alto do seu rolocompressor, esmagando pedra brita, Maria da Graça dos Anjos atingiu seu destino.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7293044-1528554967505808030?l=comentariosabertos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://comentariosabertos.blogspot.com/feeds/1528554967505808030/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="https://www.blogger.com/comment.g?blogID=7293044&amp;postID=1528554967505808030&amp;isPopup=true" title="6 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default/1528554967505808030" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default/1528554967505808030" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://feedproxy.google.com/~r/comentarios/~3/M5NLI0cKfwc/rolocompressor.html" title="Rolocompressor" /><author><name>Flávio Voight</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01332506726484047289</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd="http://schemas.google.com/g/2005" name="OpenSocialUserId" value="05712358080031572323" /></author><thr:total xmlns:thr="http://purl.org/syndication/thread/1.0">6</thr:total><feedburner:origLink>http://comentariosabertos.blogspot.com/2010/02/rolocompressor.html</feedburner:origLink></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7293044.post-3299598554052954618</id><published>2010-02-07T17:41:00.001-02:00</published><updated>2010-02-07T17:41:25.715-02:00</updated><title type="text">Na teoria</title><content type="html">Sexo: não adianta, nenhum de nós é confortável com ele. Virgens, prostitutas, solteiros e casados, pais e filhos, estamos todos em agum grau desconcertados pela nossa necessidade de sexo. O ser humano tem uma demanda brutal, incontrolável, por dois tipos de contato carnal – o entre duas pessoas e o entre os dentes e a carne de um Big Mac.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Encontramos nossos refúgios, entretanto. Já que ninguém vive sem – e quem vive costuma dizer que é casado com o Espírito Santo, que ou é um fantasma ou é uma Unidade Federativa inteira, o que desacredita um pouco a abnegação toda – acabamos achando artifícios que nos permitam mergulhar no sexo sem tanta preocupação com a nossa roupa de banho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um exemplo disso é a A.D.D.P – a Amiga Desencanada de Plantão, aquela a quem você recorre quando precisa ir para o combate e arranjar no braço uma pessoa corajosa o suficiente para transar com você. A  A.D.D.P.não compartilha das suas neuroses quanto ao sexo, ela fala sobre sexo com a naturalidade de quem fala de flores. (Nota: a A.D.D.P geralmente é do sexo feminino. Todos os homens, em geral, assumem esse papel em algum momento de suas vidas, enquanto as mulheres são A.D.D.P. Para a vida toda.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela fala alto. Ela usa decote, ela está sempre com um rolo novo e uma história divertida para contar sobre aquela vez em que ela pulou a cerca para entrar numa festa concorridíssima e acabou sendo pega pelo segurança, que a comeu de quatro enquanto ela planejava a forma certa de atacar o próximo pretendente na festa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Martina era A.D.D.P. De todas as mulheres que já tinham cruzado com ela. Mulheres que conversavam com Martina na fila do pão já a chamavam de lado pedindo dica de lubrificante e perguntando se liberar a bundinha dói. “Dói nada, com paciência, cuspe e vontade tudo se consegue”, dizia Martina. Era invejada. Como Martina podia ser tão desencanada? “Bem-resolvida”, diziam as amigas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Primeiro que “desencanada” é provavelmente a pior palavra na língua portuguesa. A idéia de uma pessoa estar presa em um cano, conseguir por uma fatalidade sair dele e portanto estar livre das preocupações dos outros mortais é patética. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois a primeira vez de Martina foi uma desgraça. Uma adolescente insegura como todas as adolescentes são, teve a sorte/azar de encontrar um homem que a encantou de tal forma que ela venceu a barreira da timidez e o convidou para sair. Ele disse que na casa dele era mais confortável. Ela foi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Filme. Beijos. Paciência. Álcool. Roupas no chão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Martina respirou fundo e pensou “É agora”. Ele veio sobre ela, e ela fantasiara com aquele momento por toda sua pequena vida, e ele era o homem mais experiente do mundo, e ele era seu príncipe, e ele parou e pediu ajuda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não conseguia colocar a camisinha sozinho. “Eu nunca fiz isso antes”, disse ele, morrendo de vergonha, “espero que você entenda”. Ela entendeu. Se fez de entendida e botou a camisinha nele (tinha aprendido numa revista. Todo seu conhecimento sobre sexo vinha de revistas, ela lia pilhas e pilhas, sabia de cor milhões de maneiras de como seduzir um homem – aliás, se surpreendia com as dicas dessas revistas em como os homens eram atraídos por fantasias de tigre, chantilly na vagina e banheiras cheias de gelatina. Mas se as revistas diziam, só podia ser verdade).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Camisinha colocada, clima interrompido mas a batalha continuava. Era hora de invadir as paredes de Tróia. Martina teve, também, a sorte/azar de ter um primeiro namorado muito bem dotado. A falta de experiência dos dois fez o ato todo ser tão elegante como três elefantes dançando balé em um piso coberto por bolinhas de gude.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Machucou. Doeu. Não deu pra terminar. Martina deixou pra outro dia. “Pelo menos eu tentei”. Pelo menos ela tentou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas aí aconteceu que todos os rapazes que lhe cruzavam o caminho queriam tudo de cara, tudo o que ela tivera a sorte/azar de ter dado para alguém paciente antes. Se com paciência não dava certo, imagina sem! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só que Martina era bem informada, e continuou dando conselhos para todas as amigas que se aproximavam. Era uma revista ambulante. As amigas invejavam toda a desenvoltura de Martina para falar de sexo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do primeiro para cá, já passaram uns dez anos. Martina teve a sorte/azar de sobreviver todo esse tempo sem sexo. Ela já não tem muita esperança; comprou um vibrador que ainda está na gaveta, sem usar por medo de doer. Já animou dezenas de amigas: “Imagina, colega! É fácil. Respira fundo e deixa que ele cuida de tudo!”. “Não, tenta você por cima, aí você goza mais fácil!”. “Tira a cabeça do chuveirinho, deixa na entradinha um pouco, e depois solta tudo no vaso!”. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As amigas comentavam entre elas sobre como Martina devia ser uma maluca na cama. Uma devassa. Uma mulher tão bem-resolvida. Mal sabiam elas, a amiga desencanada de plantão tinha entrado pelo cano. Semi-nova e semi-virgem – mas ótima na teoria.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7293044-3299598554052954618?l=comentariosabertos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://comentariosabertos.blogspot.com/feeds/3299598554052954618/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="https://www.blogger.com/comment.g?blogID=7293044&amp;postID=3299598554052954618&amp;isPopup=true" title="5 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default/3299598554052954618" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default/3299598554052954618" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://feedproxy.google.com/~r/comentarios/~3/lu_v79GU6nw/na-teoria.html" title="Na teoria" /><author><name>Flávio Voight</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01332506726484047289</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd="http://schemas.google.com/g/2005" name="OpenSocialUserId" value="05712358080031572323" /></author><thr:total xmlns:thr="http://purl.org/syndication/thread/1.0">5</thr:total><feedburner:origLink>http://comentariosabertos.blogspot.com/2010/02/na-teoria.html</feedburner:origLink></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7293044.post-2961027336881386029</id><published>2010-01-16T20:24:00.000-02:00</published><updated>2010-01-16T20:25:00.525-02:00</updated><title type="text">Éter</title><content type="html">E o meu pior castigo nessa vida é ser todo feito de intenção. De boa intenção o inferno está cheio, falam. Discordo. As intenções, boas ou más, moram no limbo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Intenções: a morada do futuro. O futuro não chega. Nenhuma intenção se realiza. Quando há realização, não houve intenção prévia. A intenção planeja, a realização faz. Não existe futuro para quem realiza. É a mão no papel lutando contra a mão na massa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pretendo encontrar uma pessoa que depile minhas intenções. Que me arranque a pele que veste a vergonha de ser como os outros. Que me cutuque os olhos vermelhos até que fiquem cegos e secos. Que me proíba as lágrimas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu posso mudar o mundo. Eu posso mover montanhas. Eu posso, mas não vou. Eu sou cabeça (fraca, úmida), não corpo. Eu sou intento, eu sou desatento demais para efetuar minhas vontades. Eu sou vento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É pela intenção que eu me realizo. Eu quero tudo, eu quero o mundo, eu quero agora. Eu quero ser soberano, mas me recuso a lutar pelo meu reino. Por mais jardins que eu plante, as flores que nascerão vão brotar da terra. Prefiro meus jardins suspensos de pensamento, minha flora que bóia no éter.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu sou você amanhã. Mas só amanhã.&lt;br /&gt;Por hoje, eu sou incapaz - mas juro, minha intenção é das melhores.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7293044-2961027336881386029?l=comentariosabertos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://comentariosabertos.blogspot.com/feeds/2961027336881386029/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="https://www.blogger.com/comment.g?blogID=7293044&amp;postID=2961027336881386029&amp;isPopup=true" title="5 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default/2961027336881386029" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default/2961027336881386029" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://feedproxy.google.com/~r/comentarios/~3/ib0kDwE9bQw/eter.html" title="Éter" /><author><name>Flávio Voight</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01332506726484047289</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd="http://schemas.google.com/g/2005" name="OpenSocialUserId" value="05712358080031572323" /></author><thr:total xmlns:thr="http://purl.org/syndication/thread/1.0">5</thr:total><feedburner:origLink>http://comentariosabertos.blogspot.com/2010/01/eter.html</feedburner:origLink></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7293044.post-1308294572436684812</id><published>2010-01-05T03:37:00.002-02:00</published><updated>2010-01-05T03:42:45.658-02:00</updated><title type="text">Cuidados Médicos</title><content type="html">No urologista:&lt;br /&gt;- Mas não se preocupe, esse corrimento deve parar em duas semanas.&lt;br /&gt;- Ufa. Então tá tudo bem, doutor?&lt;br /&gt;- Só tomar esse comprimido por duas semanas e evitar venezuelanas desmaiadas sem camisinha.&lt;br /&gt;- Fácil de falar, difícil de fazer.&lt;br /&gt;- Pra terminar a consulta, o senhor está sabendo da nova campanha de higiene peniana que o governo está fazendo?&lt;br /&gt;- Campanha de higiene peniana? Mas pra quê campanha, é tão prático, dá pra lavar o pinto na pia mesmo.&lt;br /&gt;- Eu já li isso em algum lugar. Mas enfim, leve o panfleto contigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O urologista entrega um panfleto ilustrado. A imagem? Um pênis, uma barra de sabão que provavelmente é do mesmo tipo utilizado por lavadeiras que trabalham em rios e uma torneira. Apenas uma legenda salva a imagem de alguma possível conotação sexual: "ÁGUA E SABÃO: OS MELHORES AMIGOS DO SEU AMIGO".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O paciente sorri.&lt;br /&gt;- Ah, verdade! São amigos mesmo. Pelo menos, são amigos do meu. Todo fim de semana, meu pênis, uma torneira e uma barra de sabão vão juntos ao cinema.&lt;br /&gt;- Como?&lt;br /&gt;- Meu pinto tem carteirinha de meia-entrada.&lt;br /&gt;- O que seu pinto estuda?&lt;br /&gt;- Higiene bucal. Quer que eu demonstre?&lt;br /&gt;- Como?&lt;br /&gt;- Não que seja fino como um fio dental... Quer dizer, o senhor acabou de ver. &lt;br /&gt;- Seu pênis tem corrimento, é melhor que o senhor evite sexo oral desprotegido pelos próximos dias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desconforto.&lt;br /&gt;- Uhn, era uma piada, doutor.&lt;br /&gt;- E também não seria legal expôr seu pênis no cinema. Quer dizer, eu vou com meus filhos lá. &lt;br /&gt;- Isso também era uma piada.&lt;br /&gt;- Ufa.&lt;br /&gt;- E se não fosse piada, seria num cinema pornô.&lt;br /&gt;- Mas é aí mesmo que eu levo minhas crianças.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O paciente deixa passar aqueles segundos necessários para se definir se a ironia dita era mesmo ironia.&lt;br /&gt;- Ah, mas e o doutor não quer que seus filhos vejam pintos?&lt;br /&gt;- Não os com corrimento.&lt;br /&gt;- Ah, tá.&lt;br /&gt;- Cinema pornô deixa pagar meia entrada com carteirinha?&lt;br /&gt;- Bom, não sei...&lt;br /&gt;- É cultural, não é?&lt;br /&gt;- É a primeira sílaba de cultural, sim.&lt;br /&gt;- Vou mandar fazer uma pra mim.&lt;br /&gt;- O senhor não é estudante.&lt;br /&gt;- Me recuso a pagar dezoito reais por um cineminha. Se for contar a entrada das crianças... Meu salário não aguenta.&lt;br /&gt;- O senhor leva mesmo seus filhos no cinema pornô?&lt;br /&gt;- Enfim, não vamos entrar em assuntos pessoais. Só uma pergunta, o seu pênis é habilitado em higiene bucal mesmo?&lt;br /&gt;- Doutor, era só uma brincadeira...&lt;br /&gt;- Que pena. Acho que o meu filho está com cáries...&lt;br /&gt;- Acontece nas melhores famílias.&lt;br /&gt;- Mas também, cada coisa que ele come quando vai ao cinema...&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7293044-1308294572436684812?l=comentariosabertos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://comentariosabertos.blogspot.com/feeds/1308294572436684812/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="https://www.blogger.com/comment.g?blogID=7293044&amp;postID=1308294572436684812&amp;isPopup=true" title="1 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default/1308294572436684812" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default/1308294572436684812" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://feedproxy.google.com/~r/comentarios/~3/rAAEyGGEKq8/cuidados-medicos.html" title="Cuidados Médicos" /><author><name>Flávio Voight</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01332506726484047289</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd="http://schemas.google.com/g/2005" name="OpenSocialUserId" value="05712358080031572323" /></author><thr:total xmlns:thr="http://purl.org/syndication/thread/1.0">1</thr:total><feedburner:origLink>http://comentariosabertos.blogspot.com/2010/01/cuidados-medicos.html</feedburner:origLink></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7293044.post-6757775321849586305</id><published>2009-12-16T23:48:00.001-02:00</published><updated>2009-12-16T23:48:47.980-02:00</updated><title type="text">Culpa dela</title><content type="html">Lá vem a noiva, a bela noiva. &lt;br /&gt;A noiva que nunca imaginou que uma limousine pudesse ser tão claustrofóbica. O vestido sufocando-lhe as pernas e o corsete obrigando as costelas a fazerem agressivas cócegas nos pulmões - cócegas que não faziam riar, cócegas que lhe feriam. Ela queria mesmo era chamar a mãe, e chorar no seu colo. &lt;br /&gt;Não adiantaria nada, ela já tinha chorado no colo da mãe na noite anterior. A mãe conseguiu acalmá-la e convencê-la de que o nervosismo era natural, obrigatório antes de um acontecimento tão importante na vida de uma mulher.&lt;br /&gt;De uma mulher, só de uma mulher. &lt;br /&gt;Não se pensa no noivo numa hora dessas? Bem, o noivo não devia ter um corsete lhe apertando. É mais fácil manter a calma quando o diafragma não está amortecido.&lt;br /&gt;A noiva nunca ligou muito para o noivo, mesmo. Ela se sentiu solitária a vida toda, não podia se dar ao luxo de dispensar tão incrível cavalheiro, o homem ligeiramente barrigudo mas encarável, com uma feiúra que, na luz certa, passava por beleza. Ele estava ali e a queria. Isso bastava.&lt;br /&gt;Bastava?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lá vem a noiva, a bela noiva.&lt;br /&gt;A noiva que nunca imaginou que maquiagem pudesse fazer tanto calor. "Ainda bem que existe maquiagem à prova de água", pensou ela enquanto o buço jorrava litros de lágrima que não podia sair pelos olhos.&lt;br /&gt;A noiva que pagou o aluguel do vestido em prestação. O noivo era rico, mas nunca lhe deu muitos presentes. Só alguma coisa que mostrasse como o casamento seria um bom negócio. "Depois do casamento", se iludia a noiva, "eu recupero o investimento".&lt;br /&gt;Lá vem a noiva, a prudente noiva. &lt;br /&gt;Aquela que sabia investir até no casamento. Aquela que sabia que se aprende a amar, e que paixões são perda de tempo. Paixões são coisa de gente carente. Não que ela não fosse carente, mas a carência sabia que nunca seria extinta e sabia que dinheiro não é tão fácil assim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lá vem a noiva.&lt;br /&gt;A limousine estacionada a duas quadras da igreja. O noivo se atrasou. &lt;br /&gt;Pela primeira vez, uma emoção direcionada a ele. Raiva. O noivo era cortês, fazia esforço para agradá-la na cama - ela que não fazia muito esforço pra gostar -, era polido e distinto. Pontual. Sempre pontual.&lt;br /&gt;Ela que tinha o direito de se atrasar, oras. Não ele! Ela que era a esperta da história, não ele! Ele era a pessoa disposta a pagar pelo produto "Noiva Perfeita", e ele deveria desempenhar o papel "Marido ideal". O "Marido Ideal" não se atrasa, pombas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lá vem o noivo.&lt;br /&gt;E a noiva se frustra. Seria tão bom se ele não tivesse aparecido. Mas apareceu. A limousine ruma para a igreja.&lt;br /&gt;Hora de fechar o negócio. Ela capricha na cara de princesa da Disney. Torce para que ninguém perceba o Nilo que brota do seu buço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Eu aceito".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela aceitou a mentira de que ele era o príncipe encantado.&lt;br /&gt;Ela fingiu ter vocação pra Cinderella.&lt;br /&gt;Ainda hoje, ela diz que não foi culpa dela.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7293044-6757775321849586305?l=comentariosabertos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://comentariosabertos.blogspot.com/feeds/6757775321849586305/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="https://www.blogger.com/comment.g?blogID=7293044&amp;postID=6757775321849586305&amp;isPopup=true" title="2 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default/6757775321849586305" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default/6757775321849586305" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://feedproxy.google.com/~r/comentarios/~3/FKnIZ-YbCH8/culpa-dela.html" title="Culpa dela" /><author><name>Flávio Voight</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01332506726484047289</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd="http://schemas.google.com/g/2005" name="OpenSocialUserId" value="05712358080031572323" /></author><thr:total xmlns:thr="http://purl.org/syndication/thread/1.0">2</thr:total><feedburner:origLink>http://comentariosabertos.blogspot.com/2009/12/culpa-dela.html</feedburner:origLink></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7293044.post-6964387502653580534</id><published>2009-11-27T23:10:00.000-02:00</published><updated>2009-11-27T23:11:07.653-02:00</updated><title type="text">Astronauta</title><content type="html">Acontece que sempre que eu olho pela janela tem um avião passando.&lt;br /&gt;São muitos aviões passando todo dia, e cada um vai para um lugar diferente. E eu não consigo nem sair do apartamento!&lt;br /&gt;O décimo-sétimo andar do prédio-poleiro me parece suficiente para viver em paz, quando eu não lembro que divido meu espaço com gente que ouve cada grito que eu solto quando me sinto sozinho demais e o silêncio me aperta a faringe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É pra não parecer sozinho. Olha só, eu rio! Os vizinhos sabem que eu rio. Tem dias que eu chego em casa e rio bem alto, por horas a fio. É pra eles saberem que eu sou feliz. Só que ninguém é feliz assim, de ser só feliz, então tem dias que eu também choro. Mas eu choro sempre bem baixinho, porque bem baixinho é o meu jeito de chorar. Eu choro bem baixinho porque eu sei que se eu chorasse bem alto, eu ia incomodar os outros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aí, pra que saibam que eu não sou feliz o tempo todo e que eu não sou doente de só ficar em casa rindo, eu dou uns soluços bem altos. Aí eles percebem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E pra não pensarem que é solidão, de vez em quando eu pego o celular e vou pra janela pra conversar com alguém. Meu celular não tem créditos. Não tem nem bateria, acho. Não lembro quando foi a última vez que conversei com alguém. Mas eu estou ali, todos os dias, meia hora na janela falando ao telefone.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Estou com saudades!", eu me despeço bem alto. "Mal posso esperar pra te ver de novo". E desligo de mentirinha.&lt;br /&gt;Aí eles sabem que eu gosto de alguém. E que eu sinto saudades.&lt;br /&gt;Mal sabem eles que eu não gosto, nem sinto saudades - simplesmente porque eu não conheço o outro lado da linha. Não há outro lado na linha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E quando eu desligo o celular de mentirinha, eu olho pra cima e vejo um avião passando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sempre que eu olho pela janela tem um avião passando. E ele passa por cima de mim, me atropelando sem saber. &lt;br /&gt;Sem saber que um dia eu vou sair desse apartamento.&lt;br /&gt;Que um dia eu vou gostar de alguém de verdade, e sentir saudades de verdade, e pegar um avião e ir pra bem longe, pra bem perto de onde a saudade apontar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E aí o apartamento vai me parecer tão pequeno.&lt;br /&gt;E depois de um tempo, o mundo vai me aparecer tão pequeno. &lt;br /&gt;E depois de mais tempo, aviões não vão mais me bastar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aí eu viro astronauta, e fujo desse planeta pra nunca mais voltar.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7293044-6964387502653580534?l=comentariosabertos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://comentariosabertos.blogspot.com/feeds/6964387502653580534/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="https://www.blogger.com/comment.g?blogID=7293044&amp;postID=6964387502653580534&amp;isPopup=true" title="5 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default/6964387502653580534" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default/6964387502653580534" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://feedproxy.google.com/~r/comentarios/~3/HMwcIOnrr4w/astronauta.html" title="Astronauta" /><author><name>Flávio Voight</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01332506726484047289</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd="http://schemas.google.com/g/2005" name="OpenSocialUserId" value="05712358080031572323" /></author><thr:total xmlns:thr="http://purl.org/syndication/thread/1.0">5</thr:total><feedburner:origLink>http://comentariosabertos.blogspot.com/2009/11/astronauta.html</feedburner:origLink></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7293044.post-3690635786097411358</id><published>2009-11-26T14:12:00.000-02:00</published><updated>2009-11-26T14:15:08.572-02:00</updated><title type="text">Humberto</title><content type="html">Como era homem que o mundo pediu pra nascer naquele exato minuto, naquela cidade árida do Centro-Oeste? Porque o resultado do pedido saiu muito estranho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não foi erro na fôrma, nasceu um entre muitos iguais. Mas nasceu estragadinho. Como quando você vai ao supermercado e está escolhendo pepinos, e vê aquele pepino lindo, verde e pepinesco. Vai apalpar o pepino (não me pergunte o porquê de eu ter escolhido um pepino, sometimes a cucumber is just a cucumber), e percebe o pepino tem uma bolota pepínica grudada ao lado. Nem o psicanalista mais bem-resolvido compraria aquele símbolo fálico. Nada de errado com o pepino, mas é estranho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estou dando a impressão de que Humberto era um machão, comparando-o com pepinos desse jeito. Também não era efeminado, sua voz grossa de assustar, sua presença estranha. Mas tinha uma delicadeza mais do que feminina nos modos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Humberto não queria desagradar. É só acordar com a pá virada um dia para entender como as pessoas desagradam. As pessoas não dizem bom-dia, as pessoas não pedem favor, as pessoas saem desleixadas, as pessoas... são pessoas demais e gente de menos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E usou toda a força com a qual nasceu para forjar uma armadura. Endureceu (não por dentro, porque permanecia frágil, conscientemente frágil, mas Humberto pensava que podia esconder isso dos outros). Endureceu de medo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Humberto nunca tinha dançado, não em público. Às vezes, quando ainda era criança, dançava em frente à televisão quando via algum artista. Depois odiava o artista. Odiava! Maldito artista! Por quê o artista podia dançar e ele não?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele não dançava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas quarenta anos passam como passa uma agulha sobre um disco de vinil – às vezes travando, às vezes furando, mas passando. Humberto engessado, os anos passando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas Humberto quis dançar. Foda-se o Centro-Oeste, pensou ele – mas pensou com outras palavras, foder não fazia parte de seu vocabulário ou de seu repertório de atitudes. Juntou o dinheiro que ganhava na Vigilância Sanitária – seu empolgante emprego de segunda a sexta-feira, quando ele não era o heróico Homem de Gesso, que não sentia nem movia nem dançava – e comprou uma passagem para São Paulo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desconhecidos. A Revolução, como Humberto chamou o acontecido daquele dia em diante, foi uma festa. A primeira festa de Humberto. Desconhecidos assustados pelo jeito engessado de ser. Desconhecidos fascinados pela falta de desenvoltura social. Desconhecidos que não davam a mínima. Paulistas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A música, alta e estranha. As mulheres, girafas, altas e estranhas. Os homens, correndo seminus e pulando em piscinas, estranhos. Humberto se sentiu em casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Humberto dançou! E quem disse que ele não sabia dançar? &lt;br /&gt;Bom, quem disse isso provavelmente estava certo. Ele não sabia, mas o que importava era dançar, não importava como.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o grande feito do Homem de Gesso foi ter se deixado quebrar.&lt;br /&gt;A carcaça pode até voltar com o tempo, pra evitar a criptonita do dia-a-dia. Mas Humberto era um super-herói, e ele dançava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mesmo sendo um pepino deformado.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7293044-3690635786097411358?l=comentariosabertos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://comentariosabertos.blogspot.com/feeds/3690635786097411358/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="https://www.blogger.com/comment.g?blogID=7293044&amp;postID=3690635786097411358&amp;isPopup=true" title="5 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default/3690635786097411358" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default/3690635786097411358" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://feedproxy.google.com/~r/comentarios/~3/e3MHexaHUGo/humberto.html" title="Humberto" /><author><name>Flávio Voight</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01332506726484047289</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd="http://schemas.google.com/g/2005" name="OpenSocialUserId" value="05712358080031572323" /></author><thr:total xmlns:thr="http://purl.org/syndication/thread/1.0">5</thr:total><feedburner:origLink>http://comentariosabertos.blogspot.com/2009/11/humberto.html</feedburner:origLink></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7293044.post-5088014464554632707</id><published>2009-11-25T02:15:00.000-02:00</published><updated>2009-11-25T02:18:38.637-02:00</updated><title type="text">Os vizinhos</title><content type="html">Urgência e calma parecem se entrelaçar. É quando corro, quando estou atrasado - e estou quase sempre atrasado para tudo - é daí que emerge a calma que me mantém respirando e fazendo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(a pressa inibe de fazer, a pressa não é inimiga da perfeição, e sim amiga demais do planejamento. Poupar tempo, poupar tempo, executar tarefas, mas como? se eu tenho tão pouco tempo, e o que consegue ser feito é feito pelo avesso)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É quando o despertador toca que eu passo a desenhar o dia que nasceu antes de que eu tomasse consciência dele. O dia é uma folha em branco, eu sou uma mão que - dependendo do dia - segura o lápis com mais ou menos força. E a Terra é a mesa que me apóia. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O problema é que a Terra gira, e não dá pra desenhar direito quando a mesa em que se apóia gira. E o meu punho não é tão firme, e eu não sou um desenhista talentoso, mesmo com dezenove anos de prática. E o que fazer do dia?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desenhar olhos no dia? Como um psicótico que enxerga na indiferença alheia uma platéia atenta e julgadora que exige de mim a perfeição estalada de ruído musical. Não quero.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desenhar com calma? Pra terminar mais rápido. E depois virar a página por ir dormir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E é quando eu durmo que surge a urgência. É muito pensamento, é um planejamento desconexo e sem fim. É preocupação. É uma música que não quer parar de tocar. É uma memória incômoda. É fome,é inspiração, é impulso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas eu posso lutar contra a urgência. É só fingir que se acostuma com ela. É só esperar, urgentemente, que a urgência acabe. Com sorte, eu caio no sono. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Quando eu era menor, pensava que minha cama era capaz de voar. Que eu dormia e ela saía pela janela, flutuando sobre o mundo como um tapete mágico. Às vezes eu era mais esperto que ela, e logo antes de cair no sono, no meio daquela urgência toda, sentia um movimento. Abria os olhos muito rápido, muito atento, muito criança. A cama disfarçava e voltava a pousar em terra firme. Mas não me enganava, eu sabia que ela estava tentando voar.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez daí que apareça a urgência de estar na cama. Ela é uma estação de trem, um aeroporto, uma fronteira. Um ponto de partida. E os minutos antes de dormir são o copo trêmulo de whisky na mão enquanto se espera o embarque para uma nova página em branco que surge com o toque de um despertador.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que é o sono? Calma ou urgência? A preguiça quando se acorda é urgente, é um soldado na trincheira lutando contra a necessidade de levantar e abandonar o conforto morno de um acolchoado. Mas e o sono? Quem sabe seja verdadeira a minha ilusão infantil e o sono seja uma viagem forçada. Turismo espiritual, à minha revelia. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas eu acordo antes que o despertador me chame. Um barulho insistente de passos surge por detrás da parede que me permeia. Só escuto um chiado insistente de desespero. Algumas vozes, distantes por uma parede, que falam coisas que eu não reconheço e que são urgentes. Eu escuto. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sei o que se passa, mas não é assim que eu queria desenhar esse dia. A mesa gira como se estivesse possuída, e agora é meu horário de descanso, eu não nasci pra ilustrar a noite, eu nasci pra desenhar o dia - enxergando tudo claramente, com expediente controlado. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A porta do apartamento ao lado se tranca por fora. Escuto passos no corredor, o casamento que mora ao meu lado está saindo. Silêncio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O silêncio chuta minha calma, joga todas suas fichas para que eu me torne alerta; Fico escutando o silêncio até que ele me conte o que aconteceu com o casamento que mora ao meu lado. Sou interrompido por um carro que sai, furioso, portão afora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O lápis está na minha mão e a madrugada está alta. Será que morreu alguém? Qual será o nome dos meus vizinhos? Será que eles se incomodam do barulho que eu faço? Será que morreu alguém?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Decido que morreu a mãe dela. Ele está ansioso. Ela está sem muita reação, e buscou uma roupa e uma bolsa qualquer no cabideiro que eu imagino que o casamento guarde no canto do quarto, e abandonou a cama desarrumada como imagino que ela nunca a abandone. Ele só pensa em decidir, em ligar o carro e ir para algum lugar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele age por instinto, não por sentimento. Ela agora deve estar em silêncio, gelada e branca, no banco do passageiro, enquanto ele leva uma multa que vai ser difícil de pagar por causa das despesas do enterro. Ela nunca se sentiu tão perdida. Ele nunca amou tanto a esposa como naquele momento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O silêncio volta. Eles já devem estar longe, agora. Espero que ela se sinta melhor, amanhã. Que daqui a pouco ela consiga quebrar o choque e chorar. E que ele consiga apertar o corpo dela contra o seu, como quem diz "Se pudesse, te engoliria e você não sofreria mais, e o meu calor seria o teu calor e não sofrerias mais". &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Será que a morte é urgente? A sogra (dele) já está num sono profundo. A cama metálica da geladeira do hospital, sabendo que ela não está olhando, deve estar preparada para voar sobre o mundo. Se ainda a mãe (dela) pudesse abrir os olhos, faria a cama pousar, mas não é mais capaz. A morte é a coisa mais urgente que existe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E nessa urgência, adormeço.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7293044-5088014464554632707?l=comentariosabertos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://comentariosabertos.blogspot.com/feeds/5088014464554632707/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="https://www.blogger.com/comment.g?blogID=7293044&amp;postID=5088014464554632707&amp;isPopup=true" title="3 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default/5088014464554632707" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default/5088014464554632707" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://feedproxy.google.com/~r/comentarios/~3/dJHV4coNIxU/os-vizinhos.html" title="Os vizinhos" /><author><name>Flávio Voight</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01332506726484047289</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd="http://schemas.google.com/g/2005" name="OpenSocialUserId" value="05712358080031572323" /></author><thr:total xmlns:thr="http://purl.org/syndication/thread/1.0">3</thr:total><feedburner:origLink>http://comentariosabertos.blogspot.com/2009/11/os-vizinhos.html</feedburner:origLink></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7293044.post-1829060639895534629</id><published>2009-11-23T03:04:00.000-02:00</published><updated>2009-11-23T03:05:04.476-02:00</updated><title type="text">Aos meus treze anos</title><content type="html">Sabe aqueles sonhos que você tem? O chato do tempo é que ele consegue dissolver a graça desses sonhos. Maturidade é isso, e ela nunca acaba. A cada ano você repete o ritual de achar o sonho anterior estapafúrdio. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o que é que decide por nós? A sorte. E não se preocupe, a sorte está do seu lado. Não na hora, não de um jeito que você bata o olho e diga "Veja só, quanta sorte!". Mas é aquela velha história do bordado, depois de um tempo a sorte explica como foi que aconteceu e como foi que aquilo foi melhor pra você.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas sabe a incerteza? Ah, querido. Ela nunca passa. &lt;br /&gt;Então. Sobre aqueles sonhos: não foram ainda. Talvez nunca venham a ser. Talvez venhamos a nos acostumar com isso (vamos ver daqui a alguns anos, na minha carta aos meus vinte e nove).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E quando o tempo passa e a gente está disposto a largar algumas mãos e segurar outras, simplesmente para largá-las depois, a gente aprende. E aprender é ótimo. O ruim é que é um conhecimento de dentro, de passado, completamente inútil para o presente. A gente pode acumular todo o conhecimento do mundo, mas quer saber? A gente nunca aprende. Nunca mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então não posso te dar conselhos. Só evite cortar o cabelo sozinho, você vai ver como fica a parte de trás daqui a algum tempo e passar vergonha retroativa. E não fume na frente dos outros, você ainda não sabe fumar. Quando aprender, vai passar vergonha retroativa. E punheta não dá espinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do eu,&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7293044-1829060639895534629?l=comentariosabertos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://comentariosabertos.blogspot.com/feeds/1829060639895534629/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="https://www.blogger.com/comment.g?blogID=7293044&amp;postID=1829060639895534629&amp;isPopup=true" title="0 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default/1829060639895534629" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default/1829060639895534629" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://feedproxy.google.com/~r/comentarios/~3/wxNs5FbNuY8/aos-meus-treze-anos.html" title="Aos meus treze anos" /><author><name>Flávio Voight</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01332506726484047289</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd="http://schemas.google.com/g/2005" name="OpenSocialUserId" value="05712358080031572323" /></author><thr:total xmlns:thr="http://purl.org/syndication/thread/1.0">0</thr:total><feedburner:origLink>http://comentariosabertos.blogspot.com/2009/11/aos-meus-treze-anos.html</feedburner:origLink></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7293044.post-454401172651329191</id><published>2009-11-17T17:02:00.000-02:00</published><updated>2009-11-17T17:03:08.597-02:00</updated><title type="text">Bárbara</title><content type="html">Bárbara sentava na minha frente, e tinha o sobrenome esquisito (vindo de um pai desconhecido). Era tão gordinha e esquisita quanto uma garota de sete anos pode ser. Eram os anos noventa, e ainda assim o cabelo dela era estranho. Crespo, grande, de um loiro que eu nunca tinha visto antes. Um loiro com vergonha de ser loiro. Um loiro que faria Marilyn Monroe sair correndo de medo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A santíssima trindade: Bárbara, Isabela e Fernanda. Loira esquisita, Morena magra demais e Loira que dá vontade de casar. A hierarquia era a seguinte: Fernanda seria a minha esposa-troféu. Todos os garotos da sala eram completamente enfeitiçados por ela e sua inocente propensão a nos castrar. Com a maturidade que eu tinha aos seis anos, era lógico que ela ia cair no meu papo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas se ela não caísse, e fosse acabar nos braços de um outro homem, um outro homem de seis anos muito mais rico, com muito mais Hot Wheels que eu, tudo bem. Isabela me adorava. Seu cabelo era liso e esnobe, preto como um pneu de Hot Wheels (perdoem minhas metáforas, eu só tinha seis anos de idade e uns cinco de poesia - aliás, é muito difícil arranjar uma rima para Hot Wheels).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enfim, Isabela era uma segunda opção simplesmente por Fernanda ser um avião, com sua beleza impossível de atingir. Uma miss em miniatura. Mas calma, estou me deixando levar pela emoção. O planejamento aqui deveria ser lógico. Então, na impossibilidade de Fernanda e eu casarmos antes de chegar a primeira série, Isabela seria o caminho a seguir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela era magra demais. Era a garota com os menores peitos do jardim de infância. Ela usava sutiã. Isso me irritava e atraía. Por debaixo do uniforme da escolinha, uns fiapinhos de tecido cor-de-rosa. Nunca entendi isso direito. O que mais me atraía em Isabela eram suas bonecas. Barbies. Barbies magérrimas como Isabela era.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas se Isabela e eu nos divorciássemos, eu sabia que Bárbara estaria me esperando. Gordinha, esquisita, loiro-urubu nos cabelos. Minha mãe era gorda, Bárbara era gorda e maternal (aliás, nossa relação começou no maternal mesmo). Bárbara era minha última opção, mas seríamos felizes juntos. Ela e seu amor por mim, eu e minha recém-adquirida humildade e renúncia pelos desejos por beleza exagerada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha única confidente nesses planos era Jandira, a empregada lá de casa, o carinho em forma de pessoa, pessoa em forma de rugas e pele maltratada. Jandira me esperava todos os dias com um copo de Nescau e um sorriso com dentes a menos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até o dia em que eu cheguei em casa e Jandira não estava lá. Minha mãe me explicou, enquanto eu olhava perplexo e também com dentes a menos, que o dinheiro estava difícil e que Jandira teve que ir pra outro lugar. Acho que mordi minha mãe, mas não lembro muito bem, tamanho o choque que levei com a notícia. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nada que abalasse meus planos de casamento com Fernanda, ou quem sabe Isabela, ou ainda Bárbara se tudo desse errado. Até o dia em que eu saí da escola e encontrei Jandira no portão. Ela tinha voltado! Corri para abraçá-la. Ela disse que estava com saudades e que sempre lembrava de mim no emprego novo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O emprego novo? Bárbara correu portão afora, também para os braços de Jandira. Mulher venenosa, tinha roubado minha babá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acho que foi por aí que eu me apaixonei.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7293044-454401172651329191?l=comentariosabertos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://comentariosabertos.blogspot.com/feeds/454401172651329191/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="https://www.blogger.com/comment.g?blogID=7293044&amp;postID=454401172651329191&amp;isPopup=true" title="1 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default/454401172651329191" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default/454401172651329191" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://feedproxy.google.com/~r/comentarios/~3/Ap6E731a1sQ/barbara.html" title="Bárbara" /><author><name>Flávio Voight</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01332506726484047289</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd="http://schemas.google.com/g/2005" name="OpenSocialUserId" value="05712358080031572323" /></author><thr:total xmlns:thr="http://purl.org/syndication/thread/1.0">1</thr:total><feedburner:origLink>http://comentariosabertos.blogspot.com/2009/11/barbara.html</feedburner:origLink></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7293044.post-2080247305211650240</id><published>2009-11-14T12:55:00.000-02:00</published><updated>2009-11-14T13:04:11.004-02:00</updated><title type="text">A óbvia porta</title><content type="html">Assustado, ele me perguntou:&lt;br /&gt;- Como você sabe que eu sou gay?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pensei em uma forma de explicar.&lt;br /&gt;- Como você sabe que uma porta é uma porta?&lt;br /&gt;- Basta olhar para ela. &lt;br /&gt;- Então.&lt;br /&gt;- Não pode ser tão óbvio. Eu não sou tão óbvio. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As feições masculinas estavam lá, a voz grossa, os pêlos. A chucrice. Mas eu conseguia enxergar, eu conseguia enxergar.&lt;br /&gt;- Olha essa porta - e apontei a porta de saída.&lt;br /&gt;- O que tem?&lt;br /&gt;- Ela é da cor da parede. &lt;br /&gt;- Sim?&lt;br /&gt;- Ela está na mesma linha reta que a parede.&lt;br /&gt;- Não estou te entendendo.&lt;br /&gt;- Ela está pregada na parede, pelo amor de deus. &lt;br /&gt;- Onde você quer chegar com isso?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Arrematei:&lt;br /&gt;- Ela continua sendo uma porta. Uma óbvia porta. Por mais que tenha tudo pra se confundir com a parede;&lt;br /&gt;- Eu não sou uma porta.&lt;br /&gt;- Porque não se deixa abrir. Mas deixa eu te dizer uma coisa, meu amigo: uma porta fechada perde completamente a utilidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aí a gente fodeu.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7293044-2080247305211650240?l=comentariosabertos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://comentariosabertos.blogspot.com/feeds/2080247305211650240/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="https://www.blogger.com/comment.g?blogID=7293044&amp;postID=2080247305211650240&amp;isPopup=true" title="5 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default/2080247305211650240" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default/2080247305211650240" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://feedproxy.google.com/~r/comentarios/~3/0D5tZ90A6k8/obvia-porta.html" title="A óbvia porta" /><author><name>Flávio Voight</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01332506726484047289</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd="http://schemas.google.com/g/2005" name="OpenSocialUserId" value="05712358080031572323" /></author><thr:total xmlns:thr="http://purl.org/syndication/thread/1.0">5</thr:total><feedburner:origLink>http://comentariosabertos.blogspot.com/2009/11/obvia-porta.html</feedburner:origLink></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7293044.post-3040147343813740983</id><published>2009-10-07T23:49:00.000-03:00</published><updated>2009-10-07T23:52:37.417-03:00</updated><title type="text">O Rei do Penico</title><content type="html">A vida era uma linda sucessão de descobertas divertidas até o momento da descoberta não-divertida que me mudou a vida: do alto do meu penico, eu dominava o mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só podia, só assim se explicava a aflição da minha família para que eu saísse dali: minha mãe, meu pai, minha avó, todos suplicantes, ajoelhados, falando "Vamos lá, campeão, você consegue! É só empurrar!". Isso no começo, lógico. Depois de alguns minutos de insistência, porém, não suportavam mais o meu olhar condescendente de quem manda, e tentavam usar de tirania. "Se você não fizer agora e quiser vir depois, eu não te trago!".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bobagem deles. Era eu quem fazia as regras do jogo. Não me levavam depois? Tudo bem. Mas no momento que me esquecessem sem fralda, era a hora do ataque. Bombardeio químico. Não me importava em nada com o trabalho que eles (eles, o inimigo) teriam para lavar minhas calçolas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O poder traz desafios, meus caros. Mas eu sempre fui meio Napoleão do meu bumbum, e conquistava outros territórios. Não me bastava o penico. Eu queria o mundo. O tapete de sala. O vaso de plantas na sala de jantar. Nenhuma terra era impossível para o meu domínio. Só não atingi outros continentes por uma questão de logística.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aliás, talvez não tenha conquistado outros continentes por uma questão de incontinência, mesmo. Quem diria que contrair o esfíncter seria tão difícil. Tudo bem, eu sou persistente. Mamãe implora para que eu vá. Não vou. Um bom governante sabe resistir aos apelos do povo, quando estes não lhe são interessantes. Com toda a segurança do mundo, eu seguro.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É difícil a ponto de deixar escapar uns punzinhos, e quem não deixa? Mas eu no máximo disfarço com um sorriso besta - não tanto pelo pum, mais pelo rosto esperançoso de mamãe, que esperava uma manifestação mais concreta do meu poderio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas tudo na vida muda e, talvez por alguma atitude relapsa no meu governo, fui transferido para o vaso sanitário. Pensei ter sido promovido, mas, que nada. É um reino de vários reis. Sou um mero vassalo do meu intestino.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nada que tenha me irritado muito, até o dia em que mandaram que eu parasse de brincar com meu cetro na frente das visitas.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7293044-3040147343813740983?l=comentariosabertos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://comentariosabertos.blogspot.com/feeds/3040147343813740983/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="https://www.blogger.com/comment.g?blogID=7293044&amp;postID=3040147343813740983&amp;isPopup=true" title="3 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default/3040147343813740983" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default/3040147343813740983" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://feedproxy.google.com/~r/comentarios/~3/ZmY7KmaRIr4/o-rei-do-penico.html" title="O Rei do Penico" /><author><name>Flávio Voight</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01332506726484047289</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd="http://schemas.google.com/g/2005" name="OpenSocialUserId" value="05712358080031572323" /></author><thr:total xmlns:thr="http://purl.org/syndication/thread/1.0">3</thr:total><feedburner:origLink>http://comentariosabertos.blogspot.com/2009/10/o-rei-do-penico.html</feedburner:origLink></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7293044.post-579082868019638486</id><published>2009-09-11T16:18:00.000-03:00</published><updated>2009-09-11T16:19:15.630-03:00</updated><title type="text">Diesel</title><content type="html">Era um daqueles momentos em que você percebe que tem 19 anos e se sente velho. E se sente culpado por se sentir velho, sabendo que em cinquenta anos você vai olhar pra trás e rir do sentimento de agora. E talvez se sentir muito mais jovem do que você está se sentindo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pior de estar num momento ridículo é estar consciente do ridículo do momento. É como elevar o ridículo ao quadrado. Aí você apalpa o ridículo como se ele estivesse completamente fora de você, como se isso lhe excluísse dele, e tenta passar adiante ao próximo momento de sensatez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só que naquele dia, ele apalpou o ridículo, sentiu como o ridículo estava maduro, e tascou-lhe uma mordida. O fruto da árvore do conhecimento do que é ridículo. Naquele momento, apercebeu-se de como o ridículo era suculento. Se rendeu ao momento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Juntou umas poucas coisas e correu pra beira da estrada. Dedo esticado, mão balançando. Sabe por quê os caroneiros balançam a mão tão vigorosamente? Para não perceberem que tremem. O dedo esticado pra apontar o caminho que se finge saber. Ele não se dava conta do nervoso. Sabia do passo que estava dando. Sabia que podia ser assaltado, seqüestrado, assassinado. Estuprado não, porque no cu não passava uma agulha. Sabia que podia dar tudo errado. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas havia uma neblina de calma na sua vista que permitia seguir com o plano de viajar sem planos. Não precisou esperar muito: logo um caminhão encostou, com seu motorista barbudo de braço esquerdo vermelhíssimo, o olhar de quem não sabe o que é dormir direito. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Embarcou. Caroneiro inexperiente, pensou que precisava puxar assunto. Ainda não tinha se acostumado com a música da estrada, com a percussão dos pneus pulando nos buracos do asfalto. Com a poesia do cheiro de óleo diesel.&lt;br /&gt;- Tá quente, né?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O caminhoneiro se deixou levar pelo papo furado.&lt;br /&gt;- Pra caralho. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Muito comunicativo, ele. O caroneiro fez esforço:&lt;br /&gt;- Se bobear, chove no fim do dia.&lt;br /&gt;- Se bobear chove. - e coçou a barba.&lt;br /&gt;- Gosta de dirigir com chuva?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não teve resposta.&lt;br /&gt;- Gosta de dirigir com chuva?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais alguns segundos de silêncio, até que o caminhoneiro fez um movimento súbito e abraçou o volante com as mãos grossas. O caroneiro percebeu que não fazia sentido distrair um homem que já caía de sono e ainda dirigia. Tentou respirar um pouco daquela calma que sentiu antes da carona e ficou observando a estrada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E se tocou que o que fazia sentido ali era a estrada. Não eram as cidades pelas quais passaria, não eram as paisagens que encontraria. Era a BR, era o asfalto e o pó. Era o diesel. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Começou sem destino, esperando encontrar um no meio do caminho. Só pra perceber que destino é uma coisa completamente desnecessária. Descia aqui, chacoalhava a mão e subia em outro carro. Em outro caminhão. Em outra vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem ia de carro, sozinho, dava carona com um medo só superado pela solidão extrema que justificava parar e acolher um completo desconhecido. Algumas dessas pessoas até que queria que o desconhecido fosse malvado, queria sofrer uma malvadeza, só pra não precisar continuar enfrentando a estrada. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a cada carona ele explicava, sem precisar de mais do que olhar pra frente, que a estrada era cheia de ensinamentos. Não uma professora, professoras mastigam demais. A estrada era um livro. E ele era um autodidata da estrada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E foi vivendo desse jeito: sem parar em lugar nenhum, só em movimento. Faixas brancas e amarelas que se sucediam sem fim. A cada dia percebendo como foi ingênuo no dia anterior.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A insensatez que deu início à viagem fez sentido. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Morreu um tempo depois, num acidente. Rosto e asfalto próximos e espalhados, como se fossem uma coisa só. Como um amante que morre num momento de clímax. Não chegou a experimentar a velhice, e nunca mais se sentiu velho, a estrada não envelhece. No fundo da boca esmagada, um gostinho de ridículo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A estrada sentiu saudades, mas seguiu em frente.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7293044-579082868019638486?l=comentariosabertos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://comentariosabertos.blogspot.com/feeds/579082868019638486/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="https://www.blogger.com/comment.g?blogID=7293044&amp;postID=579082868019638486&amp;isPopup=true" title="5 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default/579082868019638486" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default/579082868019638486" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://feedproxy.google.com/~r/comentarios/~3/Qu7bariULSw/diesel.html" title="Diesel" /><author><name>Flávio Voight</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01332506726484047289</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd="http://schemas.google.com/g/2005" name="OpenSocialUserId" value="05712358080031572323" /></author><thr:total xmlns:thr="http://purl.org/syndication/thread/1.0">5</thr:total><feedburner:origLink>http://comentariosabertos.blogspot.com/2009/09/diesel.html</feedburner:origLink></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7293044.post-3371079551041113006</id><published>2009-08-11T16:51:00.000-03:00</published><updated>2009-08-11T16:52:16.555-03:00</updated><title type="text">Farinha</title><content type="html">Estou sendo perseguido. Eu vejo minha sombra e eu vejo minha imagem espelhada nos vidros, e eu sei que isso me persegue. Eu lembro da minha família, ela também me persegue.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O meu futuro me persegue muito. Ele me caça, ele quer me ver morto. Ele quer repetir a história desgraçada de tanta gente que veio antes. Gente que fez rimas bonitas e que trabalhou das oito às seis, e que recebia salário e que se preocupava com o que os outros pensavam. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Viraram todos farinha. A farinha me persegue. A farinha quer me alimentar, quer que eu vire tão pó quanto eles. Não existe forma de fugir do pó, mas dos pós que eu possa ser, que não me torne farinha. Que seja cocaína, que seja glitter. Que seja proibido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A atmosfera é azul e etérea, nublada com suspeita e ingenuidade. Eu estou escondido em uma casa abandonada, porque estou sendo perseguido. Aqui, debaixo dessa mesa, estou seguro. (Não seguro do que me persegue, mas seguro do que eu penso. É como dormir assustado com um ladrão querendo pular a janela, eu puxo o cobertor o mais alto possível e escondo o rosto. Eu me rendo, eu combino com o ladrão "Venha aqui, roube o que quiser, eu finjo que estou dormindo e você não me mata, e finge que acredita no meu sono e finge que não ouve os meus soluços",) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu me obrigo a ficar coberto, eu não posso ser visto. Eu estou sendo perseguido, bolas. O céu está lá fora, e está doido pra me atacar. Ele quer me arrancar pedaços, ele quer que eu ache as estrelas bonitas como todos os mortais acham. Não vou achar, As estrelas são feias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As estrelas são poucas, elas não são suficientes, elas não me impressionam. Elas mal brilham. Elas não me impressionam. Eu não sou mortal, eu não me impressiono com as estrelas. As estrelas são repetitivas, elas não podem me hipnotizar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por não ser mortal me escondo, por não ser mortal me protejo. Estão me perseguindo e querem me matar.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7293044-3371079551041113006?l=comentariosabertos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://comentariosabertos.blogspot.com/feeds/3371079551041113006/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="https://www.blogger.com/comment.g?blogID=7293044&amp;postID=3371079551041113006&amp;isPopup=true" title="4 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default/3371079551041113006" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default/3371079551041113006" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://feedproxy.google.com/~r/comentarios/~3/mgNLPRgMYVc/farinha.html" title="Farinha" /><author><name>Flávio Voight</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01332506726484047289</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd="http://schemas.google.com/g/2005" name="OpenSocialUserId" value="05712358080031572323" /></author><thr:total xmlns:thr="http://purl.org/syndication/thread/1.0">4</thr:total><feedburner:origLink>http://comentariosabertos.blogspot.com/2009/08/farinha.html</feedburner:origLink></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7293044.post-1547597046797355939</id><published>2009-07-28T03:31:00.002-03:00</published><updated>2009-07-28T03:34:07.751-03:00</updated><title type="text">Hortelã para Cristo</title><content type="html">E fui tentando fazer as coisas de sempre de um modo diferente. De algum modo inspirado na minha superstição de coisas pequenas - grudar chiclete na cruz é comigo mesmo, mas e se ontem eu grudei um chiclete vermelho nela e fui assaltado? Hoje, só pra garantir, vou grudar um verde. Hortelã para Cristo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É como começar um texto pelo título: os títulos são rígidos, os textos são fluidos. Toda a fluidez do texto precisa se ancorar na rigidez do título. Palavras lânguidas, períodos infindáveis, emoções impossíveis de descrever descritas palavra por palavra só por presunção de quem escreve? Prenda-as a um título sórdido e tudo está remediado. Em algum lugar se cria uma ironia que justifica qualquer baboseira dita.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deu certo? Repita o chiclete verde na cruz. Deu certo duas vezes, na terceira não? Veja, é preciso saber construir superstições. O que mudou de um dia pro outro que você não achou interferir? Alguma coisa interferiu. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fez sexo oral no dia anterior? O chiclete tem o efeito diferente nesse caso. Você grudou o chiclete na cruz de cima para baixo ou de baixo para cima? Importantíssimo. Guarde os detalhes, boas superstições se fazem nos detalhes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tente jogar uma pedra num gato preto na minha frente pra ver se eu não te atiro uma pedra bem maior, na nuca. Superstições não podem envolver animais. Mantenha-se em detalhes que não possuem vida. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Medo de ser assaltado? Logo antes de passar pelos dois simpáticos meninos maltrapilhos que te esperam com a mão no bolso na esquina, faça quatorze minissinais-da-cruz com o indicador da mão direita em uma pequena superfície do seu corpo. Mantenha a discrição. Cuidado, fazer quatorze minissinais com o fura-bolo pode ser fatal. Fazer catorze minissinais, o apocalipse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Não precisa ser cristão para fazer o ritual. Dispa-se dos seus preconceitos religiosos, estamos falando de segurança pública!)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um bom sistema de compensação é muito importante. Quando desequilibrar as suas energias com uma superstição mal executada, seja ligeiro em repará-la com alguma ação semelhante, mas de valor contrário. Explico: Durante um minissinal-da-cruz, você topou com o pé esquerdo no meio fio. O que fazer? Dê um jeito de topar também o pé direito. Da mesma forma, na mesma intensidade. Outro minissinal (agora sim, com o indicador da mão esquerda, pra contrabalançar), e volte ao ritual anterior.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acumulo milhões dessas superstições pequenininhas. Já me disseram que eu tenho TOC. Eu respondi '-TOC, quem é?'. Só pra completar a frase. Pra bom entendedor, meia palavra basta. Para um supersticioso, nada de deixar a frase pela metade. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Me ocorre também que grudar chicletes na cruz pode ser uma ótima maneira de utilizar chicletes mascados, inúteis para reaproveitamento ou reciclagem. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Pequena pausa pra contar de uma vez que fui a um restaurante árabe e fui recomendado pelo dono do estabelecimento a comprar um chiclete sabor pimenta, que segundo ele era uma maravilha. Obedeci e adorei, adoro pimenta. Também segundo o dono, se eu guardasse o chiclete enrolado num papelzinho na geladeira, no dia seguinte o sabor voltaria. Fiz a experiência - o gosto não voltou. Árabe também entra no balaio popular de que judeu é pão-duro? Será melhor corrigir a fala popular e mudar nosso preconceito para 'proveninente do oriente-médio pão-duro'? É importante no Brasil de hoje termos preconceitos que não sejam limitados por fronteiras.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Retomando minha teoria: grudando todos os nossos chicletes mastigados em cruzes, formaríamos gigantescas cruzes. Um símbolo da nova cultura brasileira. A fé, a fé de Aleijadinho, a fé dos nossos artistas interioranos desconhecidos, a fé nas megacruzes de chiclete. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Servem de ponto turístico e pra contrabalançar os minissinais-da-cruz que eu faço cada vez mais, com medo de ser assaltado.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7293044-1547597046797355939?l=comentariosabertos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://comentariosabertos.blogspot.com/feeds/1547597046797355939/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="https://www.blogger.com/comment.g?blogID=7293044&amp;postID=1547597046797355939&amp;isPopup=true" title="1 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default/1547597046797355939" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default/1547597046797355939" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://feedproxy.google.com/~r/comentarios/~3/WGAeNBcCXrE/e-fui-tentando-fazer-as-coisas-de.html" title="Hortelã para Cristo" /><author><name>Flávio Voight</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01332506726484047289</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd="http://schemas.google.com/g/2005" name="OpenSocialUserId" value="05712358080031572323" /></author><thr:total xmlns:thr="http://purl.org/syndication/thread/1.0">1</thr:total><feedburner:origLink>http://comentariosabertos.blogspot.com/2009/07/e-fui-tentando-fazer-as-coisas-de.html</feedburner:origLink></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7293044.post-2360436665724225323</id><published>2009-07-15T11:11:00.001-03:00</published><updated>2009-07-15T11:11:41.033-03:00</updated><title type="text">A Gorda</title><content type="html">Como quem descascava uma mexerica, a gorda procurava amor. Pedacinho por pedacinho da casca rasgada e arrancada, a acidez sentida por debaixo das unhas, a avidez de engolir os gomos. A gorda era gorda de tanto amor que tinha para dar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se apaixonava, vez em quando. Por alguém acessível, ninguém que fosse fora de seu alcance (não há limites pra sonhar? experimente ser gorda e sonhar com um namorado lindo como o da sua amiga magra). É como se as pessoas se separassem em camadas de beleza, tolerando pessoas de nível semelhante, ignorando os intocáveis feios e fingindo não sonhar possuir alguém superior.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem hipocrisia, sem essa de todos somos iguais. Alguém mais feio que você tem chance contigo? Honestamente? Sem ter muitos dígitos na conta bancária? E esse era o problema da gorda, ela não sabia fingir. Não sabia fingir que não queria aquelas pessoas tão inalcançáveis, as bonitas. Não ousava quebrar as regras, ela não interagia com os mais bonitos - eles a excluiriam. Até as amigas, as amigas eram todas tão feias quanto. A diferença da gorda para com as amigas - algumas também gordas - era que ela não aceitava a própria camada. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os bonitos são os magros, não são? Ela não era magra. Os bonitos são os magros, não são? As amigas tinham namorados feios. A gorda não queria um namorado feio. Qual o sentido de namorar se não o de contemplar uma beleza, mesmo que só você a veja, na outra pessoa? E a gorda, azarada. só via a beleza no que todos concordavam ser belo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na casa da gorda, dois cachorros. Um era de raça, um amor. Brincava, corria, uma simpatia, não havia quem não gostasse. O outro, vira-lata, fora socorrido pela família depois de ser atropelado e que, por esquecimento, acabou ficando ali mesmo. Um poço de carência, o vira-lata. Chorava alto, pulava em qualquer um que chegasse perto, implorava atenção. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A gorda amava o de raça sinceramente, porque este se fizera amar. O vira-lata era desprezado pela família inteira, mas a gorda também o amava. Por obrigação. Os olhos pedintes do vira-lata refletiam o olhar desesperado por amor da gorda. Era uma corda-bamba, porque se identificar com um vira-lata carente não é tão gostoso assim: ela odiava o vira-lata, quando esquecia que devia amá-lo. Cachorro mais insolente, chato, pidão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tinha um amor que amava há algum tempo, porque de vez em quando a gorda via beleza em alguém do seu mesmo nível, sem perceber que caía na armadilha em que suas amigas já haviam caído. Só um. Ele era magro, e ela amava isso a respeito dele. Tinha um corpo quase bonito, uma postura quase elegante. O rosto era um desastre, mas até que os dentões tinham seu charme. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Conheceram-se num ônibus, que ela pegou pra ver uma tia no interior. Os dois sentaram lado a lado e ele ousou puxar papo. Pouco depois, consumida por desejo e vontade de transigir, ela se entregou pela primeira vez ali mesmo, o banco de ônibus testemunha de umas poucas gotas de sangue e alguns gemidos abafados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Trocaram telefones, mas nunca voltaram a se encontrar. Conversavam longamente ao telefone, fantasiando um reencontro. Combinaram casar. Combinaram que começariam uma vida juntos, e ela levaria o vira-lata (até os vira-latas merecem um dia de protagonista). Com o tempo as ligações foram ficando esparsas, e eles se perderam numa curva que a vida deu. Coincidências não resistem ao destino.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mesmo muito depois, ela se lembrava. Ela não foi ignorada. Ela não foi sempre só a gorda. Ela foi amada. (Se ele realmente a amou, não importa. Talvez tenha amado. De qualquer forma, a gorda acreditava sinceramente nas memórias).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando, depois disso, recebia uma proposta amorosa de alguém, a resposta padrão era não. O amor - que ela já tinha experenciado, pensava - aparece, ele não precisa de propostas. Ah, e quando ele aparece são horas no telefone contando todos os defeitos que tem, pra que o outro diga "Você não é assim" e você sobe às nuvens, estufado pelas ilusões macias que ouviu. O outro, coitado, pensa que você é perfeito. Você, esperto, sabe que o outro é perfeito, e de todas as formas tenta evitar que ele descubra suas verdadeiras imperfeições.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi visitar a tia novamente, muitos anos depois. A tia não tinha importância na sua vida, era só uma tia, e a gorda não se importaria se ela fosse só mais uma tia no porta-retratos da estante. Era a viagem que tinha valor, as horas no ônibus lembrando da sensação de roçar silenciosamente no banco suado, a vez que fora amada. A única vez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na casa da tia, abriu um jornal esperando que o dia passasse rápido, para entrar no ônibus novamente. Na coluna social, o garoto do ônibus casando com uma outra mulher. Ainda mais gorda. A gorda se sentiu traída. "Tudo bem que eu não sou tudo isso, mas me trocar pela ainda mais gorda?". Era pior que traição, era trair e humilhar. Chorou no banheiro, enquanto passava grossas camadas de batom nos lábios gordos, tentando parecer revigorada. Ficou parecendo uma palhaça, os olhos vermelhos combinando com a boca. A palhaça mais triste que já fora vista.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voltou para casa, com nojo do ônibus, um enjôo horrível que insistia em fazê-la suar no banco, lembrando-a mais ainda do dia em que fora usada (não, não fora amada, pensava ela, fora usava, roubada, profanada); Chegando, foi cumprimentada alegremente pelo cachorro de raça. A gorda se ajoelhou, olhou para os seus olhos orgulhosos de cão comprado, encheu-se de raiva e atacou o cachorro com um soco. Soco mesmo, desses dados em cara de gente. Com força, bem no focinho idiota do cachorro. Como era arrogante! Pois era só um cachorro, não devia ser arrogante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto olhava o cachorro de raça tentar, perplexo, se reerguer, sentiu uma forte dor no braço. Era o vira-lata, com olhos de fúria que ela nunca tinha visto antes, defendendo o amigo. Puxou o braço, e o vira-lata parecia ter voltado ao normal, pidão e carente, como se nada tivesse acontecido. Abanava o rabo e chorava, o pênis exposto pelo cio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A gorda cobre o braço como pode, algum sangue escorre. A mordida não fora tão profunda. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Puxou o vira-lata direto pelo pescoço, sem o levantar do chão, e o trouxe para dentro da casa. Era a primeira vez que entrava na casa, lugar antes reservado para as pessoas e cachorros de raça.  Foram para o quarto. O cachorro assustado, tentava acompanhar a velocidade da dona, mas as patas não conseguiam direito e ele era arrastado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela chorava. As lágrimas escorriam pelo canto dos olhos vermelhos inchados, lambiam suas bochechas vermelhas e gordas e morriam nos lábios, borrando o batom em sua boca vermelha e pintando de vermelho também seu queixo (o primeiro de seus vários queixos de gorda).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembrou dos doze anos de idade. Na escola, escutou sem querer um professor dizendo "Coitada dela, ela tem um rosto tão bonito, pena que é gorda". Nunca ouviu alguém falar "Coitada de fulana, tem um rosto tão bonito, pena que ela é magra demais". Gordas sempre tem o rosto bonito. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Arrancou as roupas do corpo e puxou o vira-lata para cima de si. O cachorro, instintivo, penetrou-a com força. Ela gritou de dor. Ela também não entendia. O cachorro assustado com a atenção inesperada e com o grito da dona, chorava. A gorda, sem condições de pensar, gemia. Sentia nas canelas gordas que quase não existiam (pareciam uma extensão das coxas, que só terminavam em pés enormes e roliços que lembravam patas de elefante) o peso das patas do cachorro, o pêlo sarnento dele se misturando com a pele dela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O cachorro é o melhor amigo do homem, e ela estava confusa por misturar amor e amizade. Ele, chorão e carente. Ela, chorona e carente. Almas gêmeas. Pela segunda vez, a gorda foi amada. O amor de um cão é sempre fiel.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7293044-2360436665724225323?l=comentariosabertos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://comentariosabertos.blogspot.com/feeds/2360436665724225323/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="https://www.blogger.com/comment.g?blogID=7293044&amp;postID=2360436665724225323&amp;isPopup=true" title="6 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default/2360436665724225323" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default/2360436665724225323" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://feedproxy.google.com/~r/comentarios/~3/q_RcaVkjB8A/gorda.html" title="A Gorda" /><author><name>Flávio Voight</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01332506726484047289</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd="http://schemas.google.com/g/2005" name="OpenSocialUserId" value="05712358080031572323" /></author><thr:total xmlns:thr="http://purl.org/syndication/thread/1.0">6</thr:total><feedburner:origLink>http://comentariosabertos.blogspot.com/2009/07/gorda.html</feedburner:origLink></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7293044.post-4247282363045098622</id><published>2009-07-09T23:43:00.001-03:00</published><updated>2009-07-09T23:43:33.987-03:00</updated><title type="text">O inferno</title><content type="html">Eram duas mil pessoas dentro de um ônibus (pelo menos era apertado como se fossem. Se alguém soltasse um pum ali, ele voltaria cu adentro procurando um lugar mais agradável pra poder respirar). Se a voz do povo é a voz de Deus, naquele momento Deus resmungava: &lt;br /&gt;- Puta que pariu! Deus me livre do valor dessa passagem, alguém aí começa a andar! tem gente passando mal por aqui, faz favor! O preço da passagem tão alto e a gente se espremendo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O homem mal conseguia puxar o ar. Sorte ter o pescoço comprido e estar num patamar superior ao resto das pessoas. Era como se conseguisse enxergar o ar ficando turvo de tanta gente querendo respirá-lo. Ironicamente, as janelas estavam todas fechadas, vedando a possibilidade de um ventinho resgatador chegar para debochar do aperto daquela gente. Era tanta gente num lugar só, que se ele desse um pulinho, não voltaria a tocar os pés no chão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Criança chorando. (Devia ser uma criança invisível, o choro era abafado e ela não parecia estar em lugar nenhum. Quem sabe seguiu o exemplo do pum e engatinhou vagina adentro na mãe, lutando por um lugar mais confortável; como se ouvia o choro não sei, quem sabe era uma vagina de boa acústica.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chuva do lado de fora. A mesma chuva que o fez pegar o ônibus naquele dia, pra não se molhar. A fila pra entrar no ônibus era enorme, e ele se molhou mesmo assim. Pelo menos chegaria mais cedo em casa. Mão no bolso de trás, pra segurar a carteira. Não dá pra dar bobeira nos dias de hoje.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Parecia um auto-pervertido, um masturbador da mão na bunda. Enquanto o companheiro do lado aproveitava do pouco espaço pra se esfregar na bunda senhoril que o sucedia (sem perceber que um outro companheiro atrás se esfregava na sua), ele apertava forte a mão na bunda. Quase dez reais e um xerox autenticado da carteira de identidade na carteira, ele não podia se dar ao luxo de ser roubado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O bom da superlotação de um ônibus é que se quebra um pouco do gelo que os ônibus geralmente têm. Ônibus pode ser mais frio do que um elevador, porque elevadores não envolvem competição. Ônibus são as olimpíadas da frieza. Ninguém olha no olho de ninguém - maldito aquele que inventou as cadeiras de frente uma para a outra, forçando que o passageiro fique olhando para o lado pra não precisar fingir um meio-sorriso quando os olhos por acaso encontrarem o do passageiro que senta à sua frente. Ônibus apertado é a iluminação espiritual, uma aglomeração de almas capaz de superar qualquer procissão. E todo mundo pede pelo amor de deus por um espacinho a mais. É a definição mais perfeita de fé. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Por exemplo, a fé de se conseguir espremer até a porta quando se chega no ponto de descida. Comece três quilômetros antes, puxe a cordinha assim que o ônibus passar do ponto anterior e torça, reze, dê a luz ao seu próprio menino Jesus, e ainda assim corra o risco de não conseguir descer no seu ponto.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele sorriu. Ele não ligou pra mão que lhe beliscava o rim (ou era a costela de outra pessoa, mas que cutucava, cutucava). Ele não ligou pro congestionamento que o fez demorar mais para chegar em casa do que se tivesse ido à pé. Ele não ligou pela loucura financeira que cometia pagando o passe do ônibus quando poderia muito bem ter caminhado aquelas setenta e cinco quadras e ainda queimado umas calorias. Ele não ligou pra nada. Só segurou bem a mão na própria bunda, e enfrentou o ônibus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando desceu, sentiu a própria calça cair. &lt;br /&gt;- Puta que pariu, alguém arrancou meu botão!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ônibus são o inferno.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7293044-4247282363045098622?l=comentariosabertos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://comentariosabertos.blogspot.com/feeds/4247282363045098622/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="https://www.blogger.com/comment.g?blogID=7293044&amp;postID=4247282363045098622&amp;isPopup=true" title="2 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default/4247282363045098622" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default/4247282363045098622" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://feedproxy.google.com/~r/comentarios/~3/kR5vYFfgv5s/o-inferno.html" title="O inferno" /><author><name>Flávio Voight</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01332506726484047289</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd="http://schemas.google.com/g/2005" name="OpenSocialUserId" value="05712358080031572323" /></author><thr:total xmlns:thr="http://purl.org/syndication/thread/1.0">2</thr:total><feedburner:origLink>http://comentariosabertos.blogspot.com/2009/07/o-inferno.html</feedburner:origLink></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7293044.post-3494350312582463890</id><published>2009-06-14T00:55:00.001-03:00</published><updated>2009-06-14T00:59:24.226-03:00</updated><title type="text">O Fruto</title><content type="html">Primeiro eu falava mais do que devia, pois era exatamente isso que eu devia fazer. Me conduzi a um estado de ignorância fingida que de tão bem fingida passou a ser ignorância verdadeira. A ignorância sempre é verdadeira, a ignorância contém a verdade e só conhece a verdade quem é ignorante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De tão bem fingido, ignorei a minha ignorância, incapaz de saber que tudo em mim já era perfeito como podem ser perfeitas as coisas feitas de barro e sopro divino que andam distraídas pelo planeta. E me acreditei errado. Pela palavra, tornei-me imperfeito - comi o fruto da palavra, que me deu a capacidade de enxergar o bem e o mal - Bem e Mal não existem, esse é o grande pecado, a alucinação original de que algo pode existir e ser errado ao mesmo tempo. Não existe errado na existência, errado é não existir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entorpecido pelo fruto, tentei corrigir meus pretensos erros calando a minha boca, tão acostumada a falar demais. O problema de acreditar em erro é que também se começa a acreditar em correção, e é impossível corrigir o que nunca foi errado. Fingi ser o que não era (pois o que eu era não podia ser divino, era falho e fraco e humano), e de tão bem fingido, calei mais que a minha boca: calei minha capacidade de falar e me retornar, cego, à ignorância.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como numa máquina de escrever, bati na mesma tecla mil vezes. O erro já estava lá, pintado na folha, mas eu insisti em bater em outra tecla, repetidamente, com a força que angústia dá, borrando outra letra no lugar da original errada. Por mais errada que fosse a folha original, era imaculada, e a correção só lhe manchou e enfeou. Fiquei manchado e enfeado eu mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A alucinação do fruto é persistente e contínua, e continuei a ver o erro em mim como algo a ser extirpado, arrancado como uma vesícula cheia de pedras. Agora, meu silêncio era o defeito. Me fingi espontâneo e cheio de coisas a dizer, mas não consegui fingir bem o suficiente. Abrindo a boca, escapava de mim o hálito podre do fruto da Árvore do Conhecimento. Em silêncio, era isolado do mundo. Falando, o mundo preferia isolar-se de mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A árvore que era do Conhecimento, não o fruto. Antes do fruto, nada era certo ou errado, tudo simplesmente era. Também não havia nada de errado no fruto em si, mas fomos incapazes de engolir o fruto por inteiro. Tudo era inteiro, antes da primeira mordida. Tudo era completo na sua objetividade. Mas não pudemos engolir o fruto por inteiro. Tivemos que rasgá-lo em pedaços, quebrar com os dentes a sua integridade, digerir nojentamente o que lhe compunha. Daí a ilusão. Do Conhecimento que originou o fruto, criou-se a ilusão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como fomos longe! O fruto proibido nos embriagou tanto que nos juntamos para corrigir os pretensos defeitos do mundo juntos, e passamos a dar sentido ao sentido dos outros - com a repreensão de quem não é capaz de olhar para si mesmo de tão embriagado - e nos enganamos de sentido, e fomos no sentido errado, e em vez de matar a ilusão, matávamo-nos uns aos outros. Queimávamos uns aos outros desejando queimar com eles o que estava queimando em nós, nos poucos momentos em que a realidade inicial, o Conhecimento, tentava brotar e dizer que tudo era ilusão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chegamos ao ponto de não saber viver sem o pecado. A alucinação foi tão longe que nos perverteu inteiros, e se não há religião, há o corpo que tenta se dizer imperfeito, e iludidos, tentamos curá-lo. Não há cura para o corpo. Não há correção. Não há melhora, porque não existe pecado. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O fruto se revira no meu estômago e tenta sair, tudo o que entra tenta sair - nem sempre consegue, somos todos prisões - e o vomito. Perdem-se os adjetivos, perdem-se os erros, perdem-se os nomes. Ganha-se um pouco de lucidez (o fruto já foi digerido em parte, já corre no meu sangue a maldição de querer nomear tudo como certo e errado, permitido ou não permitido). Minha consciência fica vaga e lenta, e estou absorvido em observar sem nomear o que vejo. O que vejo, aliás, agora faz parte de mim. Regrido a quando era perfeito (por desconhecer a alucinação do imperfeito), e tudo é uma coisa só. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas sou homem, e sou fraco, e estou sem alimento. Não conheço nada além do fruto. Me entrego a ilusão, viciado que sou. A fome me faz animal, desesperado por alimento a ponto de pular na jugular de qualquer coisa que passe a minha frente. Vou até a Árvore, tomo do fruto e dou mais uma mordida. Volto a falar mais do que devia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À espreita, uma serpente me sorri.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7293044-3494350312582463890?l=comentariosabertos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://comentariosabertos.blogspot.com/feeds/3494350312582463890/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="https://www.blogger.com/comment.g?blogID=7293044&amp;postID=3494350312582463890&amp;isPopup=true" title="9 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default/3494350312582463890" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default/3494350312582463890" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://feedproxy.google.com/~r/comentarios/~3/sSX3zcZQ08I/o-fruto.html" title="O Fruto" /><author><name>Flávio Voight</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01332506726484047289</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd="http://schemas.google.com/g/2005" name="OpenSocialUserId" value="05712358080031572323" /></author><thr:total xmlns:thr="http://purl.org/syndication/thread/1.0">9</thr:total><feedburner:origLink>http://comentariosabertos.blogspot.com/2009/06/o-fruto.html</feedburner:origLink></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7293044.post-2878132039145967636</id><published>2009-06-05T02:17:00.000-03:00</published><updated>2009-06-05T02:18:08.470-03:00</updated><title type="text">O velho Paço</title><content type="html">Ficava numa praça perdida entre outras tantas praças da grande cidade. Estava lá desde 1800 e qualquer coisa. O Paço era só mais uma construção antiga entre todas as outras que sobreviveram lá e cá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Viu gerações nascerem e morrerem. Recebeu tanta gente, no seu tempo áureo - disputadíssimo, local em que pessoas medíocres recebiam honras mais ou menos. Pessoas não tão importantes assim, que adoravam o sentimento de importância que vinha de estar nos seus salões.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perdeu a glória aos poucos. A sua imponência parecia zombar da sua inutilidade. A cidade se acostumou com o trambolho de concreto na praça. Construiu trambolhos maiores, que roubaram a importância do velho paço. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Recebia apenas a visita do vento frio que entrava por suas vidraças quebradas, que passava assobiando canções de abandono. Volta e meia abrigava um mendigo que conseguia dormir mesmo com o barulho e frio trazidos pelo vento. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Suas gigantescas paredes externas passaram a escorar prostitutas cansadas de se apoiar nos estreitos saltos durante a noite. Às vezes, recebiam a honra de um bêbado mijando. Ratos passavam por lá e cá, freqüentadores assíduos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Paço assistia. Viu pessoas brigando por coisas que também viu serem esquecidas. Viu, enojado, a pequena praça que lhe fazia companhia ganhar um calçamento feio de petit-pavet.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Viu as casas que lhe cercavam darem lugar a edifícios. Viu o tempo fazer seus remendos e estragos em tudo o que lhe rodeava - e em si mesmo. A paisagem mudou, mas permanecia o Paço, como um velho que não consegue morrer mesmo se sentindo um estorvo para os que ficaram. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até que um dia um pequeno visionário qualquer se compadeceu do Paço. Convenceu um, convenceu outro, e começou a restauração. As paredes de madeira podre, do lado de dentro, foram todas quebradas e reconstruídas com um tijolo fajuto, que daria um ar mais histórico. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Paço foi percebendo que era velho, não histórico. Pra ser histórico, precisava mudar. Viu suas lajes estupradas por encanamento e fiação elétrica. Viu as vidraças quebradas serem trocadas por outras de acrílico, semelhantes às antigas mas mais baratas. Recebeu pintura nova. Quadros valiosos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi reinaugurado com pompa. A iluminação nova foi caríssima, e o Paço nunca pareceu tão imponente - nem nos tempos em que era novidade. As pessoas que passavam por ali sem notar o velho, notaram o histórico. Abismadas. Tiravam fotos, achavam lindo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voltou a glória. Mas, embalsamado vivo, o Paço não achou mais nada. Ganhou a eternidade, pelo menos por algum tempo. Mas perdeu a alma.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7293044-2878132039145967636?l=comentariosabertos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://comentariosabertos.blogspot.com/feeds/2878132039145967636/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="https://www.blogger.com/comment.g?blogID=7293044&amp;postID=2878132039145967636&amp;isPopup=true" title="16 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default/2878132039145967636" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default/2878132039145967636" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://feedproxy.google.com/~r/comentarios/~3/WqXQ7P8Pou4/o-velho-paco.html" title="O velho Paço" /><author><name>Flávio Voight</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01332506726484047289</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd="http://schemas.google.com/g/2005" name="OpenSocialUserId" value="05712358080031572323" /></author><thr:total xmlns:thr="http://purl.org/syndication/thread/1.0">16</thr:total><feedburner:origLink>http://comentariosabertos.blogspot.com/2009/06/o-velho-paco.html</feedburner:origLink></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7293044.post-5706678855936082774</id><published>2009-06-01T17:14:00.000-03:00</published><updated>2009-06-01T17:15:35.653-03:00</updated><title type="text">Alerta Vermelho</title><content type="html">Alerta vermelho: comecei a pensar. Foi difícil tirar a nuvem que embaçava minha visão do que eu realmente pensava - desliguei-a lentamente. Preocupação, mandei embora. Meus pais, mandei embora. Senso comum, mandei embora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E estava limpo. Tirei tudo o que não era exatamente o que eu pensava. Arranquei o que me ensinaram a pensar. Cheguei aonde? No vácuo. Pôxa vida, eu não pensava nada por mim mesmo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tá certo, vou começar do zero. Olhar pra qualquer coisa e pensar sobre ela. Pensar de verdade, pensar por mim mesmo. Pensar. Olhei pra uma cadeira. Porra, por que é que sempre que eu olho pra alguma coisa aleatória procurando inspiração me aparece justo uma cadeira na frente?&lt;br /&gt;Mas tudo bem. Vou tirar meus preconceitos da cadeira. Às vezes ela tem uma tonelada de possibilidades de pensamento sentada nela e eu nem percebo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas se tiver uma tonelada de possibilidades na cadeira, ela não ia se espatifar? Não, não. Não tem possibilidade na cadeira. Quem sabe me sentando nela... Não, as possibilidades iam parar todas na minha bunda - e minha bunda não é tão fã de possibilidades.&lt;br /&gt;Melhor desistir da cadeira. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um cachorro late, lá fora. Boa idéia, vou pensar sobre o cachorro. Cachorro. Quatro patas. Mamífero. Não, isso não é pensar, isso é acumular informações. Vamos lá, pensar. Pensando. Cachorro. Porra, maldito cachorro que não pára de latir. Não consigo pensar com esse barulho todo. A natureza foi planejada pra me impedir de pensar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Será que existe deus? Se existe, garanto que ele não quer que eu pense. Nem vou entrar nos méritos de religião (se bem que, tem lugar melhor pra pensar do que na igreja? Não em coisas filosóficas, mas eu tenho uma teoria que diz que as igrejas são o melhor lugar possível pra se fazer uma lista de supermercado). Então, se existe deus, por que ele fez um cachorro que late tanto? Por que ele fez o Faustão, aliás?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Espera aí, se o Faustão apareceu na minha cabeça, é porque eu não estou pensando direito. Vou esquecer o Faustão. Sai, Faustão, sai. Quem sabe se esse maldito cachorro parasse de latir, eu conseguiria esquecer o Faustão.&lt;br /&gt;Se o Faustão sentasse nessa cadeira, certeza que ela espatifaria. Certeza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por que eu tô imaginando o Faustão latindo na minha cadeira? Não é uma imagem bonita. Daqui a pouco aparece a Leonor Corrêa e eles começam a uivar, aposto. Por onde anda a Leonor Corrêa?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chega. Chama a nuvem de novo. Alerta vermelho: desisti de pensar. Onde eu posso comprar uma Veja aqui perto?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7293044-5706678855936082774?l=comentariosabertos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://comentariosabertos.blogspot.com/feeds/5706678855936082774/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="https://www.blogger.com/comment.g?blogID=7293044&amp;postID=5706678855936082774&amp;isPopup=true" title="20 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default/5706678855936082774" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default/5706678855936082774" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://feedproxy.google.com/~r/comentarios/~3/gQHWoXEdLSk/alerta-vermelho.html" title="Alerta Vermelho" /><author><name>Flávio Voight</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01332506726484047289</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd="http://schemas.google.com/g/2005" name="OpenSocialUserId" value="05712358080031572323" /></author><thr:total xmlns:thr="http://purl.org/syndication/thread/1.0">20</thr:total><feedburner:origLink>http://comentariosabertos.blogspot.com/2009/06/alerta-vermelho.html</feedburner:origLink></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7293044.post-7671083256483784084</id><published>2009-04-27T00:32:00.001-03:00</published><updated>2009-04-27T00:32:42.639-03:00</updated><title type="text">Fagocitose</title><content type="html">Arre, estou farto de gente normal. Também não quero semideuses. Quero demônios por inteiro, pessoas sem medo da própria humanidade. Quero a minha porcentagem de toda a matéria negra que é maioria no universo. Quero poder vampirizar os meus demônios, sugar sua vulgaridade doce, a doçura que aprendemos a banir de nós mesmos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O mundo não é cão-come-cão. Acredito que os cães tenham mais dignidade. Somos primitivos demais para caçar em matilha, acabamos concorrendo e perdendo a caça. Não somos muito mais inteligentes do que um anticorpo que ataca o próprio corpo pensando estar fazendo o bem. Nos fazemos mal, e adoramos. Amar é devorar o próximo pelo prazer da indigestão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sou como o vinho: azedo com o tempo. Torno-me intragável, mais e mais a cada dia. Meu bouquet não encontrou lábio que o merecesse no tempo de sua doçura. Agora deleito-me da distância, dos calos deixados por pequenos machucados que receberam importância demais e que permeti que doessem uma dor desnecessária. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Brincar de esfinge é deliciosamente idiota e humano. Decifra-me ou o quê? Decifro-te antes, com garfo e faca na mão. Depois você me devora de volta e ficamos todos em fagocitose. Como é prazerosa a indigestão!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pura imagem! O que me falta falar? "Oh, sou amargo e acho bonitinho?". Só me falta gesticular com um cigarro aceso. Talvez acarinhar um gato enquanto faço a minha mais ensaiada cara de cu. Milhões de anos de evolução, dezenas de músculos no rosto, tantas expressões possíveis e eu decido usar nenhuma. Aquela mesma cara que tinha minha ancestral ameba. Medo do ridículo? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;RI-DÍ-CU-LO. Demônios por inteiro, agora fico de demoniozinho de mim mesmo. Vou amar o ridículo. "Amar é o ridículo da vida", foi Fernando Pessoa? Ridículo é amar a vida. Ridícula é a vida de quem ama. Ridículo é tudo, e eu amo o que me faz rizível. Perdi a vontade de ter graça. Que a graça venha involuntariamente, que surja a graça da minha desgraça. Demorei demais para acolher o meu ridículo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ser gente enjôa, tentar ser semi-deus é querer virar uma estátua de mármore e quebrar na primeira vez em que algo atinge mais o "semi" do que o "deus". Não quero ser semi-nada. Já me basta ser semi-novo e não poder me trocar por outro modelo mais recente. Demônio, sim, demônio como fui proibido de ser.  Divirto-me mais. Quero amores mais doídos, mais reais, menos bonitinhos. Dores de verdade, não de fachada. Experimentar a vida toda, não só as partes bonitas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não tente mais me decifrar. Fagocita-me, tô pedindo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7293044-7671083256483784084?l=comentariosabertos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://comentariosabertos.blogspot.com/feeds/7671083256483784084/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="https://www.blogger.com/comment.g?blogID=7293044&amp;postID=7671083256483784084&amp;isPopup=true" title="15 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default/7671083256483784084" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default/7671083256483784084" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://feedproxy.google.com/~r/comentarios/~3/z4OWKhxpTbM/fagocitose.html" title="Fagocitose" /><author><name>Flávio Voight</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01332506726484047289</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd="http://schemas.google.com/g/2005" name="OpenSocialUserId" value="05712358080031572323" /></author><thr:total xmlns:thr="http://purl.org/syndication/thread/1.0">15</thr:total><feedburner:origLink>http://comentariosabertos.blogspot.com/2009/04/fagocitose.html</feedburner:origLink></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7293044.post-6898681985366146470</id><published>2009-04-25T00:45:00.000-03:00</published><updated>2009-04-25T00:47:04.759-03:00</updated><title type="text">Lábios Ateus</title><content type="html">Lábios lambidos&lt;br /&gt;Saliva espalhada por tudo&lt;br /&gt;O amor, definitivamente, não sabe ser higiênico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Devolva-me:&lt;br /&gt;- o tempo perdido&lt;br /&gt;- as noites sem sono&lt;br /&gt;- o Neruda que você me fez ficar sem ler, porque quis ir ao cinema &lt;br /&gt;- a capacidade de sentir o aroma de perfume barato e não lembrar do seu cheiro&lt;br /&gt;- o dinheiro que eu gastei em telefone&lt;br /&gt;- o retrato que você roubou da minha carteira (se ainda tens, não sei, mas se tiver...)&lt;br /&gt;- o tempo que eu gastei tentando entender seu gosto musical ruim&lt;br /&gt;- a minha ingenuidade (que você quebrou)&lt;br /&gt;- a minha ingenuidade (tinha sobrado um restinho, você fez questão)&lt;br /&gt;- a minha ingenuidade (ok, eu sou patético)&lt;br /&gt;- as horas gastas na frente do espelho pra me sentir bom o suficiente pra você&lt;br /&gt;- o esforço que eu fiz pra que fôssemos compatíveis e tivéssemos assunto&lt;br /&gt;- o meu ridículo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pode ficar pra você:&lt;br /&gt;- a minha idiotice (por ter sido tão ingênuo)&lt;br /&gt;- algumas das memórias boas&lt;br /&gt;- aquele boné nojento que você não tirava por nada nesse mundo&lt;br /&gt;- minha dúvida sobre você ser careca e tentar esconder&lt;br /&gt;- tudo o que eu te escrevi&lt;br /&gt;- as cicatrizes da minha paixãozinha barata e seus reflexos metidinhos a artísticos&lt;br /&gt;- (te interessa um pouco da ingenuidade que ainda ficou comigo?)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lambi seus lábios&lt;br /&gt;Lambeste os meus&lt;br /&gt;Só me restaram&lt;br /&gt;lábios ateus&lt;br /&gt;No fim das contas&lt;br /&gt;de que vale um lábio?&lt;br /&gt;Lábios: os pára-choques da alma.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7293044-6898681985366146470?l=comentariosabertos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://comentariosabertos.blogspot.com/feeds/6898681985366146470/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="https://www.blogger.com/comment.g?blogID=7293044&amp;postID=6898681985366146470&amp;isPopup=true" title="8 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default/6898681985366146470" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default/6898681985366146470" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://feedproxy.google.com/~r/comentarios/~3/ezJR4DkHvpE/labios-ateus.html" title="Lábios Ateus" /><author><name>Flávio Voight</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01332506726484047289</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd="http://schemas.google.com/g/2005" name="OpenSocialUserId" value="05712358080031572323" /></author><thr:total xmlns:thr="http://purl.org/syndication/thread/1.0">8</thr:total><feedburner:origLink>http://comentariosabertos.blogspot.com/2009/04/labios-ateus.html</feedburner:origLink></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7293044.post-8447153679912042494</id><published>2009-04-21T19:08:00.000-03:00</published><updated>2009-04-21T19:15:18.020-03:00</updated><title type="text">Passou</title><content type="html">Passou batom. Passou rímel. Passou blush. &lt;br /&gt;Passou fome uma semana inteirinha esperando o dia do encontro.&lt;br /&gt;Passou o vestido à ferro ela mesma, com medo que a empregada queimasse.&lt;br /&gt;Passou um café bem forte, sem açúcar, pra agüentar ficar em pé durante o dia.&lt;br /&gt;Passou pela farmácia e comprou camisinha, só pra garantir.&lt;br /&gt;Passou raiva quando o flanelinha na frente da farmácia a chamou de tia.&lt;br /&gt;Passou o tempo tentando assar uma torta (que ela só ia olhar, nada de comer). Passou do ponto - de tão distraída, esqueceu do forno.&lt;br /&gt;Passou as obrigações do dia seguinte para uma colega (aquelas colegas que sempre entendem).&lt;br /&gt;Passou a noite inteira sentada, esperando.&lt;br /&gt;A noite passou.&lt;br /&gt;No dia seguinte, passou com o carro por cima do infeliz.&lt;br /&gt;Passou o resto da vida com um sorriso bobo - na cadeia não se passa fome.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7293044-8447153679912042494?l=comentariosabertos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://comentariosabertos.blogspot.com/feeds/8447153679912042494/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="https://www.blogger.com/comment.g?blogID=7293044&amp;postID=8447153679912042494&amp;isPopup=true" title="6 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default/8447153679912042494" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default/8447153679912042494" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://feedproxy.google.com/~r/comentarios/~3/aw-nYL8S6OE/passou.html" title="Passou" /><author><name>Flávio Voight</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01332506726484047289</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd="http://schemas.google.com/g/2005" name="OpenSocialUserId" value="05712358080031572323" /></author><thr:total xmlns:thr="http://purl.org/syndication/thread/1.0">6</thr:total><feedburner:origLink>http://comentariosabertos.blogspot.com/2009/04/passou.html</feedburner:origLink></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7293044.post-917312592824051769</id><published>2009-04-17T23:33:00.002-03:00</published><updated>2009-04-17T23:38:40.381-03:00</updated><title type="text">Bibliotecas</title><content type="html">O mundo mudou, e hoje somos completamente dependentes da grande biblioteca virtual - como diria uma reportagem de televisão sobre a internet, ignorando que ninguém pega vírus numa biblioteca normal (a não ser transando no banheiro da biblioteca, e sem camisinha). O problema mesmo foi quando a internet resolveu meter a mão nas bibliotecas de verdade, aquela metida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É prático poder renovar o livro só entrando no site da biblioteca e botando o código de barras da sua carteirinha? Prático, é. Só que livro de biblioteca não tem a mesma graça se você não lembrar no fim da tarde que hoje é o último dia para a devolução e tiver que sair correndo pra não pagar a - caríssima - multa de um real por dia de atraso. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E outra, não é mais carteirinha, é cartão. Ficou tudo magnético demais, nem carimbo o cartão leva! Lembram dos carimbos de biblioteca? De morrer de orgulho porque teve de trocar quatro vezes de carteirinha no ano letivo, porque não sobrava mais espaço pra carimbar os livros?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem contar na delícia de olhar o cartão pendurado na parte de trás do livro, com as datas de devolução de quem pegou o livro antes de você. Ótimo pra ficar indignado: "Como assim, ninguém empresta Na Sala com Danuza desde 1997?", e depois comentar com todo mundo que as pessoas não lêem mais nada que preste.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E os códigos? Agora toda biblioteca tem vários computadores pra você procurar o livro pelo título, e é só dar Enter para saber em qual estante o livro está. Antes não, era preciso procurar a seção de Literatura, depois de Literatura Brasileira, depois de Clássicos, e achar o livro por ordem alfabética - escravidão! Tudo naqueles corredores frios, e aquela vontade de soltar pum que só um corredor de biblioteca consegue dar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Me surpreende mesmo é que as bibliotecárias - essas sortudas - tenham se adaptado às mudanças. Se fosse eu no lugar delas, iam me encontrar abraçado nas fotos 3x4 e na cola de bastão, me recusando a largar as carteirinhas de papel. E os carimbos, meu deus? Largava o emprego, mas não os carimbos. Ia pra casa, carimbar todos os meus livros, todas as vezes que eu lesse. "Como assim, eu não leio Tereza Batista Cansada de Guerra desde 2006?". E dá-lhe carimbo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7293044-917312592824051769?l=comentariosabertos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://comentariosabertos.blogspot.com/feeds/917312592824051769/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="https://www.blogger.com/comment.g?blogID=7293044&amp;postID=917312592824051769&amp;isPopup=true" title="7 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default/917312592824051769" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/7293044/posts/default/917312592824051769" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://feedproxy.google.com/~r/comentarios/~3/C-Re2O-KX4I/o-mundo-mudou-e-hoje-somos.html" title="Bibliotecas" /><author><name>Flávio Voight</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01332506726484047289</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd="http://schemas.google.com/g/2005" name="OpenSocialUserId" value="05712358080031572323" /></author><thr:total xmlns:thr="http://purl.org/syndication/thread/1.0">7</thr:total><feedburner:origLink>http://comentariosabertos.blogspot.com/2009/04/o-mundo-mudou-e-hoje-somos.html</feedburner:origLink></entry></feed>
